A PEDRA DO REINO
Há alguns anos, eu e meus pais resolvemos dar uma conferida na Expoflora, uma exposição que acontece todo ano na cidade de Holambra, conhecida pelos arranjos de flores acima da média. Chegando lá, ficamos surpresos com os valores cobrados, tanto pro estacionamento, quanto pra entrada que dava acesso aos pavilhões. Bem alto, até mesmo pros padrões de quem estava mais do que acostumado com os preços inflacionados da capital. Na fila pra se pagar o ingresso, meu pai comentou com a gente sobre o absurdo daqueles valores. Nisso, um dos organizadores ouviu o lamento do velho. Indignado, o cara veio nos dar uma espécie de palestra sobre as dificuldades de se montar um evento feito aquele. Que era muito fácil reclamar de valores sem conhecer todo o processo que resultou numa exposição de alto padrão como aquela. Concluiu que era muito desanimador se esforçar tanto assim pra depois só criticarem. Dali em diante, por mim, eu iria embora. Mas, como a curiosidade de meus pais era maior do que tudo, acabamos entrando.
Me lembrei desse episódio ao assistir alguns capítulos de "A Pedra do Reino", a nova microssérie da Rede Globo. Há meses que eu venho acompanhando a produção da mesma, através de notas e reportagens mídia afora. Por aí, vi que, culturamente, a obra tem uma intenção impecável, de resgate de valores regionais, e até mesmo universais, há muitos esquecidos pelos meios de comunicação, tão reféns atualmente de uma massa cinzenta muito da raquítica. A direção de arte então, nem se fala. Tudo produzido com muito esmero, em detalhes que deixam qualquer cenógrafo boquiaberto. A interpretação, prima pela ousadia, de não se deixar entregar ao convencional dos folhetins das novelas, procurando optar por uma estética mais regionalista, calcada na raiz da cultura sertaneja nordestina. Enfim, tudo conspira pra aquilo que muitos críticos chamam de "iniciativa louvável". "Obra-prima". No entanto, ao conferir o resultado de tudo isso, nessa semana, eu achei a minissérie irremediavelmente chata.
Aí, volto ao que senti no episódio de Holambra. Fica até, de certa forma, desagradável não ter aprovado algo que levou tanto tempo e paixão de seus realizadores, exímios experts de nossa cultura, gente séria e comprometida com aquilo que faz e defende. Fazer o quê, né? Eu tentei e não entendi nada. Talvez eu tenha andado insensível demais, sem capacidade pra absorver tudo aquilo que os críticos adoram chamar de genial. Nessas horas, me sinto fora de um clubinho, de sócios que reconhecem uma espécie de tridimensionalidade escondida frente uma paisagem que quase ninguém percebe. Dos que amam filme iraniano, por exemplo.
Sim, é duro de admitir, mas eu achei um pé no saco "A Pedra do Reino", com todos aqueles cacoetes de cultura regional que transbordam ali, ininteligíveis pro tosquinho aqui. Sim, sou um monstro, um insensível. Mesmo assim, aplausos pra iniciativa, pelo duro danado ali. Muita gente há de concordar: é obra-prima mesmo. Talvez você seja um desses. Viva a diversidade! Quem sabe, um dia, eu reveja a microssérie com mais calma, no DVD, com outros olhos e gabaritos presenteados pelos críticos dos cadernos culturais. Mas, hoje, não passa de algo digno de ser decapitado pelo meu controle remoto.
Enfim, aplausos pras nobres iniciativas. Só não me peçam pra achá-las geniais também, condenando o meu bocejo.
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Momento "Meu Umbigo, Minha Vida, Meu Ego": saiu uma matéria no site "Guia da Semana" em que eu apareço opinando sobre a relação entre animais de estimação e crianças. Estou lá, na dupla condição de veterinário e Marcelo.
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E que tal:
- Saber a opinião do médico e escritor Drauzio Varella a respeito de fanáticos religiosos que atacam quem pensa diferente deles?
- Ouvir I Touch Myself, uma delicada e elegante cover feita pela banda paulistana Trash Pour 4? Confira a versão original, popularizada pela banda Divinyls.
- Ver uma infame paródia da "Praça é Nossa", feita pela saudosa TV Pirata?
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Comentários:
A questão é que o "resgate de valores regionais, e até mesmo universais, há muitos esquecidos pelos meios de comunicação" não é verdade, quando se trata de MAIS UMA MINISSÉRIE FALANDO DO SOFRIMENTO E DAS MAZELAS DO POVO NORDESTINO. Caramba, já se vão mais de 20 anos que a Globo insiste em bater nessa tecla! Será que a cultura brasileira realmente se limita apenas ao nordeste?
Me desculpe, mas eu não tenho estômago pra mais outro tanto dessa ladainha. Diversifiquem, sejam originais uma vez na vida.
Re: Concordo que não é verdade o teor da frase que vc citou. Mas, enfim, eu a usei mais pra simbolizar o que as assessorias de imprensa desses projetos costumam propagar por aí, instigando a sede dos carentes de cultura daqui, mesmo que seja a base de velhas cachaças em garrafas moderninhas. De alguma forma, pelo que venho reparando, até que a Globo tem ampliado o regionalismo dela. Prova disso, foram as minisséries "Amazônia" (já auto-explicativa) e a "Casa das Sete Mulheres", baseada no Rio Grande do Sul. Agora, gostar ou não dessas, já é um outro papo.
apesar de historicamente a globo manter o mesmo padrão na maior parte da sua grade (alto nível de qualidade na produção + conteúdo médio [em boa parte disfarçado de bom conteúdo justamente pela alta qualidade das produções] + investimento em formatos já testados e consagrados), ainda assim podíamos encontrar aqui e ali idéias geniais e seus gênios trabalhando com elas.
a merda é a síndrome de líder. o medo da inovação faz com que cada vez mais a emissora só invista no que lhe parece seguro, mantendo bizarrices modorrentas no ar (vide o atual Casseta&Planeta e o chato do Jô
.
quando sente a concorrência apertando, o desespero de uma líder folgada por tantos anos vem à tona. desacostumados a buscar inovação, reunem tudo que lhes parece infalível para "colocar um produto de qualidade no ar" e acabam se embananando. queriam montar uma obra de arte, chamaram os craques de cada área técnica, escolheram o melhor texto, o cenário ideal, etc, etc.
Só não levaram em conta detalhes desimportantes como o tempo em que vivemos, as novas expectativas e maneiras de consumir entretenimento e as limitações do meio TV para certos tipos de experimento técnico.
(sou neoleitor do fiapo - por isso a empolgação no comentário, ehehehe. lendo sempre, quase todo dia por aqui)
Re: comentário interessante, Doda. Não basta a técnica, é preciso criar vínculos que seduzam o telespectador, seja esse comum, ou sofisticado. Prova disso é a minissérie "Hoje é Dia de Maria" que conseguiu ser bem mais feliz nesse sentido, se formos comparar o ibope entre as duas obras, oriundas do mesmo diretor. Por isso, aguardo com ansiedade pelo próximo projeto do Luiz Fernando Carvalho.
li hoje uma matéria, acho que no uol, falando sobre a audiência sofrível da série. não assisti, mas acho que você não foi o único a não gostar.
mas, o bom da vida é que alguns dias têm coisas bacanas que não custam nada: em brasília, o show do gotan project será de graça! eu fiquei feliz da vida com a notícia.
e a propósito, adorei o texto.
beijo.
Re: Por saber que existe muita coisa bacana de graça por aí, sobretudo em grandes centros como aqui em São Paulo, olho desconfiado pra esse pessoal que vive reclamando que não tem nada de bom pra fazer nos fins de semana, principalmente por causa da grana escassa. A produção Gugu, Faustão e Cia agradece.
Eu assisti o primeiro capítulo, diria que entendi alguma coisa ou outra, achei até legal e tals. Mas… de fato… nem cheguei a assistir os outros episódios [um deles, aliás, que irá rolar hoje, enquanto eu detono mais alguns neurônios num joguinho qualquer de videogame].
O fato é que eu sou uma pessoa idiotizada pela cultura americana de seriados. Então se o negócio foge demaaaaaaaaais do padrão do "entendível", então, eu tb num vou ficar me esforçando mto pra entender tb não.
[acho que se vc assistir a microssérie no 'mudo', seja melhor!]
Re: visualmente, essa microssérie foi um primor, sem dúvidas. Mas, não vejo razões pra vc e tantos outros lamentarem a falta de compreendimento dessa obra. Do modo como foi montada, não dá fome de entender mesmo, ao contrário de outros filmes, peças, livros, de tramas complexas, mas magicamente, digamos assim… inteligíveis, seja aqui, seja no Cazaquistão. Bem, pelo menos pra mim…
Eu não vi nadinha da minissérie, mas já estou sentindo que não vou gostar. O mais engraçado é que eu fui assistir à montagem do CPT no teatro e adorei!
Re: Bem, não desconfio que eu também vá adorar a "Pedra do Reino" em outras ocasiões, seja numa peça de teatro, seja na releitura do DVD. Mas, do que passou na Globo, não bateu legal por aqui…
Poxa, Tuca, também não entendi patavinas da microssérie. E o pior de tudo foi ouvir que, se não entendi ou se não gostei, é porque sou uma idiota que alimentei minha mente durante muitos anos com o Chaves ou Chapolim e, por isso, fiquei deficiente. Ai, ai… e eu nem via Chaves e Chapolim. Na minha época, eu via Maxwel Smart - Agente 86, hehehehe…
Re: Cláudia, infelizmente, existe a patrulha intelectual, sempre atuante em seus clichês de superioridade cultural, ao bradarem que somos imbecis ao quadrado quando ousamos achar um porre aquilo que só o departamento de socio-antropologia regional julgou genial. Eu, na infância, achava Chaves o máximo, por exemplo, mas isso não me fez deixar de ler, anos adiante, os meus livrinhos de perfil mais de… departamento de socio-antropologia regional…
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Bom, não acho muito produtivo fazer análises profundas sobre um programa de TV, qualquer que seja. Pra mim, TV é diversão e pronto. Bem ou mal feito, é apenas para encher os olhos e manter a mente trabalhando em ponto morto.
O problema todo é que eu não vejo muita TV, porque não curto muito. Nada que passa na TV aberta me atrai. Devo ser um besta.
Mas fico pensando: se houve uma necessidade durante anos para nivelar a programação de TV por baixo, o que fazer quando o povão não entende mensagens absolutamente incríveis, recheadas de poesia e regionalismo?
:S
T§
Re: Társis, a resposta ao seu questionamento pode ser "Hoje é Dia de Maria - Primeira e Segunda Jornadas". Sim, teve quem achou chato também. Mas, no meu caso, eu vi, entendi, e gostei. No mais, nem todo projeto nobre consegue atingir o tal povão. Lamentei isso ao tentar acompanhar "A Pedra do Reino". Paciência. Agora, tentar botar a culpa na ignorância de quem tem a posse do controle remoto, é algo que não consigo fazer mais depois de conferir "Hoje é Dia de Maria", que, aliás, foi muito bem de audiência.
Deu na Contigo! Tuca e Patrícia são vistos saindo do Bar das Empanadas no último domingo à noite!
Re: Onde, onde? Pô, eu decidi ficar em Sampa justamente pra curtir o anonimato das multidões. Malditos freelas da Contigo! Mas, falando sério, você estava por lá também?
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Passei de carro quando vocês estavam atravessando a rua. Foi muito rápido, nem sei como reconheci vocês!
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PING:
TITLE: Por esta e por outras… — BlogueIsso!
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[...] O vídeo foi via Fiapo de Jaca (a propósito do assunto central do post dele, vi pouquíssimo a "Pedra do Reino", mas tive a mesma sensação, tédio em forma de mini-série, e olhe que sou louco por Ariano Suassuna e sua obra. Tinta demais para pintar um quadro simples.) [...]