REVELAÇÕES
Como sempre, eram o pai, a mãe, e o filho na mesa de jantar. E era agora ou nunca. Respirou fundo e mandou ver:
- Pai… mãe… tenho algo a dizer… – a voz trêmula já denunciava um assunto grave.
- Fala, lindo… - responde a mãe, seguida pelo olhar de concordância do pai.
- É sobre ontem… Eu não fui a um churrasco, como eu tinha dito. Eu fui na… Parada Gay.
- Tá, e daí? - reage o pai, tranqüilamente, enquanto corta o bife.
- Como e daí? O que eu quero dizer é que eu sou… sou…
- … gay? - perguntam os dois, ao mesmo tempo, sem sobressaltos.
- Isso, papai e mamãe, sou gay! GAY!
- Ah, tá… Filhão, me passa o sal? - pede o pai. A mãe continua a mastigar o arroz e feijão, enquanto assiste a novela.
- Ei, vocês não me ouviram? Eu acabo de confessar a minha sexualidade e vocês reagem dessa forma, como se eu tivesse dito uma coisa qualquer?
- Mas, Júnior - interrompe a mãe - como você queria que a gente reagisse?
- Ah, sei lá. Eu esperava que, no mínimo, a senhora desmaiasse e o papai me expulsasse de casa. Ou vice-versa. Me preparei durante meses pra esse momento. Eu até fiz as minhas malas. E tá vendo aquela ambulância ali fora? – ele aponta pra janela – Eu pedi pro pessoal ficar de prontidão , no caso de um de vocês ter um troço. Ou os dois, sei lá.
- Credo, Júnior. Que idéia você tem da gente, hein? Francamente…
- Já sei, vocês já sabiam de tudo! É isso!
- Sabíamos nada. - estranha o pai - Até ontem, eu e sua mãe estávamos conversando sobre a nossa suspeita de você estar namorando a vizinha lá do fim da rua…
- A Regina é minha amiga, papai, nada mais. Mas, posso saber a razão de tanta naturalidade? Tanta compreensão?
- Filhote, - começa a falar a mãe, segurando a mão trêmula dele - os tempos mudaram. A gente tem consciência de que, hoje em dia, o que é importa é ser feliz, independente da opção sexual do indivíduo.
- Concordo plenamente. - sorri o pai, afetuosamente.
- Mas, saiba que vocês jamais terão netos. Sou o filho único de vocês!
- Júnior, esse mundo já tem gente demais. - avisa o pai, com um ar professoral - A sua opção, além de dizer respeito somente a você, é ecologicamente correta. De quê adianta termos uma pessoa a mais entre nós se os recursos naturais não acompanham esse crescimento? Isso sem falar na questão da violência, escassez de empregos, etc… Em prol do planeta, eu e sua mãe dispensamos um neto.
- Pôxa… Então eu posso trazer pra jantar com a gente o Miro, meu namorado?
- O Miro, filho do nosso mecânico, o Tonhão?
- Sim…
- Há quanto tempo vocês namoram? – pergunta o pai, curiosíssimo.
- Uns dois anos já…
- Mas olha só como vocês dois são danadinhos, hein? – ri o pai, dando um leve tabefe no braço do filho.- Veja só, nêga, os dois pombinhos, namorando escondidos da gente durante todo esse tempo! E a gente, sem desconfiar de nada! Da-na-di-nhos! – completa o pai amistosamente, rindo ainda mais, antes de pegar mais um pedaço de bife.
- Pois é, papai… A gente tem tudo a ver. Tudo! Temos o mesmo gosto pra comida, música, cinema, teatro, dança, artesanato, política… Na última eleição, pra se ter uma idéia, votamos no mesmo candidato, sem que tivéssemos combinado coisa alguma. No dia seguinte é que fomos descobrir que ajudamos a eleger o Maluf! Uma coisa cósmica!
- COMO? – reage o pai, largando os talheres.
- É, hoje em dia, a gente até faz parte da ala gay da Juventude Malufista! Arrasamos lá!
- Peraí, Júnior, você tá brincando com a gente, né? MALUF? Você tá de sacanagem com a gente. Diz que é mentira, DIZ!!!– Se desespera o pai. A mãe, já prevendo o pior, sai correndo da mesa direto pra cozinha, onde estava o remédio anti-hipertensivo do marido.
- Ué, papai? O Maluf fez o metrô de São Paulo, o Minhocão, o Projeto Cingapura, o Leve-Leite, a Avenida Águas Espraiadas, a Rodovia Ayrton Senna, a…
- CALA A BOCA, JÚNIOR!!! CALE A BOCA, MOLEQUE!!!! – levanta o pai da mesa, berrando com os punhos cerrados em direção ao filho.
- Olha, papai… ele rouba, mas faz, tá?
- QUE MALUF O QUÊ, SEU… SEU… REACIONÁRIO! ALIENADO! SUMA DESSA CASA! AGORA!
A mãe volta da cozinha, com os comprimidos na mão, praticamente despejando-os na boca do companheiro, que já ia perdendo os sentidos. Ela não se conforma também:
- Olha aí! Tá feliz agora? Olha só o que você fez com o seu pai! Ele é cardíaco, lembra? Cinco pontes de safena! CINCO!
- Mas, mamãe…
- QUIETO! Onde já se viu, ajudar a eleger aquele filhote da ditadura? Francamente, Júnior. Francamente!!!
Pra sorte do pai, a ambulância continuava ali, pronta pra levá-lo pra colocação da sexta ponte de safena. No dia seguinte, enquanto carregava a última mala, Júnior ainda tentou argumentar com a mãe, sem sucesso, ao dizer que caras como ele terão mais respeito da sociedade no dia em que as novelas e os filmes começarem a retratar os malufistas como pessoas normais. Sem estereótipos.
Gente como a gente, sabe?
****************
E que tal:
- Ler "Antes ela do que eu", texto do sempre inspirado Nelson Moraes, autor do blog "Ao Mirante, Nelson"?
- Ouvir a bela e engraçada cover que a banda Travis fez para "Baby One More Time", sucesso na voz de Britney Spears? Se quiser, confira aqui a versão original. (Valeu pela correção, Fernanda!)
- Ver a entrevista do ótimo comediante Beto Hora no Programa do Jô (Parte 1 e 2)?
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OLHA O RESPEITO!
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Comentários:
adorei o texto!~
não pude escutar a música, pois estou sem caixas de som aqui, mas essa música não foi regravada pelo travis? ou essa é realmente outra versão que eu ainda não ouvi?
beijos.
Re: Fernanda, mesmo sem ouvir a música, vc está certa. Descobri que, de fato, essa cover (pelo menos a que disponibilizei aqui), pertence ao Travis, como pode ser atestado nesse vídeo aqui. Alguém, de alguma forma, creditou essa versão ao Weezer, informação que foi sendo disseminada por aí… Valeu pela observação! Mas, se mesmo assim, alguém souber de uma versão do Weezer, que, por favor, me avisem (com provas!!)…
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Hahahahaha, provavelmente eu reagiria do mesmíssimo jeito que esses pais. Filhos malufistas, credo, que eu não tenha que passar por esse desgosto! ![]()
Só uma dica: uma coisa que é "uó″ é ruim, não boa. Uma coisa boa é tudo de bom, arrasa, mas não é uó.
Re: Valeu pelo aviso, Alessandra. Sendo assim, meus conhecimentos sobre o vocabulário mix é algo assim, tipo, uó, né? Eu deveria ter consultado esse dicionário aqui. Bem, tropeço consertado já.
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Filho gay eu certamente aceitaria sem problemas, mas filho Malufista levaria taaaanta porrada que benzadeus… rs
Pôxa, eu podia jurar que a música era do Weezer também, e não do Travis (a cover da Britney). Muito boa!
Ótimo texto, Tuca, como sempre. ![]()
Re: Realmente, imagino a dor que muitos pais devem sentir ao perceber que o filho tem tendências malufistas. A decepção deve ser indescritível quando aquele cidadão, que foi uma criança adorável, começa a dizer coisas como "estupra mas não mata, pô!" Nessas horas, o diálogo deve ser fundamental.
Beijos.
Nossa, Tuca, hilááááário como sempre! Você se supera, guri, de verdade!!!
O minininho começou a falar de eleições eu já pensei: lá vem merda! hauhauhauhuahuahuahuahuahuahuahuahuahauhua!!!
E eu vou ouvir essa versão aí, só pra ver como é que ficou!
Beijos, guri!
[ps: tão bom chegar aqui nesse dia 12 e perceber que o texto não é maaaaaaaaais uma ovação aos namorados... assim como eu fiz, kkkkkkkkkkkkkkk!!!]
Re: Obrigado, Ana! Quanto ao seu "ps", os blogueiros, em sua maioria, costumam dedicar textos ao fato de não terem um amor no dia dos namorados. A linha desses varia. Vai desde o "tô legal sozinho, viu?" até o desesperador "puta que pariu, mais um dia dos namorados e eu aqui nessa solidão???? Aaaaaaaaaahhhhh!!!!"
o "ar professoral" realmente dá um tom a mais ao texto…rs.
E sim, a cover que eu conhecia é do travis, famosa já pelos trocadores de música por aí a fora. E tem também uma muito boa, que conheci por indicação do Inagaki, uma cover de Careless Whisper com Ben Folds e Rufus Wainright.
Agora só falta o Maluf perguntar, como o ar professoral de quem tem sotaque falso de árabe: "Quem levou mais de 3 milhoes a parada gay? Maluf que fez, maluf que faz!
E você acredita que o ex-governador de Brasília, o Roriz copiou esse slogan do Maluf? Sim, ninguém merece.
Re: Nada como uma bela busca ao google pra desmentir determinadas certezas, não? Só espero que o Didi de Bethânia seja realmente interpretado pelo Didi Mocó. A cover indicada pelo Inagaki já tem meio caminho pra ser boa, devido seus intérpretes, muito bons. Aproveitando a deixa, tem um grupo aqui de Sampa que se dedica a fazer covers originalíssimas de canções já enterradas no tédio do pop, ressuscitando-as de alguma forma. Trata-se do Trash Pour 4. Vale uns downloads via Emule.
O Roriz é o Maluf de vocês, né? Sinto muito…