A BAHIA DO GUGU E DO FAUSTÃO
Se tem algo que me incomoda bastante em viagens turísticas é justamente ser tratado como um… turista. Por mais estranho que isso possa parecer, faz sentido pra pessoas feito eu, que preferem descobrir o ambiente ao invés de serem conduzidas numa passividade garantida pelo folder da agência de viagens. Tomemos como exemplo a Bahia, mais especificamente Porto Seguro, onde estive no início do mês passado. Lá, o lugar comum é, em quase todos os eventos, a pessoa se ver na obrigação de assimilar uma suposta alma baiana, expressa por uma alegria incontrolável e contagiante enquanto se dança ao som de um axé com letras que funcionariam perfeitamente no roteiro de um filmeco pornô, produzido num fundo de quintal qualquer. Pra minha sorte, o pessoal que estava comigo - incluso aí a Patrícia, minha namorada - compartilhava da minha visão mais independente de viagem, sem a submissão de sempre agir conforme a orientação dos guias turísticos, devidamente comissionados junto aos locais mais "porretas", segundo eles.
Adquirimos um desses típicos pacotes de agência de viagens, onde o custo da hospedagem e passagem do avião cai bastante se comparado com um esquema em separado, ainda mais na baixa temporada. Dos tais passeios inclusos junto ao pessoal da agência, através do ônibus deles, ignoramos todos, pois tivemos a sorte de ter um carro a nossa disposição. Cortesia do pai da Patrícia - por sua vez, a principal razão de nossa viagem -, que mora em Santa Cruz Cabrália, cidadezinha ao lado de Porto Seguro. Sendo assim, dispensados de obrigações quanto ao cumprimento de horários e roteiros, rabiscamos conforme o nosso humor as setinhas no mapa da região. Apenas em uma ocasião fomos obrigados a suportar a Bahia do Gugu e do Faustão, num passeio de escuna feito sob medida pro pessoal que confunde felicidade com gritinhos de "uhuuu!" enquanto se rebola ao redor da boquinha da garrafa ou coisa pior.
Na escuna, apesar da visão linda ao redor, mangue e mar, tudo em cores e tons dignos de fazer inveja aos Guarujás do mundo, o guia ali estava mais preocupado em "levantar o astral" do pessoal. Quem ousasse olhar apenas para a paisagem, como eu e a Patrícia, era constantemente interrompido pelo figura, com um incansável "Sorria, vocês estão na Bahia!". Isso sem falar no axé mais do que tosco que saía da caixa de som, em volume suficiente pra espantar qualquer pássaro ou siri num raio de 5 quilômetros. Descobri que contemplar ali, serenamente, era sinônimo de tristeza. Triste isso. Ao invés de ficar verdadeiramente emburrado, decidi entrar na brincadeira então. Afinal, como eu estava na Bahia, eu também queria me divertir, ô painho! Mas ao meu modo, é claro.
Na enésima vez que o guia tentou me tirar daquela coisa depressiva de só ficar contemplando a paisagem, tentando fazer com que eu e a Patrícia dançassemos um pouquinho de forró abestado - sim, não era só axé, tão pensando o quê? - eu rejeitei a sugestão, já desistindo de mirar o mangue ao lado:
- Olha… não tô com vontade de dançar isso, amigo… - eu disse, meio sério.
- Ôxe, deixe de acanhamento, galego! É só fazer assim, ó… Segue aí. - e o cara ensaiava uns passinhos básicos, cheios de suingue, malemolência, essas coisas.
- Olha… eu… eu…
- Ôxe… Tenta aí… Sorria, você está na Bahia!
- Sabe o que é? Eu tenho as pernas meio atrapalhadas pra esse tipo de coisa por causa de um derrame que tive um tempinho atrás aí…
- Ah é?
- Pra você ter uma idéia, até o início desse ano eu só conseguia ir ao banheiro com a ajuda dela - apontei pra Patrícia.
- Ôxe…
- E o fato de eu estar aqui, nessa escuna, curtindo o ambiente, é uma vitória pra mim, entende?
- Ôxe… Então tá… - ao que parece, o cara deve ter entendido o recado, uma vez que ele não veio mais falar comigo. Nem se animou a observar novamente o meu bronzeado de dinamarquês albino - ôxe, não vai pegar uma corzinha, não? - , que resistiu heróicamente por toda a viagem, graças ao uso obsessivo de protetor solar. Mais uma semana lá e eu passaria protetor até sob o luar, desconfio.
Enfim, tirando a tarde nessa escuna, animada sob medida pro turista que aprendeu a gostar da Bahia por causa do Gugu e do Faustão, posso dizer que a viagem me revelou vários projetos de paraíso na maior calma possível - sobretudo as praias de Trancoso e Arraial D'Ajuda -, ideal pra quem quer apenas sentir que a vida pode ser boa, nem que seja por uma semana, numa serenidade que foto ou vídeo algum revelará. E você tem que estar ali, descobrindo a olhos nus, do seu jeito. Mas se você adora esse esquema da euforia planejada a partir das agências de viagem, maravilha. Afinal, cada qual com sua visão de felicidade, não é mesmo?
E sorria, você está no mundo!
Ler "Os surdos, os escritores e a internet", texto do Alex Castro, do blog Liberal, Libertário, Libertino?
Ouvir Girl, do Beck?
Ver o documentário Ilha das Flores? (parte 1 e parte 2)?
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Comentários:
Rapaz! Te confesso que já senti vontade de contar uma estória dessas para esses malucos que vivem torrando nossa paciência nesses passeios.
Beleza de texto! Já estava sentindo falta de coisas novas (ainda bem que acabou a "sessão retrospectiva"
)
Re: Rapaz, até eu já estava com saudades de mim, numa versão mais atual, entende?
Porto Seguro é mesmo lindo. O que mais gosto de lá é da areia, de afundar o pé naquela areia. Quando estive lá, mesmo detestando axé e variações, diverti-me muito com a despreocupação daquela gente. Cada pessoa aproveita a viagem da forma que melhor lhe convém. Que bom que você descobriu a sua! ![]()
Re: das maravilhas, além da areia, temos aquela água que do mar que está sempre morna. Bem, pelo menos na época que fui… Quanto a despreocupação, acho bacana vê-la durante apenas uma semana. Mais do que isso, já começa a me estressar, mainha.
Bom… confesso que, se eu estivesse na escuna, estaria me rebolando toda ao som de todas as músicas toscas… mas é que eu tenho problema, painho, meu quadril tem vontade própria, eu não tenho noção do ridículo e qualquer musiquinha - até a do carro de gás passando na rua - me faz sacudir o corpixo cansado de guerra.
De qualquer maneira, sua sacada para espantar o guia pé-no-saco foi genial.
Re: vixe, então é só um sabiá cantar mais afinadinho que já vira motivo pra vc se remexer mais animada que chacrete em dia de pagamento? Aiai…
Pois é… a viagem teve mesmo momentos ótimos e outros mais malas… que, sinceramente, acho que só não me estressaram mais por eu ter a sua companhia… ![]()
Beijos, te amo. ![]()
Re: Sério? Mesmo com toda aquela minha insistência pra comer moqueca?![]()
Te amo, linda!
Mas e voce,ja veio em Guarapari ES,aqui tem umas praias maravilhosas e a famosa moqueca capixaba...hum!!!!mas se nao quiser conhecer as praias e comer a moquece ninguem vai te obrigar ein...rsrsrsrs.Se voce nao conhece,venha conhecer!tenho certeza de que vai gostar!!!!bjs
Re: Já estive em Guarapari, coisa de uns dez anos atrás. Moqueca quase todo dia, que comi de boa vontade.
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