AFINIDADES DESAFINADAS

Pessoas mudam conforme o cenário. Como conseqüência, as afinidades também. Um bom exemplo disso são aqueles famosos amigos de balada. Na noitada, só faltam fazer um pacto de sangue pra honrar a amizade com a gente. Fora dali, na luz do dia, nos fazem espremer o cérebro na esperança que pingue alguns neurônios capazes de inventarem algum assunto pra um papo qualquer. Muitos relacionamentos só funcionam sob um determinado ambiente ou motivação. Fora dessa zona de conforto, restam apenas formalidades.

Tive um patrão que, no ambiente de trabalho, era uma mistura meio mal resolvida de Hitler com o Palhaço Arrelia, tamanha a tirania atrapalhada que o figura exibia. Era o típico escroto, fácil de odiar. Mas fora do trabalho, em inúmeros happy hours temperados com doses de whisky e gargalhadas, o cara se revelava um dos melhores papos que um ouvido pode conhecer, com pensamentos interessantes e piadas sempre novas. Ou seja, pelo menos na minha vida, ele não funcionava como patrão. Mas era útil como amigão de happy hour, ainda mais porque ele sempre pagava as rodadas pro pessoal.

E é claro, essas afinidades escorregadiças são mais sensíveis ainda entre casais. Quem nunca passou pela experiência de conhecer alguém que provoca um terremoto interno só no encostar, mas que, fora isso, nada mais se aproveita? Parece que certas pessoas entram na nossa vida só pra serem personagens de um enredo limitado e breve. E só funcionam naquele determinado cenário. Desempenham muito bem apenas um papel, seja esse sexual ou intelectual, mas revelam-se um fiasco na tentativa de se adequarem a um outro enredo, diferente daquele que foi um sucesso com a gente. É como pedir pra uma atrizinha iniciante da Malhação fazer convincentemente uma personagem de tragédia grega. Não funciona. Mesmo assim, homens e mulheres continuam vez ou outra investindo todas as fichas nesses personagens de uma história só. Sexo demais cansa, papo demais também. Certas paisagens devem ser breves em nossas vidas, pra não seguirem pelo atalho do tédio, pra continuarem bonitas.

Mas não quero dizer que todos os relacionamentos são assim, limitados. As pessoas especiais, sejam amores ou amizades, assim o são por transitarem naturalmente em qualquer ambiente ou situação em nossa companhia. São, diríamos assim, raridades multifuncionais em nossas vidas. Com essas, não há necessidade de condições ideais de temperatura, umidade e pressão para a afinidade fluir. Pessoas exatamente assim, contamos nos dedos. E de uma mão só.

(Texto escrito em 15/03/2006)


Permalink12.04.07, 12:00:12, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Relacionamentos, Amizade 4 comentários



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Comentários:


Comentário de: Srta. Bia · http://noticiasdomundo.zip.net

Há varios pontos com os quais concordos nesse texto. O ser humano é mesmo algo difícil de ser explicado quando se trata de empatia. Outro fenômeno é quando alguns dos seus melhores amigos não têm absolutamente nada a ver com você nos gostos. Mas como se admiram e têm uma trajetória juntos a amizade acaba não amolecendo, não se sabe muito bem como.
E costumo dizer que grandes amigos e pessoas são aquelas com as quais podemos passar anos sem ver, mas que quando encontramos é como se fosse ontem.


PermalinkPermalink 12.04.07 @ 21:53



Comentário de: Claudia Lyra · http://loucaporblog.wordpress.com/

A gente conta com os dedos de uma só mão e ainda sobra dedo… uma pena.


PermalinkPermalink 13.04.07 @ 10:26



Comentário de: Vozes na mente do Társis obrigam e ele · http://quintessencia.wordpress.com

"Tive um patrão que, no ambiente de trabalho, era uma mistura meio mal resolvida de Hitler com o Palhaço Arrelia, tamanha a tirania atrapalhada que o figura exibia. Era o típico escroto, fácil de odiar."

- AHAHAHAHAHAHAH… que DE-MA-IS..
Não consigo pensar em mais nada. O mundo está cheio de maluquinhos desse naipe.. ótimo!


PermalinkPermalink 13.04.07 @ 15:32



Comentário de: Denise

Você é uma dessas pessoas pra mim.

Beijos!
Re: idem! Bjs! :)

PermalinkPermalink 06.01.09 @ 14:46



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