VAI SUAR, VAGABUNDO!
Isso aconteceu numa sessão de uma dessas CPIs que tivemos no ano passado. Ou seria no ano retrasado? Sei lá. São tantas, infelizmente, que acabo me atrapalhando na citação. Enfim, o nobre digníssimo excelentíssimo dotô deputado, acuado por denúncias, resolveu se defender ali mesmo, frente as lentes da TV Câmara, berrando feito o Felipão na beira do gramado:
- Respeitem o meu histórico de vida! Tenho honra! Tão vendo esses braços aqui? Tão vendo? Eles já carregaram muito saco de arroz nessa vida. Ainda menino, eu ajudava o meu pai. Eu já trabalhava! Carregando saco de arroz! SACO DE ARROZ!!! O dia inteiro! Ano após ano! Debaixo de sol e chuva! Portanto, me respeitem!
Meses depois, apesar das evidências contra ele, o Congresso o absolveu das acusações, nessas pizzas já tradicionais lá de Brasília. Mas até hoje, o discurso nervosinho do figura continua reverberando na minha cabeça. Emblemático. Um belo exemplo da maneira como muitos encaram o trabalho meramente físico, como algo mais do que santo, em detrimento de quem vive do esforço intelectual. Com isso no currículo, o indivíduo tem uma espécie de piques, que o livra, teoricamente, de qualquer julgamento moral, por toda a vida.
Não quero aqui desmerecer aqueles que garantem seu sustento carregando sacos de chumbo ou de arroz durante horas, por toda a semana. Nobre, muito nobre, como todo trabalho que ajuda a construir algo, seja físico ou não. Mas é curiosa a maneira como grande parte da peãozada - e de nossa população - enxerga aqueles que trabalham sem despejar uma só gota de suor:
"Ficar na frente do computador? Ah, isso não é trabalho, sô! Trabalho mesmo é isso aqui que faço, carregando cimento pra cima e pra baixo, o dia inteiro. Olha o muque. Os calos! Tá vendo?"
Eu me tomo como exemplo. Durante mais de dois anos, trabalhei direto em casa, no computador, editando e desenvolvendo conteúdo pra uma editora que publicava guias de produtos para animais. Não era preciso sair de meu apartamento pra tanto, uma vez que a comunicação com a empresa, sediada numa cidade do interior a 120 quilômetros daqui, era feita pela internet mesmo. Coisas do mundo moderno. Comparando-se com a rotina que eu levava antes, de veterinário de campo sujeito a eventos como calotes de fazendeiros e acidentes na estrada, tive um aumento significativo na qualidade de vida, ganhando um pouco mais até, no conforto da minha casa.
No entanto, pelo fato de não estar fazendo do trabalho o martírio de minha existência, pessoas próximas a mim viviam me perguntando, preocupadas, quando é que eu voltaria a ter um trabalho "normal". Afinal, trabalhar daquele jeito, de bermuda e chinelo, não dava. Alegavam que não era uma atividade séria como a que eu tinha antes, quando eu saia de madrugada e voltava pra casa exausto, já tarde da noite. E pouco importava se eu estava ganhando mais.
Vai entender…
Mas, pensando bem, posso usar ao meu favor episódios da minha fase de veterinário-peão, caso um dia desses eu precise defender a minha honra. Eu gritaria indignado, que nem o coitadinho do deputado lá que carregou sacos de arroz:
- Tá pensando o quê? Eu tenho honra! Respeite o meu histórico de vida! Durante mais de cinco anos, eu já tomei muita bicada de avestruz! Já fiz muita autópsia nesses bichos, já podres, debaixo do sol do meio dia!!! Com uma multidão de moscas varejeiras ao meu redor! Tá pensando o quê? Me respeite!
E o pior que é verdade. Ou melhor? Sei lá.
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Comentários:
Olá Tuca! Parabéns pela post! Eu, como designer, tenho a mesma opnião que a sua! Quem foi que disse que depois de uma semana me matando na frente do pc pra desenvolver uma logomarca para uma empresa e com o prazo se esgotandouma pessoa não fica esgotada no final do dia??? Cada um sabe aonde seu sapato aperta!!! Abraços!
O meu seria: "eu já dormi várias noites, debruçada numa mesa de banco, enquanto um mardito um tal de IPL na máquina… Olha aqui a cara de acabada, sem dormir por 2, 3 noites seguidas".
E eu trabalho "com computador"… ôôôôôô vida besta!!
Beijos
p.s. mandei um e-mail para a Pat e, como não tenho o seu, pede para ela te mostrar a parte do agradecimento pela ajuda de semana passada.
Me vi no seu texto, Tuca. Há mais de dois anos trabalho em casa, no computador, e embora ninguém diga diretamente, dá para sentir no ar a reprovação, como se as pessoas dissessem, com olhares, coisas do tipo "esse moleque não faz nada além de ficar brincando no computador?". Enfim, fodam-se eles
.
Eu só estou preocupado com a parte do trabalho forçado como defesa de futuras acusações. Office boy conta?
[]'s!
Saudações…
Achei interessante seu post! Também sou designer e (mesmo sendo freelancer, e não viver disso, ainda) reconheço que essa resistência existe. Principalmente pelos mais "idosos" que não conseguem aderir ao trabalho moderno. Se não suar é vagabundo mesmo. ,
A vantagem pra quem ganha a vida assim é que muitos trabalhos são bem valorizados, e da pra ganhar bem mais fazendo menos força (física é claro), até porque, ainda tem muita gente que só sabe fazer força mesmo!
Abraço…
Pois é… trabalhar em casa, do jeito que você descreveu, pode até não ter o reconhecimento do povo, mas, pelo menos, é remunerado. Pior são as donas-de-casa, que têm trabalho braçal, suam por conta dele, não têm horário de começar, nem de acabar e ainda levam a pecha de não fazer nada. E sem remuneração!!!
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