AMIGOS DE CASULO
(Como sou médico veterinário de formação, qualquer coisa que eu venha a escrever sobre animais tem um selo de autoridade. Ok, sei que no fundo não é bem assim, afinal temos por aí vários profissionais excelentes no discurso, mas desastrosos naquelas responsabilidades que o diploma impõe. Rolandos Leros é que não faltam nesse mundo. Mas, enfim, o fato é que, meses atrás, umas amigas minhas me convidaram para colaborar em um trabalho de conclusão de curso de jornalismo – um projeto de revista direcionada ao público solteiro -, escrevendo uma crônica sobre animais. Como tema, me foi imposto sugerido abordar o universo das pessoas que pouco saem de casa e a relação dessas com seus bichos de estimação. E com o trabalho, desde o fim do ano passado, avaliado, aprovado, e esquecido arquivado em alguma gaveta de faculdade, sinto-me à vontade para publicar o texto aqui, enfim. Como conseqüência disso, fui convidado para atuar como cronista de uma revista sobre animais de estimação, a ser lançada em maio agora. E em troca de alguns milhares de centavos. Eu, ganhando uns trocados pra escrever. Sei lá, engraçado isso…)
Da ameba a baleia, qualquer ser vivo passa os dias na busca daquela boa sensação de segurança. Dentre as várias maneiras de se conseguir isso, podemos destacar a nossa relação com os locais onde nos sentimos bem à vontade, como a nossa casa. Nesse caso, vejo cada vez mais ganhar força o fenômeno do encasulamento, aquele onde a pessoa, se pudesse, passaria dias dentro de casa, sem saudades do mundo lá fora. E não estou falando de isolamento total, uma vez que a internet pode fazer de qualquer um o ser mais social do pedaço, mesmo que esse seja virtual. E por falar em relacionamento, um real pode ganhar força nesse contexto: o das pessoas com seus animais de estimação.
É natural que os laços entre um cão e seu dono fiquem mais firmes quando o segundo pouco sai de casa. No confinamento, seja lá qual for a razão desse, por opção ou falta dela, esse companheirismo pode vir a ganhar aquele ar das grandes amizades. A presença desse outro torna-se indispensável, onde o cão ou gato deixa de ser simplesmente aquele bicho engraçadinho ou maluquinho. Torna-se algo mais. Por mais que as distrações do lar consumam o tempo da pessoa, a presença do amigo peludo dá uma outra dinâmica à estadia em nossas cavernas modernas. Há uma cumplicidade, mesmo que silenciosa, mas bem mais autêntica que muitas carinhas que pipocam por aí nos orkuts e messengers da vida. Uma ligação que não seria tão intensa assim caso o dono pegasse a via inversa do encasulamento, ficando em casa apenas pra dormir, nada mais.
Uma vez que o mundo lá fora continuará tendendo à hostilidade e não deixaremos de buscar a boa qualidade de vida, não estranho o crescimento desse fenômeno, onde o bicho vai aos poucos deixando o quintal pra se instalar de vez nas salas adentro. Afinal, salvo uma ou outra exceção, feito os que possuem odores não tão agradáveis assim, fazemos questão de ter ao nosso lado os melhores amigos. Mas é claro, passear com os mesmos, deixando o casulo vez ou outra, faz um bem danado, pros dois. Assim como encontrar e se comunicar com seres da mesma espécie também, ao vivo e a cores, debaixo do sol que computador algum conseguirá reproduzir…
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Comentários:
Não sei se é pela musica que estou ouvindo… Mas isso me pareceu tão lindo!!!
Animal de estimação é o que há!
=*
Re: Qual música? Alguma dos Saltimbancos?
Adorei o texto! E, bem… você, melhor do que ninguém, pode comprovar como é meu relacionamento com meus filhos de quatro patas… sou MUITO mais zelosa que muitas "mães" por aí, que jogam seus pimpolhos boiando em lagoas… meus animaizinhos são da família mesmo. ![]()
Re: Vc, ao dar ração pra eles, parece aquelas mammas italianas, que chama toda a prole pra mesa. Lindo.![]()
Tenho três cachorros… o mais velho é um poodle, na verdade um poodão bem grandão, preto. Esse é o filho - dentre os de quatro patas, bem como dentre os de duas patas - mais parecido comigo, porque é o único com cabelo enroladinho, igual o meu.
Agora quero um gatinho… ah, quero tanto um gatinho… mas o povo de duas patas lá de casa tá implicando. Então, pretendo levar o gatinho pra dentro de casa escondido, hehehehe. Quando eles se derem conta, o fofo já vai estar lá, estaladão, mandando em todo mundo.
Re: no primeiro ronronar ele já vai conquistar o povo…
![]()
Quando meu amigo dog alemão morreu, aos 8 anos de idade, eu não fui trabalhar. Não tinha condições emocionais de ficar lendo o dia inteiro, porque eu só chorava. Até que eu saio bastante do casulo, mas meu cachorro era mais meu amigo às vezes do que meus próprios irmãos, que mal paravam em casa. Até hoje sinto falta de ter um cachorro, o que, pelo visto, só vai poder se concretizar quando eu tiver minha própria casa. O negócio é ser equilibrado: por mais legal que o bicho seja, ele é bicho, não gente (embora tenha muita gente mais animal do que mundo bicho). Não dá para se regrar em função dos bichos; eles é que têm de se adequar a nós. É isso que minha mãe não entende, e por isso que ela não quer mais ter cachorro, embora continue dentro do casulo…
Re: Quando pequeno, coloquei na minha cabeça que eu deveria ter um cãozinho. Até fiquei com febre, que só foi embora após a chegada do Rex, um vira lata bacaninha. Não o vi morrer, tampouco envelhecer, uma vez que minha família teve que dá-lo por estar de mudança pra um apartamento. Não lamentei muito (o prédio tinha piscina, pô! rs), uma vez que o tempo de convivência não nos fez muito amigos, como vc e seu dog alemão. Acontece.
É sempre assim. Estamos atrás de conforto e proteção. boa comida, boa vida, um amigo fiel, ou vários.
No final não suportamos a felicidade. Uma vez me disseram que eu simplesmente não SEI ser feliz. Que tenho medo REAL da felicidade.
Deve ser.
Ou não.
T§
Re: Ah, não deve ser tão triste assim ser feliz. Estou na expectativa disso, quando eu conseguir a única coisa que falta por aqui: dinheiro.
Re: Não erraram, Reginaldo. Além do Fiapo de Jaca, eu tenho também um outro blog, sobre animais - Cidadão Vet -, atualmente desatualizado. Em breve, volto a escrever por lá também. Abs!
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