ESPIGA
Certos exemplos ficam definitivos em nossa vida, tornando-se pontos de referência para determinados assuntos. Essa semana, por exemplo, por causa da modelo que morreu definhando lá na casa dos 40 kgs, tenho me recordado bastante de uma moça que estudou comigo na faculdade. Ela também sofria de anorexia nervosa. Dessa maneira, certas cenas vão ressurgindo em minha mente, feito a exibição de um filme na Sessão da Tarde que mal damos bola, mas que acabamos por conferir ao acaso, numa sala de espera de um consultório qualquer. A associação é direta e sem filtros. Pra cada assunto, uma pessoa ou fato.
Até hoje, amigos e conhecidos dizem que se lembram imediatamente de mim quando surge algo sobre avestruzes na televisão. Ao que parece, a associação será eterna, uma vez que fui o primeiro - se não o único - veterinário desse estilo que muitos vieram a conhecer. Nessa mesma linha, ao ouvir falar de anorexia nervosa, impossível não me lembrar dela, lá no primeiro ano da faculdade.
No meu curso, como em tantos outros, é tradição os veteranos inventarem apelidos pros calouros, logo no primeiro dia de aula. Alguns vingam, outros não. O dela tinha sido "Espiga", por causa do corpo esquelético e os cabelos loiros e ressecados. Alguns veteranos mais maldosos quiseram apelidá-la de "Cadáver", alternativa descartada pelos que possuíam um pouco mais de compaixão. Ganhou o menos pior. Mas apelido algum ajudaria a suavizar a impressão que ela causava, naquele pele e osso digno de prisioneiro de campo de concentração.
Além da magreza assustadora, seu corpo chamava atenção também pelos constantes ferimentos no rosto, frutos de suas quedas por causa do definhamento tal que fazia com que ela não conseguisse sustentar o peso do próprio corpo, esquelético. Nesses momentos, tombava feito um dominó, indo de cara ao chão. Certa manhã, na saída de uma aula, eu ouvi o barulho de algo caindo atrás de mim. Pancada forte. Assustado, olhei pra trás. E a vi, estatelada, feito um manequim largado, sendo amparada de imediato. No mais, restou limpar o sangue fresco de mais um corte na boca, ao lado de outros mal cicatrizados. Naquele momento, reféns de um constrangimento, nos demos conta da gravidade da coisa.
Ela tinha uma personalidade difícil, o que talvez explicasse tanto a origem daquela doença quanto a teimosia em prosseguir na faculdade, longe dos pais, contrariando o apelo da família, para que se tratasse, na cidade dela. Não fazia questão de se socializar, quem sabe pra não achar que a aceitariam apenas por dó. Amigos mesmo, não tinha nenhum. Na hora do almoço, no restaurante universitário, enquanto mesas enormes eram compartilhadas e bandejões iam sendo esvaziados, ela preferia ficar numa mesa afastada, comendo vagarosamente a sua maçã e bebericando um pouco de suco num ritmo de passarinho com tédio. Durante o primeiro semestre, a mesma cena, quase todos os dias. E, como suspeitávamos, ela não voltou para o segundo semestre. Ficou na cidade dela, se tratando.
Mas foi tarde demais, pois acabou morrendo 3 meses depois de ter trancado a faculdade. Num hospital, similar à modelo que nessa semana ocupou boa parte das atenções da mídia, a celebridade mórbida da vez. Outros semestres vieram. A faculdade terminou. E ela, pelo contato afetivo praticamente nulo com a maioria do pessoal, ficou como uma espécie de lembrança estéril, apenas resgatada de forma impessoal, na eventualidade de alguém comentar sobre algo estranho que já presenciou na vida. Enfim, o que muitos dos que conviveram com ela devem ter feito nessa semana, ao citarem o exemplo da "Espiga", por causa da tal modelo que morreu com 40 kgs. Exatamente como eu fiz com você agora, que acabou de chegar ao ponto final desse texto.
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Comentários:
Puxa, Tuca, que situação mais chata deve ser a destas meninas… que doença tétrica…
E apelidos entre universitários é a coisa mais comum e maldosa do mundo. Nestas horas, parece que todos voltam à casa dos 10/11 anos, no ginásio.
Beijos.
Re: Pra vc ter uma idéia de como essa doença é tão bizarra, já fiquei sabendo de casos onde meninas chegam a evitar o uso de pasta de dentes pra não engordarem. Raciocinam da seguinte forma: a pasta de dentes é docinha, logo, engorda. Pra elas, o mero contato com a gengiva já é o bastante pro início de uma obesidade mórbida…
Na faculdade, alguns apelidos podem ser consertados com o tempo. Quanto mais gente fina for a pessoa, maior a probabilidade da mesma ser salva. Como foi o caso do Fifi ("Fimose") e do Cará ("Caralho").
Bom, nem vou perguntar o porquê da alcunha "Caralho". rs
Sim, quando a pessoa é MUITO gente boa, eles até abreviam o TucaXX para um singelo Tuca.
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Re: Tucano pra Tuca? Ah, sim gostei bastante disso também. E, mesmo depois da plástica, cá estou eu assinando textos como há 10 anos atrás…
Uma Patologia de uma sociedade doente, estéril e fria.
=/
Re: E supostamente magra!
O João Felipe falou algo certo, a anorexia tende a ser uma doença provocada pela própria sociedade contemporãnea. Mas ao mesmo tempo, o que será que se passa na cabeça de alguém que se vê definhando?
Re: manias são misteriosas… é mais ou menos como imaginar o que se passa na cabeça de alguém com mania de limpeza radical. Por mais que se fale pra pessoa que aquilo é exagero, não adianta. Discursos não comovem. Então, psiquiatria é o que há…
Total irresponsabilidade dos que eram proximos a ela. Até um gari teria mais ajuda. Triste.
Re: hum.. não entendi o papel do gari aí… Até porque um gari tende a ser magro de natureza mesmo. Natureza financeira.
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