A ASSOMBRAÇÃO DOS MELHORES

Do pós-fralda imediato até meus 15 anos eu tinha certeza que me tornaria desenhista. E era o que todos ao meu redor apostavam também, sobretudo na escola, onde viviam conferindo meus personagens desenhados entre as lições dos cadernos, meus e dos outros. Dessa forma, eu não tinha com o que me preocupar, uma vez que o meu talento me guiaria pra um futuro certo, feito um piloto automático numa estrada bem asfaltada e sem curvas. Privilegiado, minha única preocupação era crescer, fisicamente e, quem sabe, psicologicamente. Nada dessas dúvidas existenciais sobre profissões a me tirarem o sono. A escolha era bem clara: desenhista. E até a morte, bem velhinho.

Para que isso começasse a ganhar uma legitimidade de caráter oficial, optei por fazer um colegial técnico, escolhendo o curso de "Desenho de Comunicação". Assim, dentre outras vantagens, eu teria a oportunidade de conviver com pessoas que fossem tão talentosas quanto eu, imaginava. Ledo engano. Não conheci quem desenhasse tão bem quanto eu. Conheci, isso sim, pessoas que desenhavam absurdamente bem melhor do que eu. Infinitamente. Nisso, ao me sentir um pintor de paredes no meio de Dalis e Da Vincis, meu lado desenhista foi murchando, murchando, até desaparecer por completo, em menos de um ano de curso. Naquele ambiente, meus desenhos ficaram órfãos dos elogios que tanto receberam até a oitava série. Golpe duro. Travei mesmo. Assim, no ano seguinte, lá estava eu em outro colégio, normal, sem saber o que fazer da vida, assombrado com o vestibular iminente, como tantos outros aborrescentes sem talento especial.

Durante muito tempo, achei natural ter desistido da minha vocação de desenhista. Afinal, gente que desenhasse melhor do que eu era o que não faltava nesse mundo. Talentos natos, que só faziam cursos pra conseguirem um verniz especial com o diploma. Assim, após a formatura, contratariam aqueles verdadeiros artistas, não um cara qualquer que só desenhasse bonequinhos, feito eu. Insistir pra quê? Mas, depois de muito tempo - muito tempo mesmo -, percebi a bobagem que fiz, ao desistir de uma paixão por ter me intimidado com o talento alheio. Agi mais ou menos como o cara que nunca mais se interessou por sexo depois de ter visto um ator pornô transar com 5 mulheres ao mesmo tempo, sem cortes e negação de fogo. "Ah, tem quem transe melhor nesse mundo. A partir de agora vou me tornar um ser assexuado. Uma ameba…" Contrariando esse raciocínio do broxa por opção, eu devia era ter continuado com as minhas histórias em quadrinhos que, por incrível que pareça, agradavam bastante muitas pessoas para além dos muros do colégio. Mas o estrago foi grande e nunca mais consegui voltar a desenhar com a mesma alegria.

Na minha vida, esse exemplo de vocação perdida é o que mais me faz reconsiderar se desisto ou não de algo. O "Fiapo de Jaca", por exemplo. Se hoje eu tivesse o mesmo raciocínio de meus 15 anos, esse blog não teria passado do quinto post. Seria mais um desses cemitérios de idéias abandonados pela internet. Afinal, eu poderia achar que seria perda de tempo escrever coisas por aqui ao saber que existem blogs com textos geniais – tanto no conteúdo quanto na proposta -, muitos deles listados na coluna aí da direita. Caso eu buscasse um nivelamento frente aos melhores, eu poderia me sentir um Seu Creyson no meio de Saramagos e Veríssimos. Mas não, continuo sem maiores embaraços, por saber que existem pessoas que simpatizam com o arroz e feijão oferecido aqui. E isso basta. Crescer tem lá o seu lado bom.

Entendeu o que eu quis dizer? Ou quer que eu desenhe? Bem, melhor não.


Permalink06.11.06, 17:53:46, by Tuca Hernandes Email , Meu Umbigo, Trabalho 7 comentários


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Comentário de: issamu · http://issamu.blog.com

Pois então por que tu não coloca seus desenhos aqui no blog. Daí a galera vai dizer se tu é bom ou não. Tá…foi só uma idéia.



Re: Issamu, não mostro desenho algum aqui pelo fato disso não me interessar mais. Nada a ver com insegurança. É falta de tesão pelo ofício mesmo. Aí não dá.


PermalinkPermalink 07.11.06 @ 06:54



Comentário de: Rodrigo P. Ghedin · http://www.rodrigoghedin.com.br/

Hahaha, me vi nas primeiras linhas do texto :). Só que, no meu caso, ao invés de quadrinhos, desenhava bonecos do Pokémon e paisagens. Era legal, e por vezes me imaginava numa banca, numa praça qualquer, vendendo desenhos a torto e a direito, como se esboços do Pikachu fossem a coisa mais desejada do mundo.



Esse problema existe, sempre, mas com o passar dos anos, você vê que o mundo é enorme, que existe muita gente (até demais), e que, neste contexto, sempre há lugar para mais um, por mais saturado que determinado nicho do mercado esteja. Eu, por exemplo, não morro de medo e/ou preocupação quando penso que o Brasil é um dos países que mais "produzem" advogados no mundo. Em último caso, vou pra porta da cadeia e pego uns servicinhos por lá mesmo… (Sim, isso é decadente, e espero jamais ter que trabalhar na esfera penal).



[]'s!


Re: ou faz que nem eu, condenado a viver os restos dos dias como editor esporádico de publicações na área em que vc se formou…


PermalinkPermalink 07.11.06 @ 10:16



Comentário de: Kandy · http://ideiasnajanela.blogspot.com

Comigo não aconteceu bem assim, pq, mesmo sem mto talento, eu achava que seria uma senhora arquiteta. No colegial técnico vi que meus projetos eram tão originais quanto ovo frito. Mas isso foi essencial para que eu me decidisse pela profissão que tenho hoje (porque eu fazia um certo sucesso escrevendo redações pra classe inteira). E, quando entrei na faculdade de Letras, achava que encontraria muitas pessoas com a mesma desenvoltura na escrita que eu. Não encontrei e cheguei a achar que estava no curso errado. E, quando comecei a estudar todos aqueles períodos literários, eu travei. Achava que tudo o que eu escrevia era um lixo. Até que um dia escrevi um texto para finalizar um seminário sobre Romantismo e, ao término da leitura, todos choravam, incluindo a professora durona. Foi nesse dia que percebi que, se consigo emocionar até quem se faz de durão, é porque há algo no que escrevo que toca quem lê.

A autocrítica às vezes atrapalha, sim. Mas é também ela que nos faz sermos bons no que nos dedicamos a fazer. Seu blog é prova disso. ;-)
Re: enquanto uns desistem por excesso de autocrítica outros gostam tanto de exercê-la que fazem disso um ganha-pão. Taí o Woody Allen que não me deixa negar.


PermalinkPermalink 08.11.06 @ 20:08



Comentário de: Bia · http://noticiasdomundo.zip.net

Pena que o tesão pelo desenho foi para o espaço. Espero que depois desse tempo você tenha encontrado outra coisa que goste para fazer, mesmo que não trabalhe com isso. E convenhamos, se fôssemos olhar quem escreve bem por aí, existiriam pouquíssimos blogs e muita gente divertida deixaria de trocar idéias.


Re: na música, por causa do espírito punk, onde todos podiam tocar um instrumento sem necessariamente ser um virtuose, muita coisa bacana surgiu. Decerto que isso permitiu também o surgimento de muito lixo desde então. Normal. O mesmo pode ser dito em relação aos blogs, onde muita gente resolveu publicar o que antes ficava escondido nos cadernos ou Words da vida, sem ter vergonha de eventuais julgamentos.


PermalinkPermalink 09.11.06 @ 00:17



Comentário de: Claudia Lyra · http://loucaporblog.blogspot.com

Engraçado… talento… fui uma criança/adolescente cheia de talentos artísticos que não deram em nada. Mas levo uma vida boa agora, pelo menos me restou certa sensibilidade para apreciar a arte alheia. Ah… e como elogio é bom, principalmente quando sincero, tenho que dizer: você escreve MUITO bem; está muito além do arroz-com-feijão!!



Re: de todos os talentos, fica uma certa herança mesmo. Pelo menos quanto a uma maior paciência pra se observar as coisas. E obrigado pela gentileza! Ok, ficamos assim então, quanto ao prato daqui: tutu de feijão com arroz tipo 1. Melhorou? <img src="/blogs/rsc/smilies/graybigrazz.gif" alt=":P" />


PermalinkPermalink 10.11.06 @ 16:38



Comentário de: Glaucia · http://tocandoemfrente.blog.terra.com.br

A sabedoria é olhar para cima e para baixo.
Haverá sempre alguém melhor que você e alguém pior também. Mas, isso significa que cada um de nós tem o seu espaço nesse sistema. E acredite, sempre há espaço e sempre haverá alguém que goste daquilo que vc está fazendo. Eu adoro o que vc escreve. E acho feijão com arroz maravilhoso: vc come todo dia e não cansa! Outras comidas sofisticadas, podem ser maravilhosas, mas não suportam a mesmice do dia a dia.
Portanto, continue sendo arroz feijão, que a gente não se cansa de ler!
BJSSSSSSSSS

Re: ah, e resolvi cantar numa banda depois de ver tanto desafinado sendo aplaudido por aí. Tudo bem que já pensei em desistir disso ao ouvir depois tanto vozeirão noite afora, nos bares. Mas, enquanto o feijão com arroz não recebe vaias, a gente continua.


PermalinkPermalink 14.11.06 @ 17:17



Comentário de: Alexandre Torres

Tuca, (por motivos a serem esclarecidos abaixo, somos quase íntimos)

Praticamente aprendi a ler em livro do Veríssimo, Fernando Sabino, Rubem Braga e outros cronistas, daí minha paixão por essa crônica cotidiana. Volta e meia fico caçando blogs interessantes e foi assim que passei a acompanhar diariamente este pedaço de chão bem caminhado que você constrói. Sou fã do Fiapo... e do Ao mirante, Nelson. Só que aqui tem muita coisa para ler ainda, que maravilha! Por isto estou desencavando esse seu texto de 2006.
Então, sempre que você fizer a chamada do seu público aqui no Fiapo, pelo menos eu vou responder "Presente!".

Parabéns pelo trabalho.

E manda coisa nova. O último post é de 22/dez do ano passado...

Abraço


Re: Pelas suas referências e por também acompanhar o Aomirante Nelson, fico feliz que tenha gostado daqui. Material aqui é o que não falta, podendo ser lido em qualquer época, já que não faço posts no estilo diário, como vc já deve ter percebido. Então, diante das minhas férias de blog, aproveite bem os arquivos. Em breve, eu volto com coisa nova.

Obrigado pelas palavras generosas! :)

PermalinkPermalink 20.01.09 @ 11:00



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