AS CADELAS DA MINHA VIDA

Eu já tive duas cadelas. E antes que você venha a pensar que farei um ensaio rancoroso sobre romances fracassados, esclareço que as cachorras aqui são aquelas no sentido animal do termo, caninamente falando. Em fases distintas, elas participaram da minha vida universitária lá do século passado, morando comigo e mais três amigos de curso numa república em Jaboticabal. Bem mais do que o comportamento, o maior diferencial delas, razão desse texto existir, residia no nome de cada uma: Rogéria e Bunda.

A primeira foi a Rogéria, uma pastora alemã estabanada, cuja característica mais marcante era a de possuir um rabo com vida própria, numa constante epilepsia localizada. Desconfio que aquele rabo impaciente fora o maior culpado pelas duas fugas dela. Ele queria passear e, como não havia maneira de fazer isso sozinho, era obrigado a levar a dona junto, fazer o quê. Na primeira fuga, eu e meus amigos saímos pela noite de Jaboticabal, espremidos em um fusquinha velho, gritando sem sucesso em decibéis aditivados:

- Rogériaaaaaaa…… ROGÉRIAAAAAA!!! - a vizinhança não deve ter entendido nada. Aqueles quatro marmanjos berrando por uma tal de Rogéria…

A reencontramos após alguns dias, depois de anunciarmos a perda em uma rádio da cidade. Adotada por uma família bem miserável, quase uma cópia daquela retratada em "Vidas Secas", ela havia ganho até um novo nome, mais previsível pra uma cadela normal: Lilica. De volta pra casa, com aquele rabo que girava feito hélice de ventilador, derrubando tudo ao redor, percebemos que não se tratava de uma cadela normal. Sendo assim, Rogéria continuava o nome ideal pra ela. Talvez tenha ganho um outro no ano seguinte, quando encontrou o portão aberto mais uma vez, fugindo pra nunca mais ser encontrada. De qualquer forma, não deve ter recebido um nome tão original quanto a filhote de vira-lata que deixaram na porta da república, pouco tempo depois: a Bunda.

É bem provável que estivéssemos bêbados ao decidirmos por esse nome. Talvez tenha sido por causa da sonoridade da palavra, sem nos importar com a controvérsia moralista em torno dela, naquela cidadezinha do interior. Sei lá. Não me lembro direito. Só sei que era uma delícia ficar chamando a Bunda, várias vezes por dia:

- Bunda, vem!!! Vem cá, Bundinha… – e lá vinha ela, na sua vira-latice toda meiga, esfregando-se em nossa mão. Até o fim da faculdade, passei muito a mão na Bunda.

Ela sempre teve a companhia de um outro cachorrinho nosso, Bilu, cujo nome não fora escolhido por nós, uma vez que o ganhamos de um vizinho, já grandinho. Estivesse ele com a gente desde o início, o teríamos batizado como "Bilau" ou algo parecido. Bilau e Bunda, seria perfeito. Pensando bem, não. Seria bem estranho e suspeito falarmos que passamos a mão no Bilau, direto.

O Bilu era fujão. Quando conseguia alcançar a rua, voltava horas depois, fedendo carniça por brincar em algum lixão. Numa das fugas, levou a Bunda junto. Passou um dia, e nada dos dois voltarem. Preocupados, decidimos espalhar cartazes com a foto dos dois pela cidade. Mas nos vimos diante de um impasse: como mencionaríamos a Bunda nos cartazes? "Procura-se a Bunda"? Não, iriam pensar que se trataria de uma seleção pra dançarinas de algum novo grupo de axé ou algo do gênero. Conseguimos um meio-termo. Abaixo das fotos, colocamos a seguinte chamada: "Procuram-se esses dois cachorros. Atendem por Bilu e Bumbum". No fim, os cartazes revelaram-se inúteis, uma vez que os dois voltaram por conta própria no dia seguinte. E com a Bunda exalando um cheiro insuportável de carniça, toda feliz.

Hoje ela vive longe de mim, velhinha, na casa dos pais de um dos meus amigos. Talvez tenha até morrido, não sei. Atualmente morando aqui em São Paulo, num apartamento sem bicho algum – ok, reconheço, peixes são bichos também -, sinto saudades dela, mais até do que a Rogéria Rabo de Ventilador. Meiguinha, meiguinha…

Pois é, Bunda como aquela, nunca mais…


Permalink12.09.06, 00:22:33, by Tuca Hernandes Email , Bichos 8 comentários



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Comentários:


Comentário de: Sandra · http://www.sandrapontes.com

Quer uma cachorrinha ótima para apê? Lhasa Apso… Quando vocês vierem em casa (espero que seja logo) conhecerão a Rebecca. E por favor, lembrem-se de chamá-la com os dois 'C'. Com um só ela não atende!!!!


PermalinkPermalink 12.09.06 @ 23:13



Comentário de: rafael fermiano · http://umcaraquenaopresta.blogspot.com

já falei com a nata, quando (e se) tivermos um cão vai ter um nome "criativo" como…ahm…"cachorro" ou então "rudolph", "ruphus". Se tiver uma cadela que sabe eu a chame de "puta que pariu"…
"puta que pariu, vem aqui logo"


PermalinkPermalink 13.09.06 @ 11:37



Comentário de: Selph · http://www.selph.blogspot.com

meus atuais se chamam Suker e Rolf. O primeiro é em homenagem ao atacante artilheiro da Copa de 98, já o segundo… Hum… acho que foi piração de minha irmã mesmo.



Já pensou em ter alguma especie de rato? Chinchila ou hamster?


PermalinkPermalink 14.09.06 @ 11:49



Comentário de: Kandy · http://ideiasnajanela.blogspot.com

Amei o jeito como descreve o rabo com vida própria da Rogéria e o jogo de palavras inteligente que faz entre o substantivo comum e o nome próprio da sua cachorrinha Bunda. Gostoso de ler, descontraído, amansa a gente, provocando uma vontade louca de ter um bichinho de estimação e instigando a saudade dos que já tive. O último foi meu dog alemão, Apolo, um dos melhores amigos que já tive. A verdade, Tuca, é que a gente aprende a ser mais humano com um bicho de estimação.
Bjos


PermalinkPermalink 15.09.06 @ 01:15



Comentário de: Thais

Tuca,
Eu sempre visito seu blog. Adoro seu jeito de escrever. E qual nao foi a minha surpresa ao ler essa ultima cronica: 2 personagens tao conhecidos!!! A Bunda, inclusive, foi minha colega de republica no mestrado! Essas estorias vao ficar pro resto da vida! Alias, nao era a Rogeria que subia no muro???
Saudades daqueles tempos… Beijos.


PermalinkPermalink 15.09.06 @ 09:46




Tive cachorro a vida toda. Tá certo que também tive passarinho, peixe, tartaruga, coelho… visto que meus pais sempre gostaram de criação em casa.
Mas cachorro com certeza é meu bicho favorito, principalmente pela integração quase humana que ele estabelece com a gente. Meus cachorros tem nome de gente e as vezes acho que são mais inteligentes e muito melhores do que vários seres humanos que conheço. Atualmente tenho três: João, Clotilde Maria e Maria Eduarda. (note que a versão "João e Maria" aqui permite diferentes variações)
BJS


PermalinkPermalink 21.09.06 @ 11:00



Comentário de: Glaucia · http://tocandoemfrente.blog.terra.com.br

Olá Tuca!
Obrigada pelo seu comentário. De um cara chic e fino como você, realmente eu não esperava outra coisa: Nada de surtos bregas, claro!rsrsrs
Arrumei o negócio do link, afinal fazer propaganda no seu blog é um privilégio!
BJS


PermalinkPermalink 22.09.06 @ 12:03



Comentário de: Rafaela

Pra falar a verdade esse negocio ñ me ajudou em nda!
Re: Jura??? Que pena... :(

(agora, alguém me explique sobre o quê esse post deveria ajudar.)

PermalinkPermalink 22.11.08 @ 18:47



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