COISAS DO MERCADO
- Em seis meses, é a quinta vez que o senhor vem aqui, correto?
- Exato.
- Bem, senhor Carlos, vejo que o senhor teve um desempenho excepcional em nosso processo de seleção. Currículo, testes de aptidão, psicotécnico, dinâmica de grupo, tudo. Saiu-se muito bem nas entrevistas, tanto no departamento técnico quanto no de recursos humanos.
- Fico feliz em saber que correspondo à expectativa da empresa.
- Esse seu currículo, rapaz, que maravilha! Uma curiosidade: você demorou muito para ter fluência em alemão?
- Eu já dominava alguma coisinha, mas meus dois anos de mestrado em Berlim foram fundamentais. Diríamos que foi um pouquinho mais difícil do que o francês aprendido quando fui gerente comercial da multinacional onde eu trabalhava.
- Essas notas durante a faculdade, nunca vi nada igual! Realmente estupendo, senhor Carlos.
- Nem tanto, nem tanto…
- Como assim?
- Se o senhor olhar melhor, vai encontrar um nove e meio… Tive uma gripe forte dois dias antes da prova…
- Sei… sei…
- E então?
- Então o quê?
- A minha situação? Serei contratado?
- Hmmm, veja bem… temos aqui um probleminha…
- O que seria?
- Por onde começaremos… Bem, você se recorda de seu ginásio, mais especificamente sexta série?
- Mas… mas… desculpe a curiosidade, qual seria a importância do que eu fiz naquela época?
- Senhor Carlos, limite-se a responder… e verá onde chegaremos.
- Sexta série? Eu devia ter uns doze anos, nossa, tanto tempo. Eu fazia parte do time de futebol da escola…
- O senhor chegou exatamente no ponto…
- O quê?
- O time de futebol, senhor Carlos. Vamos ao dia, vejamos… oito de outubro daquele ano. Essa data significa algo para o senhor?
- Deixe-me ver… Que eu me lembre, não. Sinceramente, não.
- Forçe um pouquinho mais a memória, senhor Carlos. Dia oito de outubro, mais precisamente às duas e quarenta e três da tarde. Melhorou?
- Olhe, realmente não me lembro… O que deveria ter acontecido de tão importante nesse dia? Time de futebol? Ganhamos o campeonato? Não, não ganhamos… Chegamos à final, mas não ganhamos…
- E, porque não ganharam?
- Se não me engano, empatamos no tempo normal e prorrogação. Fomos para os pênaltis. Isso! Perdemos nos pênaltis.
- E quem deu o último chute, aquele que o goleiro pegou?
- Fui eu…
- Isso mesmo, conforme o relatório que tenho em mãos, exatamente às duas e quarenta e três do dia oito de outubro daquele ano, o atacante Carlos Ferreira, vulgo Carlinhos, teve seu pênalti defendido por João Pedro da Silva, vulgo Zaroio. Dessa forma, mais uma vez o seu colégio ficou na fila pelo título de campeão do bairro, jejum que só seria quebrado cinco anos depois.
- Mas…, o que isso tem a ver com essa entrevista?!
- Tem tudo a ver, senhor Carlos! Tudo a ver! O senhor perdeu um pênalti decisivo! Prejudicou uma equipe inteira! Um colégio inteiro! O senhor acha que temos condições de admitir em nossa empresa ISO 14000 alguém com um histórico desse? Isso aqui não é brincadeira não, todos trabalham em equipe. Se um falha, todos falham! Prejuízo de todos!
- Mas aquilo faz tanto tempo…
- Senhor Carlos, não renegue o passado, encare os fatos. Encare os fatos…
- Mas… eu… eu… chutei no cantinho, o Zaroio é que pegou muito bem. Era uma bola indefensável…
- Indefensável, mas ele defendeu. É o que importa e ponto final. O que conta é o resultado, não a intenção.
- Mas, como vocês conseguiram essa informação? Como?
- Conforme eu havia esclarecido o senhor logo na primeira entrevista, somos muito eficientes naquilo que fazemos. Ao contrário de certos batedores de pênalti…
- Eu era uma criança…
- Mas com idade o suficiente para responder pelos seus atos. Sabia muito bem o que estava fazendo…
- Fui o artilheiro isolado daquele campeonato…
- Mas não conseguiu o título, perdeu o pênalti.
- Ganhei o troféu de melhor jogador do campeonato…
- Mas perdeu o pênalti! Senhor Carlos, em nossa empresa só admitimos pessoas com histórico de vencedor! De vencedor! O mercado aí fora está cada vez mais competitivo! O senhor sabe o significado disso? Sabe?
- Pôxa vida…
- Sei que é duro. Sinto não poder fazer nada pelo senhor. Não sou eu quem faz as regras, mas o mercado. O mercado!
- Espere! Olha, eu posso trazer aqui o troféu de melhor jogador. E também a medalha pela conquista do campeonato intermunicipal, no terceiro colegial, onde fui artilheiro também!!!
- Senhor Carlos, lamento muito. Coisas do mercado… coisas do mercado…
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Comentários:
Puta que pariu!!!
Putz,….. essas exigências de mercado estão acabando com a gente!!!…. to na msm!!!! kkkkkkkkkkk
meu, eu nunca ia ser contratado nessa empresa…
Agora, cá entre nós, os testes que algumas firmas fazem conosco se baseiam em coisas não muito diferentes do que o tema abordado. Aquelas perguntas aparentemente sem sentido, fazem todo o sentido pra eles.
Que loucura! O mercado tá assim? Não volto nunca mais, hehehe. Um abraço, Lina
Bem feito! Quem perde penalties deveria ir mesmo para o inferno! hahaha Excelente post!
1) Consegui!!!!!!
2)PQP!! Se eu não te conhecesse e soubesse qeu você NÃO sabe da minha vida, eu diria que você descreveu meu "desafeto" amoroso e raivoso nesta crônica!!! Só errou em duas coisas: era basquete ele ainda não foi dispensado!!! Mas que deu até frio na boca do estômago, deu!!!
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