Soluços de Natal

Espanto, perplexidade. Ninguém imaginaria que ele arrancaria a barba de Papai Noel na frente da criançada, em plena meia noite. Não se importando com a choradeira geral, ao invés de brinquedos, tirou um papel do saco de presentes, de onde começou a ler um manifesto que pregava contra o espírito materialista do Natal. Levou o primeiro soco quando ia citar Marx.

Já no pronto socorro, entre um ponto e outro, teve a certeza que, se tivesse ganho aquele autorama uns vinte anos atrás, a história poderia ter sido outra.

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E no abrir dos presentes:

- Oba! O que eu queria!!! Uma bazuca israelense!!!
- Uau!!! Uma boneca inflável pornô!!! Uhuuuu!!!
- Caramba! Um ornitorrinco albino! Que legal!

Tanto o pai quanto a mãe concordaram que a culpa não era do Papai Noel, coitado. Pedidos feitos, pedido atendidos. Simples. Talvez fosse o caso de controlar um pouco mais o acesso da criançada à internet e TV a cabo. Principalmente na época do Natal.

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Quem apostou contra, teve um Natal mais feliz no bolso. Imaginaram que dessa vez seria diferente. Ele preferiria o presente mesmo, o conteúdo, contrariando aquela rotina que vinha desde os tempos de bebê. Mas para o espanto geral, como sempre, ele ficou maravilhado
com o papel de presente, rejeitando o resto:

- Olha só.. . com celofane âmbar.. . demais! Fantástico!!!

Não havia mais nada a fazer. Se nem a Angelina Jolie como presente o convencia, melhor desistir, pra sempre.

E pela primeira vez, o presente não ficou pro irmão, recém-casado.

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Curiosa e apaixonada. Será que finalmente estava sendo correspondida? No meio da ceia de natal chegou a digitar no celular o número dele. Mas não apertou o botãzinho verde. Decidiu controlar a ansiedade. Calma, mulher! Entre uma garfada e outra, aquilo martelando nas idéias: ele, ele, ele...

Mas afinal, o que acontecera entre os dois, horas antes, ao se despedirem? Ao desejar Feliz Natal, o beijo dele atingiu um canto da boca dela. Lado esquerdo, quase no meio.

Seria um sinal? Um acidente?

Ou simplesmente, um presente de natal?


Permalink24.12.11, 11:22:11, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Contos 1 comentário

O Contestador Maluco

Contestador Maluco

A internet está cheia de figuras que vestem a fantasia do Contestador Maluco. Quem? Oi? Trata-se daquela pessoa que faz questão de defender o seu ponto de vista em tudo quanto é caixa de comentários. Odeia novela e acabou de ver alguém no Facebook elogiando o capítulo do dia anterior? Hum... isso não pode ficar assim, decide o Contestador Maluco, com aquela coceirinha nos dedos. Coitado do teclado. E lá vai ele - plec! plec! plec! - na missão de trazer alguma luz à pobre alma corrompida pela novela das oito.

"Sou uma pessoa de opinião", defende-se, apesar de quase nunca ser convidado a debater.

Tenho dificuldades em reconhecer a importância do Contestador Maluco. Pra mim, na grande maioria das vezes, ele cumpre um papel humorístico. "Não, peraí. Não acredito que esse cara ficou nervosinho por tão pouco. Deve estar brincando, só pode ser. Toda essa revolta só pra dizer que não simpatiza com gente que não dá bom dia em elevador?" Aí, dou risada.

Ainda bem que o Contestador Maluco só é assim na internet. A única qualidade dele é justamente essa, de não levar a fantasia pro mundo off line. Tem gente que cobra coerência do figura, na linha do "quero ver se tem coragem pra ser assim longe do computador!". Deus me livre! Fico imaginando a tortura que seria com ele na vida real sendo o mesmo do Facebook, Twitter, blogs e outros:

- Parece que vai chover.
- Discordo! - reage o Contestador Maluco.
- Olha as nuvens no horizonte, rapaz! Todas carregadas. O tempo quente e abafado de hoje, essas coisas...
- Parabéns! Eu não sabia que você era especialista em meteorologia.
- Calma, foi só um comentário.
- Olha, é como eu olhar pra alguém espirrando e sugerir que é virose. Ridículo. Seria uma ofensa pros médicos.
- Peraí. Você está me dizendo que ofendi os metereologistas?
- Deixa de ser cínico. Você sabe que ofendeu sim. Pra quê isso?
- O que você tem a ver com a classe dos meteorologista?
- Diretamente, nada. Mas, sinceramente, admiro quem estudou pra se especializar em algo. Acho que você não faz ideia da importância que tem um diploma e...
- Ok, melhor parar o papo por aqui...
- Ei, você está me censurando? É isso? Ditadura? Não posso mais expor a minha opinião? Hein? HEIN??? DITADOR!!!

E você? Concorda também que o Contestador Maluco deve continuar desse jeito apenas na internet? Não? COMO ASSIM???


Permalink09.12.11, 21:57:08, by Tuca Hernandes Email , Blogosfera, Animais, Blogs, Ciência 5 comentários

Sócrates, aquele do autógrafo

socrates

Nunca dei importância para autógrafos. Sempre foi assim, exceto uma vez, em 1989, quando vi o Sócrates pertinho de mim, num posto de estrada. Pensei se valeria a pena interromper o jantar dele por causa de um autógrafo. Chato isso, pensei. Mas não teve jeito, botei na cabeça que eu deveria sair dali com o rabisco do Magrão no papel. Questão de honra.

Vencida a timidez dos primeiros minutos, me aproximei dele, que reagiu de modo bem simpático. Me fez sentir bem, demonstrando que a minha presença ali era muito bem-vinda, longe de ser uma intromissão. Gente fina. Fui embora satisfeito, tendo em mãos o único autógrafo que eu já pedira na vida. Claro que nos dias seguintes mostrei o meu pequeno souvenir pros amigos da vizinhança e do colégio. "O Sócrates? Uau..."

Não tenho ideia aonde foi parar aquele papelzinho. Desconfio que o perdi em questão de poucos dias mesmo. Pode ser também que em uma dessas arrumações de armário - que faço a cada cinco, dez anos - eu não tenha julgado aquilo tão importante assim a ponto de ser guardado. Deixa pra lá.

É essa a lembrança mais forte que tenho do Sócrates. O cara era uma espécie de herói pra garotada, boa parte disso por causa da seleção de 1982. Ele estava no fim da carreira quando o encontrei, jogando pelo Santos, já sem muito brilho no campo. Mas o carisma continuava intacto, o suficiente pra que um moleque avesso a pedido de autógrafos abrisse uma exceção.

Fiquei especialmente chateado com a morte dele, sobretudo por conta desse episódio banal. Imagino a tristeza dos amigos mais próximos, que devem ter uma tonelada de boas memórias, geradas entre goles intermináveis de cerveja e outras biritas.

Descanse em paz, barbudo do autógrafo.


Permalink05.12.11, 08:27:10, by Tuca Hernandes Email , Comportamento, Cotidiano, Esporte, Memórias 2 comentários

Tableteiro sem Tablet

tablets

Dias atrás, estive em um evento que sorteou vários iPads. Arrisquei a minha sorte em cinco tentativas. Otimista, tive a certeza que eu ganharia em alguma delas. Uma de cinco, razoável. Aquele filminho passou na minha cabeça cinco vezes, sempre com o mesmo roteiro. O meu nome era anunciado, com todos ao redor lamentando num coro de "ahhhh...", enquanto eu abria caminho pela multidão, soltando um vitorioso "sou eu! sou eu!". Filme arquivado, os ganhadores devem ter roubado minhas vibrações positivas. Impostores.

Nunca vi dono de iPad meter o pau no trocinho. É que nem Paris, todo mundo que conhece se encanta. Logo, deve ser bom ter um. Melhor ainda se conquistado num sorteio banal. Estou longe de investir perto de dois mil reais na compra de um tablet, por mais bacana que ele seja. Pra mim é grana pra burro.

Parcelar? Fora de cogitação, pois já tem coisas demais marcando presença na fatura mensal do meu cartão de crédito. A passagem da viagem que fiz recentemente pra Europa, por exemplo. Isso sim é fundamental pra mim, parcelável. Quanto aos iPads, Samsung Tabs, Motorola Xooms e outros, não quero lembrar todo mês, durante um ano, que continuo comprando um tablet. Prefiro olhar pro negócio e lembrar que um simples sorteio me deu aquilo.

Sou um aficcionado por aparelhinhos da modernidade. Faço bom uso deles. Esse texto que você está lendo foi integralmente digitado em um smartphone, publicado graças ao 3G que me permitiu acessar o painel de edição deste blog. Adoro fuçar as possibilidades que cada trequinho oferece, sobretudo aquelas que compreendem publicação e leitura. Textos, vídeos, imagens, áudio, tudo vindo da internet. Tudo indo pra internet. Acho isso fascinante, bem mais que joguinhos. É o bom e velho diálogo, sem fios, em uma outra plataforma, conectado.

E fico aqui com a certeza de que seria uma delícia tudo isso em um tablet também. Não se trata de status por ter algo. Bobagem. É questão de dar um passo adiante naquele processo que se iniciou uns 15 anos atrás, quando consegui ter o meu primeiro computador. Lembro de ter achado o máximo aquela nova possibilidade, de conseguir passar meus textos do papel, escritos à caneta, pra documentos do Word, guardado dentro daquela caixa. Ou do disquete. A admiração continua a mesma hoje em dia, só que residindo em um tablet agora.

É isso, acho que mereço ganhar um. Ou então, ter dinheiro sobrando pra isso. Em breve, by tablet.



A vida no modo repeat

Vida no Modo Repeat

Não gosto de falar muito sobre o tédio. Eu sempre acho que, ao tocar nesse assunto, atraio mais tédio ainda. Mas quebrarei a tradição e abordarei esse troço que vem me incomodando. Pra ser mais exato, no sentido profissional. Sabe aquela sensação de estar fazendo a mesmíssima coisa de, sei lá, cinco anos atrás? Pois é.

O título do meu cargo continua o mesmo. O salário, se considerarmos a inflação, idem. Nada de novo no horizonte. E de forma alguma a culpa é de quem me contratou. É minha mesmo. Acredito no determinismo, de que o curso das coisas, em sua imensa maioria, pode ser alterado por nós mesmos. Se não mudou, é porque falhamos em algum ponto da caminhada. Em vários pontos, pra dizer a verdade. Acomodação, medo de provocar a mudança, arriscar tudo e não ter nada de volta? Certamente.

Vejo pessoas bem menos espertas do que eu conseguindo coisas que, no momento, eu só teria em sonhos. Apesar de eu me achar melhor do que elas, sei muito bem que fizeram a lição de casa direitinho, mantendo a coerência de suas carreiras, com seus MBAs, especializações, networkings, puxa-saquismos, essas coisas. Ponto pra elas, merecem pelo jeito, independente de minha opinião. E eu, bem, continuo o carinha que procura fazer as coisas certinho, sem empreender o tal plano de carreira fundamental nesse mundão.

Tem me dado um tédio imenso brincar de deja vu no campo profissional. O que antes foi desafio se tornou lugar comum. E trabalho chato não existe, a gente é que se acomoda. E cá estou eu, querendo inventar uma maneira de fugir do lugar comum, sem concluir coisa alguma. Mas já é um belo começo botar no ar, público, esse tipo de questionamento. Pra mim e, quem sabe você, que talvez esteja passando pelo mesmo tipo de situação, atualmente no modo repeat.

Mudanças acontecem. Até no mesmo lugar de sempre, vejam só. Basta querer. E eu quero, ora essa.


Permalink20.11.11, 22:21:15, by Tuca Hernandes Email , Comportamento 4 comentários

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