Seres feios, estranhos e comíveis Eu sou uma pessoa comprometida com várias coisas, seja um puxadinho que resolvi adquirir numa área que “será muito valorizada daqui há uns anos”, como disse a corretora, seja com um belo coração apaixonado e completamente arriado por mim [óbvio!]. Marréclaro que isso não é suficiente. O que pensar daquele desejo consciente pela pessoa mais tosca do seu trabalho? Uma pessoa estranha, que se veste estranho, fala estranho, usa produtos estranhos no cabelo e, mais que tudo, é estranha a maioria das coisas que você diz gostar. Mas me dá tesão. Claro que não vou adentrar aqui nos devaneios do que o amor faz você não querer simplesmente por amar, até porque eu acho é pouco se você não entende isso. O que, realmente, me assusta é pensar que aqueles modelos que a gente monta na cabeça de pessoa ideal são completamente imbecis diante da nossa capacidade inata de transar. É aquela coisa que não se resume a peitos, bundas e pernas, nem a olhos amendoados ou sorriso de marfim. É sim aquele desejo sem sentido, por algo que, até então, não seria alvo a não ser com uma garrafa de tequila no corpo, caso especial que permite qualquer deslize. Tem certos desejos que são conscientes, mesmo que não sejam declaráveis: você olha para a pessoa e, mesmo ela não passando em nenhum dos pré-requistos básicos [e olhe que eu sou facinho, facinho de preencher esses detalhes], você quer, loucamente, levá-la pra cama. Obviamente, e aqui faço minha defesa, na maioria das vezes a consciência também é suficiente para que você saiba que vai fazer apenas sexo mágico: você come e a pessoa desaparece. A vontade mesmo é só de saciar aquela coisa estranha, até para que, teoricamente, ela não aconteça de novo. Daí, aquela coisinha magrinha, sem graça e com aquela coisa sebosa no cabelo volta a ser apenas uma coisinha magrinha, sem graça e com aquela coisa sebosa no cabelo. E você volta a sentir desejo pelo povo que aparece nas propagandas da Abercrombie. @rafaelcampos luisrafaelc@gmail.com |