Cadê as namorada?
Encontros em família têm a capacidade cintilante de te fazer repensar todas as decisões da sua vida, seja o seu emprego de jornalista que, na cabeça deles, está completamente ameaçado com as decisões recentes, seja porque sua vida amorosa anda mais intocada que atos secretos do Senado.
No meu caso, que moro longe de casa há 10 anos, isso sempre vai ganhando contornos mais macabros, já que as escolhas que fiz passam longe do combo direito+medicina e a minha trajetória de futuro promissor é encoberta por aquele bafo de cerveja do dia seguinte.
Daí que esse foi mais um belo fim de semana em família, aproveitando as férias do tio rico que visita a plebe na cidade do interior.
De cara, aquele nariz torto para a tatuagem na perna, com o bom conselho direcionado: “Fique só com uma mesmo, meu filho”. O tempo que você leva para explicar que aquela é a terceira só faz com que se crie um maior faniquito moralista e você acha melhor manter um sorriso amarelo como arma, pensando que a discórdia familiar por conta de pinturas em seu corpo é desnecessária.Mas, claro, quando muita parentada se reúne, a coisa sempre pode piorar.
Se esses parágrafos introdutórios não foram suficientes [ou você é daqueles que vive num pote de margarina para ter uma família perfeita], o almoço continuou e, entre uma garfada e outra, surge aquela pergunta famigerada, que transforma fogo em gelo e faz com que sua cueca entre na bunda de tanta audácia contida: “E as namorada?”.
Não sei você, mas eu não faço idéia de como responder à isso. Tendo ou não tendo alguém, não conheço muita gente que fica discutindo isso com os tios. Ainda mais quando você sabe que o combo direito-medicina é importante e, ao ter deixado o teu brilhante futuro para trás fazendo jornalismo, pelo menos um bom partido você tem que arranjar.
Parece frescura [e no fundo é, mas quem se importa?] ficar nervoso com as perguntinhas sinuosas dos parentes, porém sempre dá um certo receio de encarar aquele parte da família que tem mais grana que você. No fundo, no fundo, a caretice não permite que a grana deixe de parecer o item mais importante e, somado à falta do combo direito-medicina, isso ainda fica mais longe e ganha ainda mais importância quando seu primo está pensando em casar porque já tem seu próprio escritório.
Na verdade, eu nem sei bem o porquê disso me incomodar. Vai ver são aqueles traumas de infâncias que a gente sempre cria pra ter justificativas no mundo adulto, mas ainda me é uma experiência traumática ouvir “E as namorada?” sem tremer um pouco no que tudo isso contém. No fim, respondi: “Tão em Teresina” e tasquei uma dentada no pernil que teimava em esfriar enquanto eu pensava no que dizer.
@rafaelcampos
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