28.06.07

Texturizado, glamurizado e no caprichazado

Acorda, bonita!!!

Nem sempre fui repórter de moda. Já escrevi muito sobre buracos em pistas, invasão de área pública, marcha de sem-terra, CPIs e turismo em Goiânia. A turma da esquerda (o povo que senta à minha esquerda, tem pesadelos com o Renan Calheiros e não levanta da cadeira antes da uma da manhã) jura que minha vida é fácil. Só modelão, só gente fina, elegante e sincera. Eu não reclamo não. Mas a vida fashion não é lá uma Brastemp. Quer saber? Escrever 50cm, ou mais, quase toda a semana sobre tecidos, coleções, texturas e caimentos exige mais do que comprar a Vogue todo mês. Exige fluência no idioma embromation.

Enquanto eu estava relaxando e gozando na minha sala de embarque, fiz um pedaço e refiz outro de um incrível texto pronto para jornalistas de moda. É brincadeira, minha gente, mas... Putz! Por que eu tenho que avisar isso, hein? Ai-ai-ai!

Como fazer um texto de moda no capricho!

1. Comece com um substantivo composto que misture preservação da natureza e tecnologia ao mesmo tempo (ex. orgânico-tecnológico, enérgico-virtual).

2. Agora misture uma peça de roupa masculina com um adjetivo glamuroso. (ex. cachecol extravagante, cueca transluzente).

3. É a vez de um adjetivo que reflita rigidez de opinião. (ex. austero, rigoroso)

4. Sua cor predileta acompanhada de nome de plantas, frutas, o prato do dia do restaurante da esquina… Vale qualquer coisa: (ex. roxo-cranberry, fúccia-beterraba, amarelo-Xuxa, cinza-poluição)

5. Mais um adjetivo. Qualquer um que lembre grandiosidade. Glamour sempre!

6. Fique à vontade e escolha uma das palavras: curta, média, largo, alto, baixo, comprido, leve, estreita.

7. Pergunte à sua mãe ou avó do que são feitas as cortinas da sala.

8. Agora vá para as almofadas do sofá. Coloque o nome do tecido no
plural.

9. Escolha um dos quatro: maxi, über, ultra e mini.

10. Idem

11. Qualquer coisa glamurosa que você aprendeu na aula de inglês ou com seu amigo gay. (ex. fresh, in, vip, shine)

12. Escolha um dos dois: sucesso ou infinito.

Veja um exemplo de texto completo

Como todo mundo sabe, a peça (1) ENÉRGICO-RENOVÁVEL da vez é (2) A GRAVATA LÚDICA. Uma profusão delas apareceu tanto nos looks masculinos como nos femininos nesta (3) RÍSPIDA coleção de Clovis Zaratrusta, também conhecido como Cezê. Os tons (4) AZUL CALCINHA dominaram as cartela de cores com calças (5) IMPONENTES e saias (6) LEVES confortáveis apesar da silhueta estruturada e dos detalhes texturizados. Os tecidos, como (7) POPELINE fizeram um combinação perfeita entre o opaco e o brilhante em tons sofisticados e impactantes. Lisos e estampados se alteraram com as novas (8) SEDAS JAVANESAS que fizeram incursões interessantes junto aos acessórios como as (9) MAXI pochetes e (10) MINI galochas prontas para qualquer ocasião: da festa formalíssima à linha mais esportiva. Para fechar, Cezê escolheu um casting (11) SHINE de guerreiros urbanos em referência aos índios Urubu-Kaapor, de onde vem toda a inspiração da coleção. A modelagem correta com decotes arquitetônicos, fizeram do styling a proporção perfeita para o (12) SUCESSO . Sem dúvidas, um bom desfile. Bem a cara da marca.

Peço licença aos meninas e meninas do Aurélia, a dicionária da língua afiada para reproduzir uns poucos verbetes encontrados sobre o mundo da moda. Gracias, pela diversão!

Acorreta - Adj.– Dessa maneira mesmo, falando tudo junto. Pode parecer um adjetivo positivo para alguma coleção ou desfile, mas não se engane, é xoxo, de correto só tem a simulação da verdadeira opinião. Ex: Aquele estilo fez acorreta (leia-se: ele errou).

Afetividade fashion – Exp. – Termo usado para designar o sentimento de super-hiper-extrema simpatia que se instala nos fashionistas durante a semana de moda. É muito comum você dar aquele abraço demorado em uma pessoa que você detesta ou perguntar sorrindo se está tudo bem para alguém que nunca mais irá ver. Aliás, irá ver sim, daqui seis meses, na próxima temporada.

Aloka – Interj. – Usada geralmente no final da frase absurda que acabou de falar. Ex: Fiquei tão feliz de poder ir embora mais cedo pra casa que se o Paulo e a Graça aparecerem agora eu beijo os dois na boca... aloka!!!

Arrasa, bi – Exp. – 1. Se joga, faça acontecer. 2. Expressão usada geralmente no final da frase para apoiar (com um pouco de xoxo, é claro) a amiga. Ref. A expressão ganhou força com a música homônima (ui!) do Supla cantada no final do desfile de Geová Rodrigues, que arrasou com muita bi, homenageando umas e tirando outras do armário.

Bonitinha – Adj. – Palavra prima-irmã de acorreta, que também é uma maneira delicada de dizer que não gostou nada de um desfile. Ex: Aquela coleção foi bonitinha (leia-se: em cinco minutos não vou mais lembrar de nada do que vi).

Bookada – Adv. – Diz-se de alguém, algo ou fashionista que está com compromisso marcado. Ex: Ela está bookada para um jantar hoje à noite.

Mapear – V. - Encontrar alguém, localizar algo ou uma fashionista. Ex: Espera um segundo que eu vou mapear aquele bofe e já volto.

Não-constanza – Adj. – Assim mesmo, com o “n”. 1. Diz-se da pessoa que é tão equivocada que até o nome da Costanza ela fala errado. Equívoco em forma de pessoa. 2. Celebridade que não entende nada do que está acontecendo na passarela e só veio ao desfile para tirar fotos pra revistas de fofoca. 3. Pessoa grosseira 4. O antônimo de Costanza Pascolato.

* A foto do post é da glamurizada Maria Sanz do ótimo No Provador.

Categorias: Comportamento, Cotidiano @ 17:24:26 - 4 Comentários - #Link

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Nome:
Sandrofas
Comentário:
Aproveito a genialidade de Dona Dal e sua terminologia fashion para lançar (cada um na sua, com alguma coisa em comum), uma epistomologia gastronômica: A cafonice vocabular do cardápio nouveau rich

As dicas vão em pílulas, ou melhor: em menu degustação.

Lesson 1 - lendo antes para estar arrotando depois

1) Cardápio novo-rico que se preze tem de ser extenso. Minimalismo e cafonice não combinam. Frases com menos de cinco ou seis palavras são muito pobrezinhas, não impressionam e não justificam o preço do cardápio na 209 Sul.

2) Prepare-se para ser poliglota: não dá pra não ter pelo menos uma palavra estrangeira em cada prato. E daí vai do francês básico ao mandarim, passando pelo iídiche, que tá na moda.

3) Assim como as roupas de Dona Dal, as comidas ganham personalidade própria. Adjetivos são fundamentais. Um bom corte de filé tem de ser envolvido em molho exuberante; suflê não é fofo: é vaporoso. E a combinação do alface entregue pelo chinês do ceasa de manhã com o tomate-pêra que ele trouxe anteontem tem der harmoniosa. Não menos que isso, pelamour du Deux.

4) Também é importante relacionar as comidinhas a objetos que invoquem a infância do nouveau rich. Berço de endívias carameladas, Leito de aspargos frescos, Caminha de purê de batata baroa. Estas são boas construções, para começar.

5) Por fim, a primeira lição começa com uma dica que não falha: invente nomes glamurosos para ingredientes do dia-dia. Sem isso, o cardápio novo-rico não tem a mesma graça, nem o mesmo preço.
Sal grosso, daqueles que custam $ 0,30 o quilo, ganha mais peso se for chamado de "cristais de sal marinho"; Manteiga nunca pode ser pura: tem de ser manteiga-de-alguma-coisa, como manteiga-de-mostarda. Um absurdo do ponto de vista prático, a não ser que mostarda seja o nome da vaca que deu o leite que, por sua vez, virou manteiga.

Exemplo prático - para fixar

Pururuca de anchova negra do Chile envolvida por lâminas de amêndoas amargas, em ninho de purê de mandioca brava do Sertão, escoltada por coração de alcachofra embebida em molho reduzido de biotônico Fontoura. ................................................R$ 124,70
#Link 29.06.07 @ 15:45
Nome:
Christiane
Comentário:
Uma amiga vendedora de loja ouviu ataque de um estilista quando chamou a camiseta "mandarine" de "laranjinha". E meu marido ficou acrílico quando, ao me comprar um presente, elogiou um "verde" e ouviu da gerente, em tom de reprovação, que aquilo era "vitral".

Já contei "look descolado" trinta e cinco vezes na mesma edição de uma revista. Afffff.....
#Link 29.06.07 @ 17:12
Nome:
Érika
Comentário:
Esquitíssimo comentar em blogs de desconhecidos, mas quero registrar que estou aqui me identificando com o trecho: "Já escrevi muito sobre buracos em pistas"...


São os buracos que fazem a gente pessoas batráquias, helpis, tecnologicamente sensíveis, essas coisas bacanas. hahaha... Beijo procê e apareça sempre.
#Link 08.07.07 @ 13:15
Nome:
Gabi
Comentário:
Super Sucesso, Arrasa!! rs...

Otimo texto Dona Dal.
Aqui sempre é uma otima pedida!
Beijocas!
#Link 04.08.07 @ 22:11

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