06.06.07

A não entrevista de Sarah Jessica

Existe mulher pobre.

Como diz um amigo, existem pessoas que nascem com missões. Uma das minhas, pelo menos aqui no metiê, é falar — ou tentar —, com “os impossíveis”. Sabe-se lá porque, mas a chefia acredita, e compra, idéias mirabolantes como acampar na frente do Copacabana Palace (para ouvir um “oi” e “tchau” de Gisele Bündchen), tomar chuva na porta da Rede Globo em São Paulo (para abraçar o Bono, mas essa foi com gosto), e estourar a conta de telefone em ligações internacionais atrás de Sarah Jessica Parker. Essa última, cumprida mais ou menos, aconteceu há três anos assim que Sex and the city foi para as cucuias. A idéia era entrevistar a atriz e pipocar obviedades como “quais os seus projetos para o futuro?”. E lá fui eu com um prazo de entrega a perder de vista (cerca de dois meses) e a vontade louca de falar com a dona Sarah. Quase cheguei lá. Quase mesmo. O desfecho da missão foi tão esquisito que publicaram minha “não entrevista”. A boa, ou não, é que agora a matéria virou case em aulas de comunicação e estudantes me ligam para saber “o que você realmente acha de tudo isso”. Eu, sinceramente, acho que Sarah Jessica Parker perdeu a oportunidade de bater um bom papo comigo. Tsc-tsc!!!

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Na cola de Sarah Jessica Parker*

As aventuras e desventuras de uma repórter para tentar uma entrevista com a estrela de Sex and the city

Dalila Góes / Da equipe do Correio

SJP — é assim que eu vou chamar a moça, é mais prático e, por que não?, mais íntimo — não me deu chá de cadeira, nem de telefone. Até porque não falei com ela. Não deixaram. Ou não quiseram. Juro. A missão nem era tão impossível assim. Afinal, a atriz deu fim ao quarteto na televisão, ganhou prêmio, capa de revista... Nada mais normal que a imprensa a procurasse para saber do futuro.
Há dois meses começamos por aqui: Brasil, São Paulo, assessoria do canal que exibe a série. Ganho de volta uma lista de telefones que cobre os Estados Unidos de costa a costa. SJP poderia estar em Los Angeles, Houston, San Francisco e, óbvio, Nova York, cenário de Sex and the City. Começamos pelo óbvio. Atende o telefone, mulher simpática pergunta quem fala, de onde fala e, mais importante, com quem eu gostaria de falar.

— SJP, ora bolas!
— Você quer falar com a atriz?
— É.
— Sarah Jessica Parker?
— Anrã.

Não existe mulher feia!

Silêncio do outro lado. Uma risada. Riu, por quê? Até parece que ninguém nunca tentou entrevistar a SJP. E transferiu para o departamento internacional de publicidade. Por ali alguém me explica que o negócio não é tão óbvio assim. Primeiro tenho que passar pelo escritório de Los Angeles. Mais uma ligação internacional. Atende a secretária, quase cinco minutos de mensagem em inglês e espanhol. Como sou mais ou menos letrada nas duas línguas, deixo recado nos dois idiomas. Quem sabe o sujeito entenderia a urgência? Outro dia, ligo novamente para o mesmo número em Los Angeles e atende o Todd. Comecei o discurso.

— Oi, Todd. Falo do Brasil, de Brasília, jornal...
— Da capital? Você é do Brasil? Adoro o Brasil.

Pronto, o camarada ganhou uns pontos. Torci para que naquele momento ele passasse o telefone para a dona Sarah. Muito simpático, quis saber do fuso horário ao meu nome completo, idade, cargo dentro da redação. Pegou meu email e tudo. Cantada? Eu, hein! Mas garantiu que daria notícias em alguns minutos. E terminou a ligação com ‘‘vocês brasileiros são todos malucos, loucos’’. Olha, Todd, se você estiver lendo essa matéria perdeu 50% dos pontos ganhos. Só não perdeu o resto porque realmente retornou com um e-mail. No campo assunto, a palavra ‘‘contatos’’ brilhava. Oba! Todd me envia um número em Nova ork onde eu conseguiria o nome e telefone da empresária de SJP. Segue o colóquio com a máquina.

— Pressione um para o canal.
Feito.
— Pressione tal número para o horário nobre.
Feito.
— Pressione tal número para o show.
Feito.
— Pressione tal número para manager.
Feito.
— Essa informação lhe custará US$ 9,99. Pressione jogo da velha para aceitar ou...

E agora? Volto a Los Angeles, mas dessa vez no escritório da distribuidora do seriado para a América Latina. Atende o Benton. Mais um ‘‘louco’’ pelo Brasil. Enquanto os minutos corriam, ele me contava da viagem ao Rio de Janeiro e das festas com os brasileiros que trabalham no escritório de Atlanta. Ouvi com muita atenção. Perguntou se eu conhecia a Austrália. Respondi que não e ele explicou que tinha nascido lá. Educadamente, minha massa cinzenta se perguntava, em bom português, o que diabos a SJP tinha a ver com isso. Será que meu inglês estava tão ruim que ele não entendeu que eu queria era o contato da atriz?

— Mas, Benton, vem cá, e a SJP?
— Claro. Vou te passar o contato da agente dela em Nova York. O nome dela é tal.

Mais um número, mais um nome, mais uma secretária eletrônica que falava inglês não sei de onde. Ali doeu porque eu juro que só entendi o ‘‘hi’’ (oi) e algo parecido com o nome que o Benton havia me dado. Liguei de novo. A mesma pendenga. Passei o telefone para um colega que também não captou a mensagem. Como a brincadeira estava boa, ligamos de novo. Nada. Sabíamos que no recado estava um número de celular (de quem?), um e-mail (de quem?), um endereço (de quem, meu Deus, de quem?). Da SJP é que não era. Idéia. Ligar na central da empresa e perguntar pelo nome que o meu amigão Benton, de Los Angeles, deu. Tiro e queda. Tudo é uma questão de pronúncia. No inglês de Benton, a moça tinha nome e sobrenome com sotaque norte-americano do gueto. No inglês da telefonista de Nova York, e da voz na secretária eletrônica, tudo era uma mistura de inglês com árabe. A telefonista (Deus a conserve assim!) ajudou soletrando letra por letra. Finalmente falo com a dona árabe-americana.

— Você pode me mandar um e-mail?
— Agora.

No outro dia a resposta, muito cordial, de que na verdade ela não era a empresária da SJP, mas a coordenadora internacional de publicidade do canal tal. Pensei eu: se é tão importante é porque é inteligente, e se é inteligente por que não avisou antes? Certo é que dessa vez eu tinha um nome, uma identidade verdadeira para perturbar sem medo. Ligo, mais uma secretária eletrônica. Como gostam de secretárias eletrônicas! Foram três dias de recados, até que um dia Megan, a assistente, diz Hello! Quase que respondo amém. Simpática — faz parte de alguma cartilha para dar esperanças aos repórteres — disse que estava tudo bem.

— Tudo bem?
— Sim, me mande um e-mail solicitando a entrevista que eu encaminharei para a atriz. Pode ser?
— Ótimo.

Conto a novidade à chefia. Muito bem, muito bem. Passam algumas semanas, reenvio a mensagem para dona Megan. Ligo, pergunto se está tudo ok.

— Sim, tudo ok.

Mais uma semana. Outro e-mail e nada. Mais uma ligação e sim, está tudo ok. Sexta-feira passada tive a resposta. Chega pelos Correios um pacotão de Los Angeles. Hummm... Dentro, a transcrição da entrevista que Sarah Jessica Parker deu ao senhor Larry King para a rede CNN, isso em janeiro. Palavra por palavra. Junto, um cartão atencioso da dona agente dizendo ‘‘eu espero que isso seja útil. Saudações’’.
Para não dizer que não reclamei, perguntei o que era aquilo, mandei mais uma mensagem e liguei novamente para os meus contatos. E se eu tiver notícias da SJP eu conto para vocês.

P.S. Todd, Benton e Megan mandam abraços. Loucos pelo Brasil.

* Matéria publicada em 17 de outubro de 2004 na Revista D do Correio Braziliense

Categorias: Televisão @ 21:09:16 - 1 Comentário - #Link (Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Comentários, Pingbacks:

Nome:
Marcelo
Comentário:
Que experiência, não?

Marcelo
#Link 04.06.08 @ 02:21

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