Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









12.09.08

Quero ser Indiana Jones

indy

Todo ano o 11 de setembro significa um mundo de retrospectivas, cadernos especiais, lançamento de documentários e revistas sobre o atentado às duas torres. Com todo respeito à dor das famílias de quem foi assassinado de forma cruel, covarde e insana, desde 2004 que o 11 de setembro para mim significa apenas uma coisa: a Luiza nasceu.
O aniversário da minha sobrinha implica na tradicional ida a alguma loja de brinquedos e à conseqüente vontade de comprar uns 200 reais em presentes...para mim mesmo.
Claro, compraria o da Luiza primeiro.
Só que ver os brinquedos de hoje, e principalmente os preços deles, muito mais em conta, é uma agonia. Ver, por exemplo, que por 12 reais você compra uns 50 soldados de plástico armados de fuzis e pistolas é uma tristeza para quem passou a infância barganhando Fortes Apaches que na época eram caríssimos.

Um passeio na seção de brinquedos das Lojas Americanas é uma viagem terrível no tempo. E a constatação de que brincar já foi uma missão duríssima. Ainda bem, por exemplo, que eu não vi esse brinquedo aqui. Ficaria com depressão por não ser mais criança.

Outra coisa que dá agonia é a variedade de dinossauros de todas as cores, preços e tamanhos. E os superheróis espetaculares. Inclusive o Indiana Jones, retratado com carabina e tudo.
E falando em Indiana Jones...
- Marcele, venha cá. Vou te mostrar uma coisa.
Pego um brinquedo com a logomarca do Indiana Jones. Tem uma espécie de cabo de plástico mole, com um botão. Você aperta o botão e.....SPLAT!!!!!! (isso é um chicote, essa onomatopéia?).
E entra a música do Indiana Jones.
- Adorei! - diz ela. Ainda fazendo a ressalva:
- Com um sensor seria ainda mais legal.
Concordo. Seria sim.
Sei que o vídeo abaixo, feito com celular, é horrível. Mas dá para ouvir o SPLAT! e a musiquinha. Confiram.

Ficou mais fácil ser Indiana Jones. Quando eu já ia elogiar o fato de ser um brinquedo que permite simular o personagem sem no entanto dar uma arma de fogo de brinquedo para uma criança, eis que vejo (esqueci de fotografar) um bonequinho do Indy ao lado de uma arca e com algo que me pareceu ser um AK-47.
Deve ser a versão "Indy in Rio".

******

Em tempo: sei que nossa chance é mínima, já que somos apenas uma lojinha diante de megalojões de departamentos, mas, enfim, o ECLIPSE foi aceito no concurso mundial The Best Of Blogs. Se quiser dar uma forcinha, bom, eu até colocaria um banner, mas como não sei fazer isso, vou postar sempre esse link aqui! Vota em nóis!

por Gustavo de Almeida as 11:00:23

12.02.08

Cortar despesas: a Síndrome de Leão Camarada da classe média que aperta o cinto

Uma das coisas interessantes do joguinho viciante Jumpers for Goalposts é a parte do “Socialize!” para o jogador de futebol, que nos mostra o óbvio: para ter vida social é preciso ter grana. Hoje em dia, quando encontro alguém e essa pessoa me diz, “Pô, você tá sumido!”, eu costumo responder, “Sumido nada, tou é sem dinheiro”. O problema nem é meu rendimento atual, e sim o fato de que mudei de emprego. Antes eu ganhava bem mais, mas no entanto não tinha benefício algum, nem FGTS, carteira assinada, vales, etc. Agora ganho um pouco menos, mas com todos os benefícios a coisa quase equilibra. Sem contar as condições de trabalho infinitamente superiores e a mentalidade empresarial absurdamente mais progressista e humanista. Digamos que eu quase saí de uma senzala direto para um cargo no Google. Mas na troca de emprego, minha renda sofreu queda devido a um mês que demorei para a transferência. Ainda fui socorrido pelo 13º proporcional – do atual emprego, claro, já que o antigo não me pagou nem mesmo o 13º do ano passado. Que dirá o deste ano. Mas isto será assunto para a Justiça do Trabalho.
O que trato aqui é de Adaptação. É um espetáculo interessante, o da readaptação de um casal a novos orçamentos. Ainda mais um casal formado por Gustavo e Marcele – pessoas que precisam de livros, música, filmes e vinhos para viver. A parte dos vinhos, reconheço, é 99% minha.
Readaptar o padrão de vida inclui o reconhecimento de que uma despesa você não vai conseguir cortar: o aluguel. Não há como chegar para o proprietário do imóvel (principalmente se este tem 75 anos), dar aquele cumprimento estilo “pós-cesta de três pontos na NBA” e falar, “pô, aí, troquei de emprego, será que não rola uma cortadinha no aluguel, não?”. Creio que nisto há consenso. Logo, o aluguel será mantido mas você vai abaixar o padrão de vida.
O engenheiro Cobra certa vez cunhou a frase definitiva para Queda de Padrão de Vida em um Supermercado: “É quando você deixa de comprar doce de leite nas gôndolas e passa a comprar na seção de laticínios”. No post anterior eu creio que encontrei uma nova definição: quando o jantar depois do cinema (uma instituição quase tão milenar quanto o Matrimônio) passa a ser no McDonald’s em vez de restaurantes more expensives como La Fiorentina ou Pizzaria Stravaganze.


Olhaí: a parte "ASS" do Assolan no nosso armário de limpeza

Outro sinal de que o casal acordou para a realidade financeira do país é: “Ficar feliz quando abre Prezunic perto de casa”. A ida de um casal a um Prezunic é uma experiência antropológica que deveria ser filmada por um diretor do Discovery Channel. Aliás, perdem tempo os psicólogos que ainda não elaboraram teses sobre o comportamento de um homem e de uma mulher, casados um com o outro, diante das gôndolas de um supermercado. Se me detenho por mais do que cinco minutos nas gôndolas de birita, Marcele por sua vez se encanta nas de badulaques que a gente nem sabia que precisava – digamos, tipo “descaroçador de kiwi” (se é que isto existe). Ambos damos importância às gôndolas de material de limpeza. Em supermercado popular, tendem a ser muito mais baratos. Ali se sente bastante a readaptação, quando optamos pelo detergente de pia que está na faixa de preço “Abaixo de um real”. É a Síndrome do Leão Camarada: adeus, Limpol. Viva o Sabão Neutral Pastoso e o suco de Maracujá Pindorama!
Para quem não lembra: nas décadas de 70/80 havia um supermercado chamado Leão aqui no Rio. Uma espécie de antepassado do Guanabara e do Prezunic, os supermercados mais populares. O Leão Camarada, como era conhecido, tinha uma promoção mediante a qual você deveria ter um dentre diversos produtos da cesta básica deles, tinha que ser da marca anunciada por eles. Duas delas eram estas: sabão Neutral Pastoso e Suco de Maracujá Pindorama. A meu ver, marcas mais obscuras e difíceis de encontrar do que aquelas que anunciavam no programa do Alborghetti (alimentos Zaeli! Frigorífico Alvorada! Kuerten Madeiras!).


Para quem não conhece, um pouco de Alborghetti

A Síndrome de Leão Camarada passa a ser exatamente isto: no supermercado, em vez de comprar Bombril, se compra Assolan. Em vez de Coca-Cola, Baré. No lugar de cream cracker Piraquê, aquele em pacote grande que geralmente tem o nome do supermercado. Deixa-se na gôndola o requeijão Poços de Caldas e se abraça o Itambé como se fosse uma tábua de salvação.


Anúncio alternativo de Velho Barreiro

E, mais importante: adeus, Stolichnaya, bem-vindo, Velho Barreiro. Isto, claro, se eu bebesse destilados. Como não bebo, vou mesmo é apelar para o Sangue de Boi garrafão cinco litros.
Só não sei se existe Engov genérico.

por Gustavo de Almeida as 12:56:20

18.09.07

Adeus: a senhora do café, o tchau para o pai e o último dia

No sábado o filho dela morreu. E na segunda-feira ela estava na agência, fazendo café para os funcionários. "Ela chegou aqui, falou que o filho morreu, fez café e foi embora", me contou uma colega. "Ela ainda veio aqui?", eu perguntei assustada. E a resposta era sim. Ela foi trabalhar, como vai em todos os outros dias. E provavelmente voltará no dia seguinte, apesar do filho ter sido assassinado no último sábado. Nesse momento não me importa o que ele era: bandido, polícia, alguém andando no morro. O filho de alguém foi morto nesse fim de semana. Os filhos de tantas pessoas foram mortos nesse fim de semana. O filho de alguém também tinha filhos. Duas meninas. E tinha trinta e três anos de idade. E não saiu em nenhum jornal, não apareceu na tevê, ninguém escutou no rádio sobre sua morte. O filho de alguém morreu, o pai de alguém morreu e o mundo não ouviu.

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Achei esse vídeo abaixo na Casa do Zander:

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Domingo foi o último dia do Rio Body Count.

por Marcele Fernandes as 01:04:22

12.09.07

Turistas na própria cidade e outras coisas

Pôr do Sol na Lagoa, foto de Marcele Fernandes

Feriado prolongado, estradas engarrafadas, grana curta. Mistura que tinha tudo para fazer do último fim-de-semana uma tragédia, certo? Errado. O feriado de Independência foi melhor do que muita viagem que já fiz na vida. Gustavo e eu passamos tanto o sábado quanto o domingo na Lagoa Rodrigo de Freitas. Caminhamos, andamos de bicicleta e fizemos algo que eu não fazia desde criança -- e que ele nunca fez na vida --: passeamos de pedalinho. E como passear de pedalinho é bom, meudeus! Eu tinha até me esquecido.

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Dia 10 de setembro minha afilhada Cacau fez seis anos. Ontem, dia 11, minha sobrinha Luiza fez três. Sou alucinada por crianças. Na segunda a Cacau me fez ganhar o dia com um bate-papo. Quando brinquei com ela dizendo "Nossa, você só tem seis anos? Mas sendo grande desse jeito achei você tinha 15!", ela me respondeu prontamente: "Ah, tia Marcele... Sabe o motivo de você achar isso? É que quando eu vou dormir eu cresço, espicho e daí você fica achando que eu sou grande!". Já a Luiza quase me fez chorar (quase porque eu preciso me controlar pelo menos um pouquinho, para não passar vergonha em público) simplesmente porque ficou gargalhando e gritando o meu nome pela casa, enquanto pedalava em sua novíssima bicicleta rosa: "Tia Marcele, tia Marcele, eu tou pedalando!". Essas meninas nasceram ontem. E ai, como o tempo passa depressa! E sim, eu sei, sou sentimental demais.

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No domingo à noite vi "Brasileirinho". É o filme de um finlandês, Mika Kaurismäki, sobre o choro. Imperdível. Já ouvi dizer por aí que é o "Buena Vista Social Club Brasileiro". Talvez, talvez. É o olhar de um estrangeiro sobre um tipo de música tipicamente brasileiro e er, bem, Buena Vista também é -- basicamente -- isso. E por mais que eu adore Buena Vista (e o pôster na sala de casa comprova isso), é diferente, sabe? Resumir desse jeito um filme como "Brasileirinho" chega a ser covardia. Primeiro porque colocar qualquer documentário sobre música à sombra de uma obra prima como a de Wim Wenders e Ry Cooder é no mínino indelicado. Segundo porque são estilos de direção e histórias completamente diferentes. "Brasileirinho" realmente emociona. É simples, é bonito, é aconchegante. E acreditem, eu nunca pensei que chamaria um filme de aconchegante na minha vida. Vale a pena ser visto. E mais não digo porque sempre fui uma péssima resenhista de películas, como bem sabem os amigos da minha antiga faculdade de cinema.

por Marcele Fernandes as 01:52:04

18.06.07

O meu problema com crianças

Outro dia uma amiga do trabalho -- que já é mãe de um menino lindo -- virou pra mim e disse: "Seu filho vai ser tão mimado!". É verdade. Meu filho vai sofrer. Porque quando se trata de crianças, eu sou a Felícia. Vocês lembram da Felícia? Aquela personagem de desenho animado que agarra os bichinhos, fica fazendo cuti-cuti e dizendo "coisa-mais-linda-da-titia"? Sim, senhoras e senhores. Quando se trata de crianças, a Felícia sou eu.

Tenho tentado me controlar. Tenho realmente tentado me controlar. Até porque, não quero ter nenhum filho mimado. E estava tendo algum sucesso até a última semana, quando meus hormônios voltaram a borbulhar e eu voltei a me derretar por cada criança que passa por mim na rua.

Hoje foi a prova de fogo: batizado do meu sobrinho. E se eu tenho vontade de apertar as bochechas de crianças desconhecidas, imaginem as das crianças da minha família. Mas eu passei! E o Matheus (de onze meses de idade) e a Luiza (de quase três anos) saíram ilesos da igreja. O mesmo não aconteceria se eu encontrasse esses bebês na rua:

Bebês Shrek

Como eu não moro em Far far away (ou Tão tão distante), os bebês estão salvos. E eu também, né. Sei lá o que um bebê ogro pode fazer quando alguém aperta as bochechas dele...! Imaginem três!

Para quem não está reconhecendo os bebês da foto: eles são os trigêmeos de Shrek e Fiona, que nascem no filme Shrek Terceiro. Apesar de ser pra lá de suspeita para comentar qualquer coisa (eu a-do-ro os filmes do Shrek), a animação está sensacional. NN e eu saímos discutindo do cinema; ele acha os dois primeiros filmes da trilogia são melhores do que esse. Eu acho que os três tem um nível parecido e fica difícil escolher um. Mas concordamos em algo: nós dois queremos mais uma continuação. Que venha o quarto filme para que possamos voltar para a discussão novamente.

por Marcele Fernandes as 00:50:59

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