26.10.07
Um perro caliente, por favor - Dia Internacional de se enganar no espanhol

Em mais esta data comemorativa inusitada e exótica (Dia internacional de falar espanhol – como será que os argentinos comemoram?) é impossível não lembrar o jornalista Luis Edmundo Araújo, conhecido como o criador da Jihad Vascaína, movimento fundamentalista que cultua um deus gordo e balofo (não nessa ordem) que fuma charutos e odeia o Flamengo. É do jornalista a frase que define tudo: “Espanhol não é uma língua, e sim um estado de espírito”. Pelo que prega Luis Edmundo, todo e qualquer curso de espanhol e aprendizado do idioma é “perda de tempo”. “Para começar, é língua que se deve falar bêbado”, teria me dito o notável filósofo. Digo “teria me dito” porque eu mesmo não lembro se ele falou isso, já que de 1997 para cá é muito difícil que tenhamos passado 60 minutos no mesmo local, falando e sem beber.

Ao viajar para Buenos Aires, segui à risca o ensinamento de Araújo, para revolta de minha senhora. Nos táxis, sempre perguntava, “Es Boca OR River?”. “Soy Independiente”, respondia os taxistas. Eu calava, porque não sabia se o cara torcia pelo Independiente ou se queria dizer que não tinha time nenhum.
O próprio Luis Edmundo certa vez, ao pagar uma conta, se apalpou, fuxicou o bolso de um casaco e bradou: “Donde estás mi PORTA-PLATA?”, ao se referir à carteira. Eu até acrescentaria, “É “wallet”, seu burro”, mas por sorte ninguém me ouviu.
Eu creio que deve existir grandes diferenças, no entanto, no estado de espírito para se falar espanhol na Argentina e no estado de espírito para se falar espanhol na Venezuela. Creio que na Argentina é preciso sofrer uns cinco segundos antes, pensar numa grande tragédia, sentir viuvez de Evita Perón, ter um enfisema rápido de Cortazar, beber no Café Tortone. E aí abrir a boca para dizer coisas como: “Amigo, no tienes una habitación más grande? Com la bañera em el bañero?”, perguntei ao cara da recepção do hotel, pedindo um quarto maior e com banheira em vez de boxe. Porra, hotel tem que ter “la bañera” (por mais que muita gente fique com "nojinho" – royalties para o CAPITÃO NASCIMENTO).
Pausa: notem que eu coloquei CAPITÃO NASCIMENTO em caixa alta para ganhar mais page views. Esta experiência vai provar definitivamente que ninguém se interessa por vidinha doméstica de casal porra nenhuma, o negócio é sexo e porradaria. Fim da pausa, voltemos aos argentinos.
Entre Malbecs, Bonardas, Cabernets, Syrahs e Tannats, convenhamos, é difícil ficar sóbrio. Por isto faz sentido a declaração de Luis Edmundo – Buenos Aires é uma cidade simplesmente maravilhosa, espetacular, onde, para tudo ficar mais interessante ainda, as pessoas já nascem meio bêbadas. O minuano na Calle Florida faz o sujeito se entorpecer de frio, tome vinho para agüentar, e aí não tem jeito: a língua se enrola naturalmente. Por isto o falar espanhol é um estado de espírito – quero crer que nossos hermanos do Sul falam deste jeito por estarem bebuns ou de ressaca. Com a diferença que os portenhos falam absurdamente rápido. O espanhol seria, portanto, um português falado por bebuns.

O espanhol argentino é um espanhol de quem já fez guerrilha. O venezuelano é de quem está fazendo. E o espanhol falado na Bahia seria aquele em que seria dito “rapaz, deixe esse negócio de guerrilha para adelante...”
Enfim, eu poderia prosseguir a resenha dizendo que espanhol, acima de tudo, é língua para ganhar mulézinha. Você vai na faculdade de comunicação com uma camisa do Che Guevara, canta “Los Hermanos” ou “Volver a los 17” no violão, pronto, alguém você vai ganhar. Tercer mundo. Nenhuma mulézinha de faculdade resiste a isso.
E na faculdade é mais fácil ainda – se for a de jornalismo, a coisa mais fácil do mundo é ficar bêbado.
No entanto, creio que não é bom para minha saúde falar sobre esses assuntos em um blog que divido com minha senhora. Non tengo todo este cujones, mi amigo.
14.09.07
Copacabana, Cassino da Urca, Miguel Couto e outras ranhetices

O Cassino da Urca é um prédio em ruínas. Isso não é nenhuma novidade. Entra prefeito, sai prefeito, e sempre inventam uma história de revitalização, que nunca sai do papel. Há alguns anos (e eu confesso não me lembrar quantos), o prefeito César Maia prometeu transformar o lugar em um Centro Cultural, com direito a cinema, livraria e bistrô. Alguns moradores gostaram da idéia, outros nem tanto, a associação de moradores reclamou da falta de infra-estrutura. O prefeito veio até o bairro, inaugurou um canteiro de obras que nunca existiu e tudo ficou do mesmo jeito. Há algum tempo começou a correr um boato de que o prédio abrigará uma escola de design. O boato ganhou os jornais, a prefeitura confirmou a história e cá estamos nós de novo. Alguns moradores adoraram a idéia do velho prédio abrigar o Instituto Europeu de Design, outros se sentiram ofendidos porque estavam esperando pelo Centro Cultural, a associação de moradores reclamou novamente da falta de infra-estrutura e embargou a obra que -- pasmem! -- dessa vez tinha começado de verdade. Confesso que prefiro ver o Cassino habitado com alguma coisa, ganhando alma novamente, do que do jeito que está. É triste, mas parece que qualquer coisa é melhor do que a situação atual do lugar. Espero que a confusão passe logo e, finalmente, algo seja feito pelo velho prédio.
Ontem precisei andar por toda Copacabana. Deixei o prédio onde trabalho na Rodolfo Dantas e me encaminhei para a Prado Júnior. Fui andando pela Nossa Senhora e pela primeira vez em muito tempo tive a sensação de que não reconhecia mais o bairro. Depois precisei ir até a Santa Clara e decidi ir pelo calçadão. Novamente, o mesmo sentimento: eu não estava mais reconhecendo o bairro. Continuei a caminhada até a rua Sousa Lima, quando decidi voltar para a Rodolfo Dantas pela areia, literalmente à beira-mar. Definitivamente, aconteceu alguma coisa com Copacabana nos últimos meses, alguma coisa de muito grave que passou completamente despercebida por mim, ainda que eu tenha visitado o bairro todo o santo dia nos últimos dois anos. Ou talvez, a coisa de muito grave tenha acontecido comigo, que me desapaixonei por completo. Coisas da vida.
Outro dia ouvi de alguém a frase: "Eu me mato de trabalhar, pago plano de saúde e, sinceramente, estou pouco me lixando se alguém morre em um hospital público". Enquanto alguém elogiava a sinceridade do dito cujo, eu me controlava. Confesso que fiquei com vontade de pular no pescoço de uma pessoa como não ficava há algum tempo. Mas, cá entre nós, é necessário um mínimo de coragem para falar uma frase assim. E de cara-de-pau também. Aposto que muita gente concorda e não consegue admitir (nem para si próprio!). O que eu recomendo para os que estão "pouco se lixando" é uma voltinha pelo Miguel Couto. A última vez que tive vontade de pular no pescoço de alguém coincide com a última vez em que precisei visitar o hospital. Fiquei olhando para os cartazes colados nas paredes do prédio que diziam "Bater em funcionário público é crime, você pode ser preso e blábláblá" e pensei "meudeus, nunca corri tanto risco de ir para o xilindró na vida". Depois de conversar com a médica-diretora naquele dia, tenho certeza de que iria para a prisão feliz.
Gustavo e eu sofremos com a maldição de tudo-num-fim-de-semana-só. Eu não sei se esse mal acomete outras pessoas, mas eu realmente gostaria de entender como todo mundo marca alguma coisa para o mesmo dia. Quase sempre, algo imperdível, que você não pode faltar de jeito nenhum. É sempre assim: se um final de semana é tranquilo, com passeios, cinema e água de côco, no outro a gente tem trocentos compromissos em lados opostos da cidade (ou fora da cidade, o que é ainda mais grave). E sim, eu sei, estou reclamando de barriga cheia.
7.07.07
Ai, ai, ai
E em 07/07/07 anunciaram as sete maravilhas do mundo. Para mim o Cristo Redentor sempre foi uma maravilha mesmo e, óbvio, fiquei mais do que feliz com o resultado. Aliás, dos sete campeões, eu votei em cinco: Machu Picchu, Taj Mahal, Coliseu, A Grande Muralha da China e - claro! - o Cristo Redentor.
Mas esse blábláblá todo é só para contar que entrando na página de certo jornal carioca me deparei com a seguinte frase:
"A prêmio para a quarta maravilha do mundo ficou com Machu Picchu, no Chile."
Eu só coloquei as aspas e cliquei Ctrl+C e Ctrl+V. Dói. Ai, se não dói ler um treco desses. Pelo menos eles corrigiram rápido. E é, eu sei, estou meio rabugenta hoje. Nada que uma visita a Machu Picchu, no Chile, não faça passar.
P.S.1: 07/07/07. Eu sempre fui fã dessas datas. Lembro que quando eu era criança ficava louca para que chegasse logo o dia 08/08/88. E o que me deixava mais feliz é que no dia 08/08/88 eu tinha 8 anos. E, claro, eu não lembro de absolutamente nada do dia, nem mesmo de escrever a data no cabeçalho do caderno. Nos anos 00 essa história ficou meio sem graça. Todo ano tem uma data desse jeito. 01/01/01, 02/02/02, 03/03/03 e por aí vai. Ainda assim, fiquei a semana toda pensando que sábado era o dia 07/07/07, como se isso fosse algo realmente especial. E hoje só não me esqueci totalmente disso porque tive de assinar um cheque.


