Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









23.10.07

Perdi na vida - ando de ônibus: peripécias de um pedestre por vocação

Eu ando de ônibus. Esta frase fecha portas, reduz indivíduos a uma dimensão protozoária, atrai olhares de desdém e impõe ao autor da mesma uma manta de auto-piedade quase tão revoltante como se estivesse coberto com piche e penas – à melhor maneira do Velho Oeste. E, de fato, na sociedade ocidental civilizada-classe média, o sujeito que, como eu, se aproxima dos 40 anos sem ter seu carro, pode ser considerado um merda. Aliás, merda não. Um bosta, para ser entendível em carioquês e paulistanês. Mas é fato: eu ando de ônibus, e não se trata de opção ou pressão financeira. A vida decidiu por mim – curiosamente, meu pai também só começou a aprender direção de veículos depois dos 40 anos. Eu, talvez, nem isso. Tenho verdadeira vertigem de dirigir um carro, com outras vidas sob minha responsabilidade, no trânsito absurdamente louco do Rio, trânsito contra o qual o poder público só pensa mesmo em faturar, com pardais e lombadas eletrônicas. E mais nada.
O poder público só reduz os carros investindo em bom transporte coletivo. Há progressos, como as integrações do metrô aqui no Rio – mas estas só estão lotando mais o metrô, que tem mais uns quatro rushes além do normal. Os ônibus do Rio ficaram paulistas: se entra pela frente e sai por trás. Era o contrário, bem mais bacana. Hoje, se fala em acabar de vez com o cobrador.

Tanto é que se fala em vender o cartão antecipado. No dia em que todo mundo comprar o tal cartão da Fetranspor, pimba!, demitem todos os trocadores. Não tenham dúvidas. O que é uma pena, pois pela musiquinha, o trocador é a primeira alternativa – se ele for vigarista, é o motorista que é sodomizado, lembram? “Rema, rema, rema, remado-or/Vou botar no c(*) do trocador/Se o trocador for vigari-ista!/Vou botar no c(*) do motorista!/Se essa porra não virar, olê-olê-olá, eu chego lá”. E assim a gente ia.
Mas o fato é que não se pensa no público, e nem na população, que viveria melhor com um transporte solidário, menos carros, mais trens, mais metrô. Mas é tudo ao contrário: cada vez mais o sujeito tem que ter carro e andar sozinho, não dar carona. Cada vez investem menos nos trens interestaduais, e cada vez o metrô tem mais gente lotando os vagões sem que ninguém tome providências.

O mais incrível é que nada disso me faz tomar vergonha na cara e virar motorista. Toda hora me vem à cabeça a imagem (que eu não vi, na verdade) do meu pai ao meio-fio, sentado, sangrando aos borbotões, em uma rua longínqua da Baixada Fluminense, o Passat branco destruído, de um modo que assustaria só de olhar. Me lembro do carro chegando, trazido pelo reboque, da minha mãe empalidecendo (meu pai já estava em casa, bem, tranqüilo) ao ver o estrago e pensando que por um fio o velho não se foi (isto aconteceria em casa, anos depois, de modo até natural).
Me lembro do quanto bizarro era ver meu pai colocar o dedo no nariz, a gente reclamar, mas de repente ver o verdadeiro motivo: um caco de vidro saindo. E isto meses depois. Saía vidro até de dentro da orelha. Pedaços do tamanho da unha do meu dedo mindinho.
Não sei se é esse o trauma, fato é que nunca entrei numa auto-escola. Ai, em 2003, chega a hérnia de disco e me desclassifica para sempre – com hérnia, é quase-suicídio dirigir, já que “falta chão” para o pé nos momentos decisivos. E como a hérnia é no lado direito, falta para o freio e a embreagem (me corrijam se for isso mesmo, e principalmente se não existir mais esse negócio de embreagem).

São tantos fatores para me impedir de dirigir – inclusive o hábito de, er, consumir algumas bebidinhas socialmente – que volta e meia penso até que são forças ocultas, algo do futuro me avisando, tal e qual Marty McFly, “Não dirija, não dirija, estou lhe avisando, se um dia você dirigir, no futuro o mundo será dominado por carros vivos e ensandecidos”, me diz Michael G. Fox no pensamento inconsciente.
Mas, enfim, hoje, pela primeira vez, eu fraquejei: passei 25 minutos na Praia de Botafogo esperando um desgraçado de um ônibus, depois de pegar uma carona com um colega de trabalho. A cada cinco minutos, eu pensava pelo menos em um Fusca. Ainda bem que pararam de fabricar.

E, claro, vou pensar no quanto me arrependo de não dirigir, daqui a dois fins de semana, quando irei a um casamento no outro lado da cidade. Mas aí, como é casamento, talvez seja uma bênção. A última vez em que voltei sóbrio de um casamento a Volkswagen tinha acabado de lançar o Passat. Duas portas.

por Gustavo de Almeida as 01:20:15







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