Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









13.09.09

O traçado do muro de pedra: 1982 é apenas uma rachadura na parede, mas como dói

Para mim, a Copa de 1982 aconteceu em um pequeno bairro praiano, com uma murada de pedra e casas baixas. Ainda baixas, naquele ano de eleições para governador, em que eu me preparava para sair da concha rumo ao segundo grau. 1982 já teve o sabor amargo do – argh – crescimento, da separação daquelesz velhos colegas. Você vai me entender: quando se tem 14 anos e se estuda com colegas que você conheceu no mínimo aos seis anos – quando não aos cinco – bem, isso significa que você vai deixar de ver aqueles amigos que te acompanharam por toda a sua vida. Toda. Praticamente toda. A dor é imensa. E eu já vivia aquilo, dia após dia com gosto de despedida, os amigos dizendo que iriam para o Colégio Dom Pedro II, outros para escolas técnicas, alguns para a carreira militar. A menina por quem eu era apaixonado, esta, iria desaparecer das minhas vistas e eu, já meio nerd sem o saber, não teria mais o pretexto – a aula – para vê-la, ouvir sua voz, sentir seu perfume. Teria que – argh 2 – pedir seu telefone, ou quem sabe – argh 3 – chamá-la para fazer alguma coisa. Mas como convidar uma garota para sair sem que ela perceba que o que queremos é beijar sua boca?

Enfim, em 1982 tudo estava ruindo. Era a oitava série. Mas havia a Copa do Mundo – a Copa do Mundo sempre torna a vida melhor. E essa aconteceria nas férias de meio do ano. E eu sentia que 1982 seria a minha primeira Copa “a sério” - claro, assistira 1974 mal e porcamente e só lembrava de um cara chamado Valdomiro. Em 1978, não vi o Brasil perder, mas também não vi ganhar. Só falávamos na marmelada entre Argentina e Peru. Mas 1982 não. Eu já estava “adulto”, já participava dos movimentos amadurecidos de pessoas recolhendo dinheiro nas ruas, fazendo pedágios clandestinos a fim de comprar tinta e em seguida pintar laranjas gigantes com rosto no meio do asfalto. Sim, 1982 havia chegado. You're a big man now.
Ver estes vídeos todos do maravilhoso filme oficial de 1982 me levou, não à Espanha, mas àquele país estranho onde eu vivia, de onde, por televisões de no máximo 20 polegadas, as pessoas viam aqueles lugares escuros, aqueles estádios escuros de Madrid, Sevilha e Barcelona. Aquelas Tvs que mostraram batalhas épicas como Alemanha x França, a agressão monumental de Schumacher, o goleiro, no francês Batiston.

Aquelas Tvs que mostraram o Sarriá. Naquela tarde.

A murada de pedra, em frente a uma casa baixa, de três andares, um apartamento por andar. Não era bem um prédio. Está lá até hoje, incólume, depois de milhares de repinturas. Os amigos que lá habitavam já estão longe. Não moram mais ali no térreo, onde eu vi Brasil x Itália. Mas os fantasmas de 1982 me levam a todo instante para aquele dia, a gente chegando, se juntando ao povo. Eu nem bebia cerveja. Nada. Só coca-cola. O povo em volta, sofás, almofadas, cadeiras, salgadinhos. Gente que eu nunca tinha visto. No bairro, assim como em todo o Rio de Janeiro, vários preparativos para a festa. Passando pelos italianos, era barbada. O Brasil das eleições para governador emergia com a arte de Éder, Zico, Júnior, Leandro, Cerezo, Sócrates e, last but never least, Falcão. A esperança emergia. 12 anos depois do Tri, veio o Tetra. A esta altura, o mundo já estava encantado.
Eu iria perder meus amigos, meus colegas, a garota que eu tinha me apaixonado. Mas ganharia a Copa. Ora essa.
A murada de pedra é adornada por outras pedras, embaixo, que protegem a estrutura toda da força milenar das águas. Conter o mar, sabemos bem, não é tarefa fácil, e exige ter a mesma paciência petrificada que as águas salgadas e que respiram com ritmo sobre qualquer coisa.
Era só atravessar a rua, e voltar para casa, em silêncio, acompanhando o contorno da murada de pedra. Andando, dava uns 400 metros até em casa. Veja bem, não aconteceu nada. Eu apenas andei. Mas, que diabos, eu não sabia naquele momento que a caminhada jamais sairia de minha memória. Talvez porque tinha sido a primeira vez em que chorei sem um motivo trivial como uma queda, uma briga ou uma perda.
Eu chorei porque estava crescendo. E chorei porque, sinceramente, não conseguia entender por que as pessoas acham positivo o sentido da palavra “crescer”. Naquele momento, eu crescia porque aprendia o que é uma grande derrota, crescia porque em breve aprenderia que a vida é 4-4-2, não, nunca a beleza do 4-3-3. Chorei uma barbaridade, porque estava sozinho e tinha sido acordado de um sonho bom.
Só ouvia o barulho dos meus passos. Nas ruas, nenhuma alma. Nas janelas, pessoas encostadas no parapeito, dando as costas para as ruas. Televisões ligadas, semblantes de torpor. Acabou.
Não me venham dizer que “é apenas um jogo”. O Sarriá foi a nossa Alésia. O porre de fossa da nação. O amadurecimento ilícito, quase penal, um eletrochoque no país esquizofrênico com um general de presidente mas eleições para governador. E gente voltando do exílio.
Atravessei a praia, via uns poucos moradores encostados em frente aos botequins, todos em silêncio.
Talvez eu tivesse “detonado” meu choro por causa do Oscar. O zagueirão, que começara a carreira ao lado de Polozzi na Ponte Preta e que depois se consagraria no São Paulo. Naquele Brasil x Itália, aos 47 do segundo tempo, o jogo já praticamente terminado, todos em pé, corações batendo a mil esperando o empate salvador, consagrador, o país inteiro preparado para um urro de alegria quando a bola estufasse a rede italiana. Escanteio. É agora. A bola desce, está lá o gigante Oscar. A cabeçada vai quase no ângulo.
Mas Dino Zoff, uma lenda que depois seria técnico da Azzurra, esticou o braço e voou. Um gigante que sobreviverá aos séculos. Caiu Zoff, abraçado à bola, sem deixar rebotes, que na linguagem da vida real é o equivalente a “dúvidas”.
A cabeçada do Oscar até hoje me faz levantar meio milímetro da cadeira. Ainda acho que a bola pode entrar, é estranho. E fica a sensação de que eu seria uma pessoa diferente da que sou hoje, se o Oscar conseguisse aquele gol.
Os anos passaram, e aquela caminhada acompanhando o traçado do muro de pedra à beira-mar continuou, através da vida. Percebi que não haveria outro 1982.
E saber que não haverá outro 1982 é o que me faz ainda chorar, acompanhando o traçado desta vida.

Todos estes pensamentos nocivos são fruto de uma noite vendo alguns (ainda não todos) destes vídeos, 10 partes do filme oficial. Divirtam-se. A narração é de Sean Connery:

por Gustavo de Almeida as 02:17:20

23.07.09

E vocês achavam que não havia mais espaço a ser vendido na camisa de um clube?

getafe01

getafe02

A foto acima mostra um dos jogadores do Getafe, clube mais-ou-menos da capital espanhola, vestindo o novo modelo de uniforme patrocinado pela rede de fast-food Burger King. Outro dia mesmo no Twitter alguém falava na ânsia das empresas por espaço na camisa de futebol - o Flamengo tascou lá no ombro dos jogadores a palavra Bozzano por diversas vezes. Ficou feio pacas, mas é um dinheiro que entra. No Twitter, se dizia que as empresas eram doidas para que os números de camisas acabassem, porque havia todo um espaço nas costas a ser aproveitado.
Me lembro que quando Juninho Pernambucano, pelo Vasco, começou a jogar com a camisa 31, rolou uma patrocinada e até mesmo uma tentativa incrível de se rebatizar o jogador como Juninho Telemar. O bom senso impediu tal atrocidade.
O Getafe encontrou a parte de dentro da camisa e vendeu ao Burger King.Agora, a cada gol, o jogador pode comemorar no estilo que os espanhóis chamam de "Ravanelli Style", que a camiseta se encarrega de dar ao craque o rosto do Rei Burger.
E tem mais: o uniforme - lançado nesta quinta-feira, 23 de julho - comprado pelo torcedor vem com instruções de como ser usado:

getafeinstrucoes

getafeinstrucoes01

Depois desta, o próximo alvo dos patrocinadores deve ser o próprio corpo do jogador. Agora, bola fora da Burger King é que os juízes estão cada vez mais punindo com cartão amarelo quem comemora gol tirando a camisa e colocando em volta da cabeça. Qual será a decisão do craque? Mostrar o símbolo Burger King ou se manter sem cartão amarelo?

Bom, sei lá se no Getafe tem craque.

por Gustavo de Almeida as 20:10:27

1.12.08

Há 30 anos, o Deus da Raça

rondinelli

Me vem uma sensação de vertigem porque me lembro como se tivesse acontecido ontem. A luz da memória varia entre o sépia e o fim-de-tarde, mas as imagens continuam as mesmas, sempre. O som é que é estranho. Porque, curiosamente, eu confundo o inconfundível: na minha cabeça, o gol de Rondinelli aos 41 minutos do segundo tempo da decisão do Carioca de 1978 contra o Vasco foi narrado por Jorge Cúri, a voz potente, empostada, num gooooooooooooooooooooooooooooool profundo, gigantesco, monumental. Mas a verdade já dita (me foi dita inclusive pelo próprio Rondinelli) é que o gol foi narrado pelo não menos gigante Waldir Amaral (quando criança, eu não gostava dele, e sim do Curi).
O Waldir Amaral do "calibra o centro, executa, entra Zico de cabeça é goool".
Ambos, já desaparecidos, Waldir e Jorge Curi. Gigantescos. Inesquecíveis. E naquele momento, realmente, minhas memórias acertam quando erram: possivelmente os dois narraram na eternidade o gol de Rondinelli, depois do cruzamento no escanteio cobrado por Zico.

Isto aconteceu há 30 anos e me assusta dizer isto. Eu vivi trinta anos desde então e não parece que foi tanto. Será culpa do Rondinelli?
A imagem é clara. O rádio sendo desligado com raiva, conformados, pai e filho. Os minutos intermináveis de silêncio por causa da presunção de que o título estava perdido - o do segundo turno, e isto nos levaria a uma finalíssima com o mesmo Vasco.
E o rádio sendo religado exatamente no momento do gooooooooooool, ali no meio da palavra, um segundo sem saber de quem era o gol, até que se ouviu a vinheta "Fla-men-go-go", e o berro Rondineeeeeeeeeelli que, mais uma vez, eu achava sempre que era do Jorge Curi, mas foi do Waldir Amaral, e a eternidade me ensinou que foi dos dois ao mesmo tempo, e continuará sendo, através dos tempos.
Reveja o lance abaixo. Dê "pause" no momento em que Rondinelli sobe, depois de entrar como um aríete na área cruzmaltina. Repare no momento em que Rondi está suspenso, prestes a cabecear de forma fulminante, arrebatadora, vencendo Leão depois de uma batalha sangrenta e tão terrível quanto poderia ser mesmo uma batalha entre um homem e uma fera.

E veja que Rondi, na queda, sai correndo e não sabe para onde explodir, até que dá uma cambalhota porque não sabia o que fazer.
A torcida, em volta, enlouquece. O Flamengo é aquilo que você vê quando dá pause, Rondinelli suspenso na eternidade, o grito sendo preparado, o coração, o sangue, as veias e vísceras. Olhe nos olhos daquilo que você vê. É o Flamengo.

****
Mas você pode descobrir o que é o Flamengo também nesta quarta-feira, 3 de dezembro, quando se completam os 30 anos e os cineastas Pedro Asbeg e Felipe Nepomuceno exibem o documentário "O Deus da Raça", sobre aquele homem chamado Rondinelli. Será às 20h na Praça Luís de Camões, na Glória. É no subsolo daquela estátua da cabeça de Getúlio Vargas, ali bem perto da subida para o Outeiro da Glória. Programa imperdível para os rubro-negros.O ingresso será apenas R$ 5.

por Gustavo de Almeida as 13:23:40

27.05.08

Sete anos esta noite - De como o Flamengo, bem, vocês sabem

Eu não acreditava mais em cavalaria, Swat, Ultraman, Capitão América, Batman, Zorro, ou qualquer outro ser/entidade que aparecesse quando não havia mais esperanças. Não, no dia 27 de maio de 2001, há sete anos, eu já tinha 33 e era um adulto. Um adulto adolescente – como ainda sou hoje – mas um adulto, desiludido e um tanto farto. A bem da verdade, eu ainda não tinha Marcele, ainda que tenhamos de admitir: eu tenho Marcele desde 40 minutos antes do nada. Se o nascimento de um ser humano precisasse de algum documento carimbado em três vias, o meu documento provavelmente seria Marcele – que me deu um outro nascimento e provavelmente me dará outros dois (pelos meus planos, pelos dela são outros quatro).

Naquela tarde de 27 de maio, minha prima Mariana – sobre quem já escrevi aqui no Eclipse algumas vezes – tinha viajado. Não me lembro se para a França ou se para os EUA. Acho que ainda eram os EUA. Sei que não fui ao jogo por causa disso – para ir a uma decisão de campeonato entre Flamengo e Vasco, há que se chegar ao Maracanã muito cedo. Havia outro agravante: poucos lembram disto, mas a decisão começou às 15h, por causa do racionamento de energia elétrica. Como nos velhos tempos, como em 1955, na verdade 1956, os gols de Dida, Evaristo e tudo o mais. Eu achava que não podia dar errado. Mas por longos minutos, passei a achar, sim, vai dar tudo errado. E não haverá mocinho chegando no fim para colocar a porta abaixo, nem cavalaria para nos salvar.
O Flamengo, vocês sabem, precisava de dois gols de diferença. Dois gols. Vencíamos por 2 a 1 e mesmo assim dávamos adeus ao tricampeonato. Mas aí aconteceu aquilo que faz o futebol valer por uma vida, que faz uma vida valer a pena por um mágico instante, a sintonia onírica entre seres humanos, o grito, o urro, a emoção incontestável. E foi tudo em dois ou três segundos.
No primeiro segundo, eu achei que a bola não iria entrar. Estava muito longe. Muito, muito longe. E numa final de campeonato? Quê isso.
No segundo segundo (ops), a bola efetivamente entrou. Mas eu não entendi naquele segundo que a bola tinha entrado e que o Flamengo era tricampeão. Não, naquele segundo eu fiquei como o último neanderthal diante do primeiro cromagnon, como um índio diante de Pedro Álvares, chafurdando numa incompreensão vadia e delirante.
No terceiro segundo meu coração pareceu saltar da caixa torácica. Acreditem: nem o velho “Éééééé´” eu consegui gritar.
Seguiram-se pessoas se abraçando, chorando, berrando, janelas se abrindo, urros enormes, e o irmão do meu amigo endiabrado Alexandre Lalas aos berros diante da TV, gritos inesquecíveis, indignados, com a baba bovina (royalties para Nelson Rodrigues) do campeão:
- INVADE O CAMPO, PORRA! INVADE O CAMPO, PORRA! INVADE! INVADE! ACABA COM O JOGO!
Olhei de novo para a TV e 10 segundos depois destes gritos começava o tumulto. O meio-campo Beto (carinhosamente chamado pelos fãs – eu incluso – de Beto Cachaça), um leão da conquista, tirou a camisa e chamou para a porrada todo o time do Vasco. Depois, não satisfeito, chamou os reservas. Em seguida, o técnico Joel Santana. Depois, Eurico. A torcida do Vasco. O Artur Sendas. O grupo Madredeus. O Roberto Leal. O Martinho da Vila. O José Saramago. A tumba do Fernando Pessoa. Todos juntos. Beto queria enfiar a porrada em todo mundo.
Eu vi o Herói se deitar extenuado na grama. Sem acreditar. Depois, este mesmo Petkovic, lástima, jogaria no Vasco também. Mas aí é outra história. O futebol agora é isso, a gente não tem mais o Zico do Flamengo, o Careca (cracaço) do São Paulo, o Reinaldo (fora de série) do Atlético Mineiro, o Dinamite (cracaço) do Vasco, o Assis do Fluminense (e o Washington). Agora é assim. Normalíssimo o sujeito ser de aluguel.
Mas, senhores, um gol como aquele de Petkovic, na tarde de 27 de maio de 2001, subverte esse sentimento de desesperança no futebol. Porque percebemos que, ora bolas, é o Flamengo que é intransferível de nós mesmos. Podem vir leis, lei Pelé, contratos europeus, que há algo sendo Flamengo o tempo todo, independente de jogadores ou títulos, de ficar contando figurinha, de dizer que temos tal título e o outro não tem.
Ser Flamengo pode durar um segundo. Mesmo que sejamos a vida toda. Mas há um segundo em que tudo é mais Flamengo do que em todos os outros momentos de nossas vidas.
Obrigado, Dejan Petkovic, por este momento inesquecível de minha e de milhões de vidas.

por Gustavo de Almeida as 01:10:04

8.03.08

Saudades do 4-3-3 (a vida passada em revista)

A Placar de hoje, acima. A Placar de ontem, abaixo

Esta semana, no meu trabalho, rolou uma conversa que eu classificaria como “O Rosebud de cada um”. Sim, quando atingimos a faixa dos 30/40, aquele insterstício que cumprimos antes de podermos entrar de graças nos ônibus, é a hora de buscar nos escombros da memória aquilo de mais precioso que perdemos na infância. No meu caso, reconheço, há vários elementos como este. Mas nenhum supera a expectativa das terças-feiras – dia da semana em que a Placar chegava às bancas. Não a Placar que temos hoje (francamente, parei de ler a atual depois que percebi que um certo colunista continuaria sendo colunista), que reflete exatamente o que é o futebol atual – calcado em imagem, dinheiro e uma potência individualista que para mim estaria reservado aos lutadores de boxe no nível de Cassius Clay. Mas a Placar daqueles tempos, a década de 70, alguma coisa da de 80 sim (pelo menos até 1983, que é quando assinalo o fim da minha era de ouro no futebol, com a ida de Zico para a Udinese). Uma Placar voltada apenas para futebol – tanto que mulher era um assunto extremamente paralelo. Hoje em dia, uma revista de futebol tem que falar obrigatoriamente das cachorras e marias chuteiras – e algumas delas vão parar mesmo é na Playboy, como se percebeu no caso da ex-mulher do Richarlyson.
Na minha Placar, as mulheres entrava para eleger o jogador mais bonito do Brasil. Me lembro da Sônia Braga votando no Leão por causa das pernas. Me lembro que o Falcão acabou ganhando. E é impossível negar: o Inter de Falcão, graças à Placar, era um mito da minha infância rubro-negra: Manga, Cláudio Duarte, Figueiroa, Hermínio e Vacaria; Caçapava, Carpegiani e Falcão; Valdomiro, Dario e Lula. Timaço campeão brasileiro de 1975, conforme o vídeo abaixo (no qual, ao que parece, tem Chico Fraga em vez de Vacaria na lateral):

Pois eu falava deste Rosebud, até que denunciei minha própria mãe (e sei que ela jamais faria isso de propósito, sem saber o significado – minha mãe é alguém que preza muito o “significado” dos objetos): foi ela quem, numa das faxinas de reestruturação – quase um downsizing doméstico – atirou ao lixo e à eternidade as minhas duas sacolas de supermercado cheias de Placares daqueles anos. Corria lá o ano de 1986 ou 1987, vivíamos a amargura da Copa do México, que perdemos por culpa do Sócrates e do zagueiro Júlio César, que no fim das contas erraram a série decisiva de pênaltis (ninguém garante que a França não empataria se Zico, frio ainda, tivesse acertado o pênalti no tempo de jogo).
A bem da verdade, à parte essas provocações (da minha parte também, admito...) reconheçamos: ninguém tiraria de Maradona aquela Copa. Nem Zico, nem Sócrates, nem Júlio César.
Mas voltando à velha Placar, eu diria que ela fazia o papel de “testamento” do futebol daqueles tempos. É da Placar a maioria dos meus mitos futebolísticos de infância. Eu às vezes prefiro não rever os vídeos para não descobrir ao acaso que o meio-campo formado por Clodoaldo, Aílton Lira e Pita não era tão bom assim. Ou que Rubens Feijão seria banco do Toró fácil, fácil – como esquecer a manchete histórica, “Nem Pelé, nem Pagão: Rubens Feijão”? Naquele tempo, o Santos era o time paulista que mais angariava simpatias entre os cariocas, por causa dos Meninos da Vila, treinados pelo Formiga: Marola, Nelson, Toninho Carlos, Neto e Gilberto Sorriso; Toninho Vieira, Aílton Lira e Pita; Nilton Batata, Juari e João Paulo.

Para mim, desilusão de infância mesmo será o dia em que um santista da minha idade me dizer que Juari não era cracaço e sim apenas um velocista e Nilton Batata não merecia aquela convocação para a Seleção Brasileira que disputou a malograda Copa América de 1979.
A Placar é um localizador, para mim. Nascido em 1968, eu sei hoje que, numa terça-feira de agosto de 1975, com sete anos de idade, eu estava com a Placar abaixo nas mãos, que prometia revelar os “segredos do Rei do Rio”: Zico.

Eu simplesmente adorava estes mitos que a Placar criava. No exemplo abaixo, na capa da revista (as capas eram sempre marcantes), estava lá, um absurdo que hoje os palmeirenses mais empedernidos condenariam ao degredo: “Os herdeiros de Dudu e Ademir: Pires e Zé Mário”. Tal título equivale mais ou menos a escrever em uma matéria sobre o Flamengo: “Os herdeiros de Domingos da Guia e Leônidas da Silva: Ronaldo Angelim e Obina”.

Não que algum dos jogadores mais recentes citados não tenham valor – mas é porque Dudu, Ademir, Domingos e Leônidas são definitivamente Monstros Sagrados do Futebol Brasileiro.
Me lembro de, anos antes, ver essa mitologia paulista tomar conta da minha memória, com a capa de Placar relatando a venda do zagueiro Luis Pereira e do meia-atacante Leivinha para o Atlético de Madrid. “VENDIDOS”, alertava a manchete abaixo.

A matéria me convenceu de que o time que tivesse Luis Pereira estaria irremediavelmente condenado a ser campeão. Anos depois, em 1984, o Luisão Pereirão jogou no Flamengo. Gordíssimo, apesar de muito talentoso. O talento não serviu para impedir que fosse criada a Avenida Luis Pereira na defesa rubro-negra – avenida asfaltada e devidamente sinalizada.
Saber as datas de épocas nebulosas da aurora de nossas vidas (obrigado, Casimiro de Abreu) é como a visão de um trenó queimando, algo que voa em direção ao infinito e você sempre tentando segurar.
Uma parte do site da Placar tem uma louvável iniciativa: a reprodução das velhas capas, que é de onde fiz esta seleção. A Placar, semanal, seria certamente deficitária nos dias de hoje – não teria anunciantes para sustentar tal periodicidade. Mas certamente a revista prolongava a segunda-feira pós-rodada de domingo, aquele momento que é céu ou inferno. Era ali que líamos a crônica mais saborosa do jogo, recheada da visão de alguém que teve mais tempo para acompanhar a manhã seguinte. Era na Placar que percebíamos as apostas do futebol brasileiro, como a que incensou Carpegiani, o grande volante e técnico campeão do mundo pelo Flamengo(e lamentável técnico de futebol dos tempos de hoje, completamente perdido), à condição de “craque e líder da seleção”. Na capa abaixo, uma reportagem que eu sempre vou lembrar: “Carpegiani tem fôlego para mais seis anos”.

A revista levou Carpegiani ao que havia de mais moderno em testes fisiológicos, e o cracaço correu na esteira, tirou sangue, fez dezenas de exercícios.
Mal sabia a Placar em 1979 que no ano seguinte o gaúcho de Erechim largaria o futebol e em 1981 comandaria o Esquadrão Rubro-Negro. Esquadrão este que tinha, conforme a capa abaixo de 1980, “um craque virgem”. Era incrível isto: a questão “Futebol” era tão centrada no tema “Futebol” que um jogador podia se declarar virgem aos 21 anos (como o mórmon Milton Queiroz da Paixão, o Tita) sem que isso fosse tema de dezenas de matérias subseqüentes.

Ainda do esquadrão é a linda manchete MENGO TU É O MAIOR, com erro de português e tudo, refletindo um povo excluído socialmente, de um país com a educação falida – um povo que se refugia até hoje no Ser Flamengo para ser alguma coisa nesta vida.

O tempo é, sim, contar dias e horas, e não há quem o segure. A Placar também sabia disto – tanto que na capa abaixo previa Zico e Sócrates aos 50 anos. Zico, um respeitável e aristocrático empresário. Sócrates, um médico de renome.

Maravilhosas previsões furadas. Zico aos 55 anos parece ter 45 e veste um agasalho do Fenerbahce fazendo história na Turquia. Sócrates não exerce a Medicina, mas escreve para diversas publicações – entre elas a revista Carta Capital – e continua parecendo ter 40 anos.
Mas este era o grande lance da Placar: saber brincar com as coisas do futebol que são realmente do futebol – como a idade, o tempo, a memória, essas coisas do futebol que são de toda a gente.
Hoje, a terça-feira é apenas um dia sem graça. E sem rodada de campeonato.
*****
Para quem entrou direto neste post pelo Permalink: já tem um mais novo que este, escrito pela Marcele, com uma história sobre um forninho que é impressionante. O que não faz o Marketing direto hoje...

por Gustavo de Almeida as 14:12:31

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