Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









28.11.07

Quando a arte vem da barbárie (2) - A Terra do 38

O carro com quatro jovens vestidos de preto dentro estaciona devagar na comunidade de Santo Amaro, bairro pobre da periferia de Recife, a capital mais violenta do Brasil. As portas se abrem com discrição e os quatro saem do carro, um deles com uma lata de tinta, o outro com um molde nas mãos. São cinco e meia da manhã, horário em que milhares de trabalhadores começam a se dirigir para os pontos de ônibus - e nesta comunidade não é diferente. À medida que andam, os quatro jovens cumprimentam operários, manicures, empregadas domésticas, balconistas e borracheiros.

Por uma infelicidade de toda Pernambuco, estes quatro jovens jornalistas já são conhecidos: são os autores do blog Pernambuco Bodycount (em inglês, contador de corpos de Pernambuco), que desde 1º de outubro assumiram uma missão: em cada local de homicídio de Recife, desenhar um corpo, com tinta vermelha, para que os crimes jamais caiam no esquecimento. Já pintaram, até a sexta-feira, dia 26 de outubro, nada menos que 56 - média superior a um corpo por dia. É uma cidade onde, em janeiro deste ano, 480 pessoas morreram assassinadas a tiros.

As perspectivas são trágicas: com dois anos de trabalho, se o ritmo de crimes continuar, possivelmente Recife terá mais de 5 mil desenhos de corpos de pessoas assassinadas espalhados por suas ruas. "A gente quis tirar da Internet, que é um meio de elite, e levar o PE Bodycount para a população excluída, que mais sofre com a violência. Para isso surgiu o Marcas. E estamos sendo maravilhosamente recebidos em todas as comunidades onde trabalhamos", diz o jornalista Eduardo Machado, que com os repórteres João Valadares, Rodrigo Carvalho e Carlos Eduardo Santos, todos do Jornal do Commercio, faz o terrível trabalho artístico pelas ruas da capital pernambucana. Quem acompanha o grupo é o fotógrafo Rodrigo Lobo (vale muito a pena conferir o FlickR de Rodrigo, muito bom fotógrafo).

A cada desenho, uma história. No segundo fim de semana de trabalho, tiveram mais uma prova do que sempre defenderam: que a questão da violência em Pernambuco não passa pelo crime organizado, e sim pelos parâmetros comportamentais do nordestino - cabra macho, sim, senhor.
Em Santo Amaro, três jovens encostaram de carro na calçada em frente a um boteco e pediram uma cerveja. A bebida veio, com uns tira-gostos. Abriram então duas portas do carro e colocaram um CD de música baiana, bem animada. Nenhum dos freqüentadores do bar reclamou - muito menos moradores do quarteirão, que já sabem da realidade: não se reclama dos outros no Recife. Curiosamente, muitos dos outros clientes do bar começam a ficar animados com a música. Um deles se aproxima dos jovens e pede que o volume seja aumentado. Como já eram mais de 22h, o dono do veículo se recusa.
É a senha para a violência: contrariado com a negativa, que considerou uma "má-educação", o cliente do bar, embriagado, chama mais dois comparsas, vai em casa, perto dali, pega três armas, volta e assassina com brutalidade os três jovens dos carros. Por causa de uma música baixa demais.

"A noção que nós temos aqui é de que a vida não vale nada", diz Eduardo, com a voz amarga. "Aqui não tem pistola, não tem fuzil, não tem traficante. É a terra do 38, tudo se resolve à bala".
Na mesma semana, no bairro Alto do Maracanã, Zona Norte do Recife, os quatro contam no blog que Zaqueu, um serralheiro de 60 anos, viu o filho de 30 ser assassinado na mesma rua onde cresceu. Ao se dirigirem ao local da morte, um morador pegou o pincel das mãos de Eduardo e pintou sozinho o chão de vermelho para marcar a morte do amigo. O pai, Zaqueu, não saiu de casa, mas deu autorização aos jornalistas para que fizessem a pintura. Enquanto isso, a cena que emocionou o grupo: o morador anônimo que tomara o pincel começava a chorar. Mas continuou pintando, diante dos moradores.
No fim, disse aos quatro jornalistas que já havia três marcas na região onde mora, no bairro de Dois Unidos. As marcas já eram uma realidade. O grupo está quase virando celebridade, embora façam o possível para não se deixarem banalizar. Banal é a violência. Os cinco rapazes de camisa preta (“Vamos todos com a mesma, escrito Marcas da Violência”) estão quase se tornando uma grife. Sem nenhum glamour – apenas tragédia.
A Secretaria de Defesa Social faz de tudo para diminuí-los. Em vão. Logo no começo do blog, veio um feriadão e eles deram o bodycount: 54 mortos em três dias. Três dias. Em uma capital brasileira e cidades em torno. “Demos o número, demos os nomes e locais de cada um dos mortos. Pegaram os nomes, e divulgaram que três deles não tinham sido assassinados. Um atropelado, um por afogamento e o terceiro por choque elétrico”, conta Eduardo. “Nos contestaram num sábado pela manhã. João estava de plantão, e nos dividimos: eu fui para o local do choque elétrico, os dois restantes para o afogamento e o atropelamento, em zonas mais distantes de Recife. Do atropelado nós conseguimos o atestado de óbito: três tiros”.
Neste ponto da entrevista eu pensei que o governo socialista de Pernambuco deve ter achado que as balas de revólver eram fabricadas pela Volkswagen. Eduardo prossegue e acerta o que eu pensei: “Colocamos no blog uma manchete: ATROPELADO POR TRÊS TIROS”.

As duas partes do curtametragem sobre o projeto Marcas da Violência

Rodrigo Carvalho, que é pauteiro do Jornal do Commercio de lá, também se sente desiludido em relação à violência em Recife. Ele e Eduardo fecham questão: ali, sim, em Recife era caso de chamar a Força Nacional de Segurança Pública. “São muitos motivos, e ao mesmo tempo um samba de uma nota só. O homicídio dá origem a outros. O cara perde o pai, mais tarde será assassino ou será vítima também”, lamenta. Apesar de não haver (ainda) a figura do traficante de fuzil na capital pernambucana, as drogas já estão em um estágio avançado: o maldito crack já assola as comunidades carentes de Recife, deixando sua trilha de morte, sangue e vício incurável. Quem se vicia, assalta, rouba. E cria mais barbárie, nas favelas recifenses. “Esta semana”, conta Rodrigo, “mataram um menino de 17 anos, cortaram a cabeça e escreveram com faca nas costas dele, cortando: ‘ladrão’”. Rodrigo reconhece que cada bairro carente tem seu grupo, que há uma falência total do Estado e das instituições. “Quem quer resolver algo tem que estar disposto a matar. Junte-se a isso a disponibilidade da arma e a total desvalorização da vida, e o resultado é catastrófico”, conta Rodrigo. O resultado é este: a triste terra do 38.

P.S. - No Santa Bárbara e Rebouças o mesmo texto, mas com o comercial que eles fizeram depois de ganhar o Prêmio Vladimir Herzog de Internet.

por Gustavo de Almeida as 02:16:45

27.11.07

Quando a arte vem da barbárie (1)

Aos 22 anos, Anna Kahn estava dentro de um ônibus Botafogo-Alvorada trafegando pela orla do Rio quando um arrastão se anunciou: um bando de meninos começou a assaltar os passageiros. Mal chegou ao Túnel Dois Irmãos e um homem armado dentro do coletivo começou a disparar contra os adolescentes. Correria, pânico e gritaria. Mais uma recordação do Rio de Janeiro, que Anna me conta com estranhamento e um certo terror guardado. "O que mais me assusta na violência urbana no Rio é como pode se tornar banal", desabafa.
Ali, naquele ônibus, só o acaso livrou Anna de ser atingida por uma bala perdida, mas ficou o trauma de ter tentado sair do ônibus e ser impedida pelos corpos feridos caídos na porta. Antes deste episódio, já havia ouvido da avó que um assaltante teve a coragem de apontar a arma para a cabeça de uma idosa. E teve o irmão assaltado e ameaçado.
Essa e outras experiências da fotógrafa foram a inspiração amarga para o trabalho feito desde 2002, transformado na exposição 'A testemunha silenciosa — um ensaio fotográfico sobre balas perdidas no Rio de Janeiro'. São 25 imagens de locais marcados por tragédias, ocorridas desde 1992. Anna catalogou cada um dos casos.

Seguindo a trilha dos crimes pelos jornais cariocas, enveredou por vielas e favelas da cidade, muitas vezes correndo riscos de ser ela própria uma vítima da violência que retratava. "Em algumas favelas, não teve jeito: os traficantes mandavam recados para que a gente saísse. Eu ia sempre aos locais com meu assistente, e de carro, com um tripé. Mas no Rio nem sempre é possível fazer fotos de tripé, fotos paradas, com tranqüilidade", conta Anna. Para a fotógrafa profissional, medo mesmo é a Avenida Brasil de madrugada, onde teve de passar e às vezes parar a fim de fazer seus registros. Ou a Linha Amarela, como na última foto deste post.
As fotos todas têm nome das pessoas: Josué, Carla, Gutemberg. Todos mortos.

Uma das fotos que marcaram fundo foi no Posto Seis, em Copacabana. Segundo Anna, uma das poucas que não foi em noite escura, e sim no suave e contraditório crepúsculo: ali, era necessário somar a beleza do pôr-do-sol com a angústia de saber que ali, anos antes, uma mãe morrera ao ser baleada enquanto protegia a filha pequena. "Simboliza ali a passagem do paraíso para o inferno", me conta Anna, pelo telefone.

A exposição de Anna fica até fevereiro no Instituto Moreira Salles, na Gávea.

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E por falar em eventos culturais, convido os leitores paulistanos a prestigiar o lançamento de Meias vermelhas e histórias inteiras, de Marcos Donizeti, autor do blog Hedonismos. Será no dia 03 de dezembro de 2007 (próxima segunda), a partir de 17hs no Bar Genial, que fica na Rua Girassol, 374, em Vila Madalena.
Note que usei o "em" Vila Madalena. O bom paulistano praticante provavalmente vai me corrigir dizendo que é "NA" Vila Madalena. Na verdade, até hoje eu só sei mesmo que se diz "EM" Vila Isabel, logo, uso a mesma regra...

por Gustavo de Almeida as 13:23:34

12.09.07

Turistas na própria cidade e outras coisas

Pôr do Sol na Lagoa, foto de Marcele Fernandes

Feriado prolongado, estradas engarrafadas, grana curta. Mistura que tinha tudo para fazer do último fim-de-semana uma tragédia, certo? Errado. O feriado de Independência foi melhor do que muita viagem que já fiz na vida. Gustavo e eu passamos tanto o sábado quanto o domingo na Lagoa Rodrigo de Freitas. Caminhamos, andamos de bicicleta e fizemos algo que eu não fazia desde criança -- e que ele nunca fez na vida --: passeamos de pedalinho. E como passear de pedalinho é bom, meudeus! Eu tinha até me esquecido.

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Dia 10 de setembro minha afilhada Cacau fez seis anos. Ontem, dia 11, minha sobrinha Luiza fez três. Sou alucinada por crianças. Na segunda a Cacau me fez ganhar o dia com um bate-papo. Quando brinquei com ela dizendo "Nossa, você só tem seis anos? Mas sendo grande desse jeito achei você tinha 15!", ela me respondeu prontamente: "Ah, tia Marcele... Sabe o motivo de você achar isso? É que quando eu vou dormir eu cresço, espicho e daí você fica achando que eu sou grande!". Já a Luiza quase me fez chorar (quase porque eu preciso me controlar pelo menos um pouquinho, para não passar vergonha em público) simplesmente porque ficou gargalhando e gritando o meu nome pela casa, enquanto pedalava em sua novíssima bicicleta rosa: "Tia Marcele, tia Marcele, eu tou pedalando!". Essas meninas nasceram ontem. E ai, como o tempo passa depressa! E sim, eu sei, sou sentimental demais.

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No domingo à noite vi "Brasileirinho". É o filme de um finlandês, Mika Kaurismäki, sobre o choro. Imperdível. Já ouvi dizer por aí que é o "Buena Vista Social Club Brasileiro". Talvez, talvez. É o olhar de um estrangeiro sobre um tipo de música tipicamente brasileiro e er, bem, Buena Vista também é -- basicamente -- isso. E por mais que eu adore Buena Vista (e o pôster na sala de casa comprova isso), é diferente, sabe? Resumir desse jeito um filme como "Brasileirinho" chega a ser covardia. Primeiro porque colocar qualquer documentário sobre música à sombra de uma obra prima como a de Wim Wenders e Ry Cooder é no mínino indelicado. Segundo porque são estilos de direção e histórias completamente diferentes. "Brasileirinho" realmente emociona. É simples, é bonito, é aconchegante. E acreditem, eu nunca pensei que chamaria um filme de aconchegante na minha vida. Vale a pena ser visto. E mais não digo porque sempre fui uma péssima resenhista de películas, como bem sabem os amigos da minha antiga faculdade de cinema.

por Marcele Fernandes as 01:52:04

10.08.07

Férias

foto de Marcele Fernandes

Eu estou de férias. O NN está mais ou menos de férias (se é que isso existe). São as segundas férias de trabalho de toda a minha vida. Como outro dia o Eric falou (ele estava de férias), a gente se acostuma aos trabalhos ruins, com horários completamente loucos, fins de semana de plantão e... sem férias. Quando a gente arruma um emprego em que podemos ficar trinta dias recebendo sem ter de aparecer no trabalho, parece uma dádiva divina. Talvez seja.

Ainda assim, a minha dádiva divina desse ano não está nada parecida com a dádiva divina do ano passado. Essas minhas primeiras duas semanas de férias estão ligeiramente tediosas. Talvez porque as do ano passado foram agitadas demais (e não, eu não quero o mesmo tipo de "agitação" que tive nas últimas férias -- porque muitas delas não foram positivas). Mas é estranho. Talvez porque eu esteja ansiosa para a viagem da semana que vem (ansiosa mas com medo; depois que eu voltar, eu conto o motivo do medo). Talvez porque eu não tenha conseguido fazer nem metade das coisas que tinha planejado.

Eu não sei quanto a vocês, mas as férias, pelo menos pra mim, são uma espécie de ano novo. Eu faço milhares de promessas de coisas que farei nas férias. Muitas vezes acabo não cumprindo. Uma das metas recorrentes é emagrecer (espero não ter de fazer essa promessa de novo ano que vem). Outra é arrumar os armários e a casa (que, provavelmente, estão mais bagunçados do que quando comecei as férias). A outra é fazer longas caminhadas por lugares bonitos todos os dias (essa tarefa, felizmente, eu tenho conseguido cumprir). E ir para a praia pelo menos uma vez na semana (eu preciso ir mais uma vez essa semana para compensar a semana passada -- apesar de eu não ter muita certeza de como essas "compensações" funcionam quando a gente está de folga, será que elas valem).

Ainda faltam duas semanas e seis dias. Ou só faltam duas semanas e seis dias? Enfim: até o dia do retorno a labuta, vamos ver como as coisas ficam. Espero que até lá eu tenha melhores histórias para contar. Ou melhor: espero que até eu tenha alguma história para contar. Por que por enquanto...

P.S.: A foto no começo do post é de um dos passeios por lugares bonitos que eu tenho feito. É o caminho Claudio Coutinho, na Praia Vermelha. Melhor do que a foto da bunda da Iris. Eu confesso que já não aguentava mais entrar no blog e olhar para aquele treco.

P.S.2: O André Dahmer, autor dos Malvados, fez um sensacional mapa da blogosfera. O Eclipse está lá! Eu confesso que fiquei espantanda. E honrada, também. Para quem ainda não viu o mapa, aí está ele (roubei a imagem do blog da Carol Costa):

Mapa da blogosfera

por Marcele Fernandes as 17:21:37

16.07.07

Cinco Playboys (não são os da Barra)

MAYARA

Bom, antes de mais nada: essa capa da Mayara Magri aí é só para atrair leituras. Preciso de solidariedade, afinal, a missão é difícil. Escrever sobre capas da Playboy na frente da minha senhora é tarefa por demais escorregadia, sujeita a chuvas e trovoadas, com pancadas no início e no final do período. Ressalte-se principalmente as pancadas. Uma implicância desde o início de namoro com ela – e lá se vão quase cinco anos, faltam alguns dias para a data – sempre foi com a pilha de playboys e derivados que ultrapassa a minha própria altura. Isto sem contar as outras revistas masculinas, de mulher pelada e de sacanagem que habitam o mofado armário onde havia também colado um pôster do Nunes comemorando o gol sobre o hediondo Atlético Mineiro na final de 1980.
Explico: há três tipos de revistas com conteúdo erótico: as masculinas, onde coloco a Playboy e aquela revista de playboy misógino que não desmamou, a Vip. Contra esta tenho uma antipatia especial por causa dessa mania de ensaios eróticos contra a qual eu sempre me insurgi. Caramba, vou ter de sair do assunto mais uma vez. O caso é que, aos 39 anos, sempre tive musas onanísticas na adolescência que tiveram de ralar para vencer na vida, tipo Rose Di Primo, que certamente posou pelada umas 200 vezes, 170 vezes mostrando pelo menos os pêlos púbicos. Ou públicos, já que havia ensaios mensais. Rose teve de posar tanto, e hoje em dia qualquer prostivagaranha (royalties para o publicitário Arthur Muhlemberg) faz um ensaio erótico sem mostrar nem peitinho e já diz que é famosa. Voltando ao assunto, portanto, masculina é Playboy e Vip, de mulher pelada é a Sexy e de sacanagem são aquelas em que está configurado o famoso tchaca-tchaca-na-butchaca, melhor resumido na expressão idiomática “sexo explícito”.
Evidentemente que a Playboy jamais esbarra nesta terceira classificação, em que posso incluir até mesmo os desenhos de Carlos Zéfiro. Mas minha implicância com esta ótima revista sempre foi sua relutância em ir além das boas reportagens e entrevistas e se tornar definitivamente uma revista de mulher pelada.
Vejamos algumas de minhas capas mais marcantes – e com isso evidentemente descarto qualquer impacto sexual, haja visto que em um blog de casal não se deve falar dessas coisas. Além do mais, Marcele mencionou cinco capas que eu realmente acho fenomenais, e que seriam fácil minhas cinco capas de Playboy preferidas. No entanto, vou citar outros quatro ensaios e manter apenas o da Suzane. Menciono os ensaios que considero historicamente importantes.

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1 - Dóris Giesse – A Dóris era jornalista, conhecidíssima, chegou a ter na Globo um programa sem sentido chamado Dóris para Maiores, e apresentava com muita simpatia uma das melhores coisas que já vi em TV, o Jornal de Vanguarda, na Bandeirantes. Quando finalmente aceitou o convite para a Playboy, foi um grande impacto. Quer dizer, é diferente, por exemplo, de uma Grazielle Massafera, que faz charminho mas todo mundo sabe que uma hora vai tirar a roupa. A Dóris nunca deu essa bandeira, e de repente posou nua. Mas aí, como diz o Juarez Soares, aberta a porteira, passa boi, passa boiada: meses depois, em um ensaio histórico na Sexy, Dóris simplesmente aparecia FODENDO, E DE VERDADE, com o repórter que a entrevistou, numa história absolutamente BIZARRA.

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2-Rosenery Fogueteira – A mulher que quase fodeu nossa ida à Copa do Mundo de 1990 era um bagulhão. Um barro, como diz uma colega de trabalho. Mas nos instantes após o Brasil x Chile do Rojas, quando apareceu aquela lourinha, não houve marmanjo que não vibrasse e tecesse loas. Para completar, a mina era de São Gonçalo, cidade da Região Metropolitana do Rio, capaz de fazer – para vocês de São Paulo – Diadema parecer Paris. Dava uma historinha de fantasia, a menina pobre que ficou pelada e depois ficou rica, etc, você imaginava o impacto no bairro dela. Anos depois, Rosenery foi entrevistada trabalhando em um trailer. Quer dizer, ou posou por pouco ou aplicou mal a grana.

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3- Suzane Carvalho – O detalhe da irmã de Simone Carvalho e filha de Lia Farrel era o seguinte: ela era colega do meu irmão no segundo grau. Lá pelos idos de 1981, viajamos para Salvador de carro, saindo do Rio. Meu pai ao volante, minha mãe no carona, eu, meu irmão e ela no banco de trás. Claro, eu sempre embarreirando geral, torrando o saco querendo ir no meio e pedindo músicas no toca-fitas. Em Vitória da Conquista, dormimos em um hotel daqueles de filme americano, com corredor e portas de quartos só de um lado. Claro que meus pais ficaram em um quarto e eu fiquei no quarto do meu irmão com a Suzane. Cada um em sua cama. Uma vez em Salvador, todos meus primos deram em cima de Suzane, que era muito gata mesmo na época. Acho que ninguém faturou. No ano seguinte, 1982, veio a fama, o ensaio para a Playboy. Me lembrei de algumas conversas com ela (gente boa, a Suzane), e me lembrava dela dizer que gostava de ouvir Oswaldinho do Acordeão. Uns 10 anos depois ela estava casada com...Oswaldinho do Acordeão!
Reencontrei Suzane recentemente, coisa de três ou quatro anos, em um aniversário de meu irmão, na Tijuca. Continua gente boa, um pouco mais sisuda – ficou muito notória como piloto de automobilismo – mas nos deu carona até a porta de casa. Cabelo bem curtinho, ainda guardava os mesmos traços. Ruga zero. Só um cansaço nos olhos, normal.

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4-Xuxa – Jamais poderia deixar de destacar a Rainha dos Baixinhos, que posou, se não me engano, junto com a irmã para a Playboy em 1982, meses depois da Tragédia do Sarriá. Foi certamente uma das coisas boas daquele ano, ao lado do título brasileiro do Flamengo obtido em pleno Estádio Olímpico (na bola e na porrada). Xuxa já havia posado antes, para a Status. Nunca tive a Playboy dela, mas vi na casa de amigos. Era difícil para um moleque de 14 anos comprar essas revistas, e comigo era mais difícil ainda pois eu tinha 14 e aparentava 11. A Xuxa na Status, no entanto, eu tive por uns quatro ou cinco anos. Meu pai comprou para mim em 1981, e durante o segundo grau, que fiz em 1983/84/85, troquei a Status por dois discos de rock. Não me lembro quais agora. Foi um mau negócio, haja vista que a Status hoje valeria milhares em um leilão, enquanto que o MP3 fez qualquer disco de rock valer o mesmo que uma esfiha do Largo do Machado (as melhores). Neste link você pode ver tanto fotos da Playboy quanto da Status. Desta última, são as fotos em que aparece uma bóia salva-vidas ao lado.

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5-Françoise Forton – Ela posou em 1989, enquanto fazia Tieta, de Jorge Amado, na Globo. Mas para mim foi uma ruptura gigantesca, já que uns 13 anos antes, eu criança mesmo, tinha pirado na Maria Teresa de Estúpido Cupido, novela de Mário Prata que tinha João Carlos Barroso no papel de Caniço e Ney Latorraca no de Mederiques. Era uma novela que, apesar de exibida em 1976, mostrava os anos 50/60 com certa nostalgia, com Cely Campelo na trilha sonora cantando Banho de Lua, esse tipo de coisa. Françoise era a musa de uma cidade, se não me engano o nome da cidade era Albuquerque. No fim da novela eu me apaixonava de vez porque Françoise participava de um concurso de miss, e usando maiô! Anos depois, qual não foi a minha surpresa ao ver este ensaio:
Poderia listar mais uns 20 ensaios marcantes. Ou poderia fazer uma lista de “5 Mulheres que, surpreendentemente, posaram para a Playboy”: Reneé de Vielmond, Betty Faria, Solange Couto (a dona Jura, veja a foto abaixo), Isabela Garcia e Lucinha Lins.

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Fato é que a liturgia em torno da revista caiu muito, e a coisa perdeu o caráter de “exploração, caça e descoberta”. O ensaio da bandeirinha talvez tenha sido bom para recuperar um pouco isto – foi um caso em que a revista cercou, esperou, deu o bote, pagou alto, etc. Como eram estas atrizes, faziam jogo duro, posavam, e vendiam milhões, porque havia milhares esperando ansiosos. Hoje em dia, você vê a mulher quase nua no Big Brother e sabe que, uma vez eliminada, ela vai correr para a revista e assinar sem ler. A pescadora (não me lembro o nome agora) do BBB retrasado talvez tenha sido mais “charminho”, mas mesmoa assim era previsível. Olhando para o retrospecto, é incrível como as mulheres de BBB e de No Limite tomaram o acervo da revista completamente e mudaram seu rumo. Hoje, os caras não podem deixar uma "famosa" ficar famosa demais a ponto de descansar no ostracismo, o que é uma pena. Ensaios como o da Isabela Garcia ou da Simony, por exemplo, dificilmente acontecerão de novo, a persistir essa linha.

por Gustavo de Almeida as 14:07:45

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