Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









13.11.09

Um filme de geração

Quando começaram a subir os créditos de “500 Days of Summer” eu comentei com a Marcele: “Este é um filme de geração”. Não um filme “para homem” ou um filme “mulherzinha”. Nada disso. Bobagem. É um filme de geração. O filme de quem está entre os 25 e 30 anos, filme de quem está para se resolver, se apaixonar, decidir o rumo a ser tomado na vida. Filme de quem se sente excluído, filme de quem tem medo. “500 Days of Summer” além de tudo é um saboroso trocadilho, uma alusão aos verões de nossas vidas, aos amores passageiros de verão, ou mais precisamente “de veraneio”. E mais: “500 Days of Summer” é o melhor filme sobre rejeição no estilo “Te vejo como amigo” desde as teses rancorosas de Billy Cristal em “When Harry met Sally”. Para uma geração que sofre com rejeição, solidão e amores platônicos, “500 Days of Summer” é um filme tão fundamental quanto “High Fidelity” e sua coleção de fracassos retumbantes.

Summer irrita, a nós, homens. Tem todas aquelas “coisas de mulher”. Os diálogos enigmáticos, as falas incompreensíveis e aquela irritante mania feminina de achar que, bem, você não é o homem da vida delas porque você não entendeu aquela frase sobre Woody Allen ou David Bowie. “Bowie tem uma aspereza continental, me leva a pensar no inverno e suas folhas cinzentas”, diz sua amada. Você faz apenas cara de “hã”?, e, pronto, tem uma crise.

Pausa para advertência: esta minha referência só vale para mim até o dia 29 de julho de 2002, depois, nunca mais aconteceu isso.

Voltando a “500 Days of Summer”, uma das cenas mais sensacionais se desenvolve quando Tom Hansen, vivido pelo Joseph Gordon-Levitt, tem a esperança de voltar para Summer porque ela o chamou para “uma pequena reunião festiva”. A tela se divide em dois: a Realidade e a Fantasia. Na Fantasia, a casa está vazia, só os dois se beijam. Na realidade, existe uma reunião, mesmo, acontecendo. E Summer está com alguém.
Tom Hansen faz uma expressão de derrota que eu só tinha visto mesmo em Woody Allen, o ator, em “Crimes and misdemeanors” (Crimes e Pecados), quando ele vê a mulher que ama nos braços de um completo débil mental. Mas ali ele entende que amor é uma mistura caótica de sonhos e hormônios. A derrota, a derrota. É a expressão de Obelix ao ver Falbalá se encontrando com Tragicomix, ele, gordo, enorme, ela, linda de morrer, ele, Tragicomix, um semideus apolíneo. O casal “perfeito”. O gordo excluído.

“500 Days of Summer” nos leva a pensar se, sim, se as meninas feias e gordinhas sofrem tanto quanto os meninos feios e gordinhos. Bom, me refiro aos que sofrem – há meninos e meninas feios e gordinhos que não estão nem aí. Eu mesmo sou feio e gordinho mas sempre soube me virar. Até 29 de julho de 2002, depois não precisei me virar mais. Sofri? Claro que sim. E nem era gordinho. O pior: Tom Hansen nem é um cara tão feio assim. Mas é meio nerd. Tem amigos esquisitos. É introvertido, tímido e perdedor – um arquiteto que saiu da linha para trabalhar escrevendo cartões de felicitações. Em uma sequencia ótima, é incumbido de fazer cartões fúnebres.

“500 Days of Summer” é sobre a derrota, sim. Sobre a derrota necessária, aquela que nos forma o caráter, que nos faz aprender todas as lições que deveriam vir nos livros de Moral e Cívica na década de 1970: ser atencioso, sem ser subserviente; ser carinhoso, sem ser meloso; ser cool, sem ser excessivamente hype; e acreditar que após cada derrota o que importa é pegar a bola no fundo da rede e correr para colocar no meio-campo.

“500 Days of Summer” é daqueles filmes fundamentais para apagar a memória das derrotas. Com “500 Days of Summer” a gente passa a entender que todo mundo perde. Everybody hurts. Pena que não tem essa música na excelente trilha sonora - que inclui uma versão ótima de "Here comes your man", dos Pixies. Por sorte, não é a versão cantada por Tom Hansen, bêbado, num karaokê.
“500 Days of Summer” é o filme da geração da Marcele. É uma pena que não é da minha. Que derrota.

por Gustavo de Almeida as 12:14:17

30.10.09

Quatro dias para sair do ar

A resposta já está assinalada, mas se quiser você pode ir treinando. Teve gente que respondeu errado e se deu muito mal. De qualquer maneira, é dica de um bom filme para se ver nessa folga boa.

marcelluswallace

Um bom feriado para todos. De muito pensamento positivo. A gente volta na terça-feira direto para o Belmonte do Jardim Botânico (ver post abaixo).

por Gustavo de Almeida as 01:50:54

26.10.09

A hora do rubro-negrismo racional, radical, intransigente e ultimate fighting

Atenção: esse não é um post pago. É um post amigo e de compadre, mas não é pago. Não confundam, por favor. Essa história de post pago e, pior ainda, de patrulhamento de quem faz post pago já cansou muito. Este post não é pago, até porque, numa boa, acho muito difícil que alguém queira pagar por um post meu. Na humildade e sem falsa modéstia.
Mas vamos lá ao assunto principal:é só para lembrar que daqui a uma semana tem lançamento do Manual do Rubro-Negrismo Racional, do Ultimate Rubro-Negro Arthur Muhlemberg.
Segue um release que preparei para o evento:

Arthur Muhlemberg recebe os compatriotas (da Nação Rubro-Negra) no Belmonte do Jardim Botânico (Rua Jardim Botânico 617) às 19h do dia 3 de novembro (terça-feira) para o lançamento do Manual do Rubro-Negrismo Racional. Mais do que auto-estima, o autor, que escreve o blog Urublog no site GloboEsporte.com, ressuscita com seus textos, diários, a velha Marra Rubro-Negra. O Manual do Rubro-Negrismo Racional é de leitura insuportável para torcedores de outros clubes.

Para quem não conhece o Urublog, lembre deste vídeo aqui:

Arthur consegue a proeza de citar Niesztche, Schoppenhauer e Bezerra da Silva para provar que o Flamengo é maior e não tem conversa.
Um trecho do livro:

“Comparar o Brasil com o Flamengo é até covardia. A nação rubro-negra é muito mais perfeita em sua organização, mais justa na divisão de responsabilidade e dos deveres de seus cidadãos e, principalmente, não
comporta a odiosa divisão de classes. E, claro, não penaliza os mais pobres com o ônus da honra duvidosa de pagar a conta pela nacionalidade. Por essas e outras que o Flamengo é o meu país.”


Informações sobre o autor

Arthur Muhlenberg chegou a começar carreira como ator aos 13 anos, interpretando o Pequeno Polegar na produção Sitio do Picapau Amarelo, da Globo. Desde então, atuou no teatro, novelas e cinema, participando de filmes como Parahyba Mulher Macho, de Tizuka Yamasaki, Bete Balanço, de Lael Rodrigues, The Emerald Forrest, de John Boorman e O Rei do Rio, de Fabio Barreto. Ainda trabalhou também na produção do controvertido longametragem Rio Babilônia, com Joel Barcellos, Pedrinho Aguinaga, Christiane Torloni e Denise Dumont.

Trabalhou em diversas agências de publicidade, especializando-se em marketing político, tendo ajudado a eleger prefeitos, senadores e governadores em todo o Brasil. Em 1996 roteirizou a série Dossier Chatô, adaptação do livro de Fernando Moraes sobre Assis Chateaubriand, com direção de Walter Lima Junior, exibido no GNT. Desde 2007, comanda o “Urublog”, blog do torcedor do Flamengo, um dos campeões de audiência do portal globoesporte.com, com mais de 1 milhão de acessos mensais – http://colunas.globoesporte.com/arthurmuhlenberg/.

Um servicinho para os bibliotecários:

Manual do rubro-negrismo racional
Arthur Muhlenberg
ISBN 978-85-7577-621-6
116 páginas | R$ 25,00

Um mapa para quem quer se achar no Rio:

Desnecessário dizer que espero encontrar todo mundo lá, né? Mesmo não sendo (ainda) lançamento de livro meu. E espero que possamos confraternizar estando todos no tal do G4.
Saudações rubro-negras.

por Gustavo de Almeida as 23:05:19

24.10.09

Viagem fantástica ao mundo de Tuhu*

Quer fazer um programaço numa tarde de sábado (ou até num dia de semana mesmo) no Centro do Rio? Corre, porque até o dia 5 de janeiro a exposição Viva Villa, aberta no momento em que se completa 50 anos da morte do maestro Heitor Villa-Lobos, está lá, gratuita, no maravilhoso solar do Arquivo Nacional, onde ficava a Casa da Moeda. Para quem é carioca, mole de ir: fica ao lado do Hospital Souza Aguiar, bem em frente a uma entrada do Campo de Santana, já perto da Avenida Presidente Vargas. Dá para ir de metrô numa boa. O local, infelizmente, é meio ermo (não tivemos problemas, registre-se) para ir sábado de tarde muito a pé, mais calmo é pegar um táxi e saltar na porta.

Toda a trajetória de Villa Lobos, desde o nascimento em 1897 até a morte em 17 de novembro de 1959 está lá, magistralmente registrada numa exposição que parece ser o trabalho de uma vida. A curadoria é de Fabiano Canosa. O visitante poderá ler nos painéis detalhes maravilhosos da vida de Villa-Lobos, dar de cara com um painel gigantesco com 30 mil crianças que foram regidas pelo maestro no Estádio de São Januário, conhecer a criação do Sôdade do Cordão, o bloco carnavalesco que o maestro criou, e mergulhar nas histórias internacionais de Villa: musical na Broadway, trilha sonora para filmes, contatos com Audrey Hepburn, Anthony Perkins. Histórias deliciosas como a de Arthur Rubinstein, o pianista polonês consagrado como o maior intérprete de Chopin em todos os tempos. Num carnaval, não havendo fantasia nenhuma a mais, Villa-Lobos colocou o sisudo polonês vestido de baiana.



Imagens do pátio do Arquivo Nacional, no Centro do Rio, que foi reformado em 2004

Depois de passar por diversos painéis, ler curiosidades, se impressionar com objetos (a reprodução da sala da casa onde Villa morou nas Laranjeiras é magistral), tudo isso ao som de diversas peças do maestro, o visitante da exposição desce ao pátio do magnífico palacete do Arquivo Nacional e procura a entrada do trenzinho caipira. Neste ponto, você já está maravilhado com a exposição, mas o trenzinho termina de encantar o visitante completamente. Em frente a cada assento, uma vidraça, dentro de vagões que reproduzem um trem com perfeição. Atrás das vidraças, filmes de época. Tive a emoção de ver um filme da década de 40 que mostrou, por breves três ou quatro segundos, o Flamengo com Domingos da Guia no alto. Impossível não reconhecer: alto, sereno, quase uma estátua de vigilante, as feições sérias e meio quadradas. Muito emocionante ver uma imagem em movimento de Domingos, eu que só conhecia suas fotos.

Por trás de duas das vidraças, a reprodução perfeita de uma floresta amazônica, dos tempos em que Villa-Lobos explorou a selva. Ali o público “desembarca” do trem e caminha sobre terra, grama, mato de verdade. Cheiros de selva, oxigênio puro, são lançados no ar. Ouve-se o canto do uirapuru. Numa pequena clareira mais iluminada, duas pequenas vitórias-régias são vigiadas por uma borboleta perfeita. Em outro vagão, imagens de Paris, da época em que o maestro viveu por lá. Tudo explicadinho em dezenas de textos bem esclarecedores. Para situar o visitante, ao longo de toda a exposição há anúncios antigos, de produtos que o tempo se encarregou de sepultar, como o óleo de fígado de bacalhau, “Bom para as creanças (sic)”.

Fiz um pequeno filme dentro do trenzinho. Não ficou muito bom, mas é mais na intenção de dar uma ideia do ambiente lá dentro. Dá para ouvir o canto dos pássaros e do uirapuru.

Uma tarde na Viva Villa faz a gente voltar a acreditar que ainda dá. Claro, depois a gente sai do local, passa no camelódromo em pleno fechamento, vê a degradação, miséria, urina, fezes humanas espalhadas, produtos piratas, barracas quebradas, fogueiras, e lembra que não está mais na Cidade Maravilhosa de Villa. Mas isto é apenas o contraponto.
A esperança ainda está lá, na História. Viva Villa.

Ah, pega aí o link para o site oficial da exposição: http://www.vivavilla.com.br/

*Tuhu, do título: apelido de infância de Villa-Lobos, porque ele ficava imitando o apito do trem. Essa eu só soube indo na exposição.

por Gustavo de Almeida as 20:45:06

15.10.09

Beleza e desespero: a abertura de "ANTICRISTO"

Se você me perguntar se Anticristo é um bom filme, ou se você deve ir vê-lo, eu não poderei te responder nada. Mas talvez eu te diga:
- São cinco minutos iniciais extraordinários.
Sou dos partidários de que Anticristo é um filme fortíssimo, caricato em alguns momentos, mas que "gruda" em seu cérebro por meses. Lars Von Trier, com esse filme, mostra que fazer cinema é antes de tudo conseguir que o espectador se sinta dentro de um sonho (ou, no caso, pesadelo) do qual é possível acordar (ou seja, sair) antes das coisas ficarem pior.
Eu, por exemplo, quando sonho que estou numa fila de condenados à execução em um paredón, só acordo quando recebo a minha bala na cabeça. Passo o horror de ver todos meus companheiros de luta (ou de festa, vá saber se eu não era um ditador do Cone Sur antes de estar ali) perecerem até a minha vez de ter os miolos explodidos por dez carabinas.
Com Lars Von Trier você pode simplesmente se levantar e sair do cinema.
Eu fiquei.
O vídeo acima é sobre a parte que explica tudo o mais que vem a seguir. Os padrões são completamente diferentes do restante - nesta abertura fantástica, Lars Von Trier usa o recurso da câmera lenta, do Preto & Branco com tons azuis e ainda por cima com a ária Lascia ch´io pianga, da primeira ópera de Haendel, "Rinaldo".
Pequeno parêntese: não conheço Haendel direito, até o filme de Trier, "Rinaldo" para mim era nome de atacante nordestino que joga no Sudeste.
Voltando a Trier, não pretendo aqui fazer uma resenha do filme. Admito que, no final do filme, nas cenas finais MESMO, aconteceram coisas que até agora não entendi. Mas no cômputo geral, a frase que parece definir vem de She (os personagens são He, William Dafoe, e She, Charlotte Gainsbourg): "A natureza é a igreja de Satã".
Lars Von Trier não é cinema para apenas pensar. É cinema para sentir, e também para algo que mistura as duas coisas sem ser a inteligência emocional dos best-sellers.
Claro que há momentos no filme que são contraditoriamente "bobos". Mas acho que até estes momentos ajudam a quebrar o raciocínio durante o filme. O telespectador é obriga a mudar o eixo. Tem que sair do eixo racional e ir voltando aos poucos. Tem que "sonhar". De repente, é puxado para a superfície de novo. E assim por diante.
Aguarda-se a visão do horror, do inferno, das vísceras, mas nada disso vem. Vem a sutileza, a cena de muito escuro com muito claro no meio, a selva fechada, a solidão de quem atravessa uma ponte, a solidão de quem está sonhando e não pode pedir ajuda ao ser amado.
Anticristo é um filmaço. Não culpo quem não gostou. Não acho que seja um filme obrigatório, reconheço que tem gente que não precisa passar por isso, e tem gente que nem deve passar por isso. Não se deve dar uma medalha para quem viu e gostou, e nem mesmo desancar quem não gosta.

Digamos que Anticristo seja uma droga que ainda não está ilícita.

Mas um dia ficar ilícita, é porque uma forma de cinema muito bacana terá deixado de existir, esse cinema da fuga.

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Ah, em tempo: tentei criar um botãozinho aqui do lado, mas como sou muito tosco para mexer em template, vai aqui mesmo - o link para a comunidade do Eclipse na Internet:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=34882884

Ainda não tem atividade nenhuma, mas é bom para recebermos reclamações ou até elogios. Fica a dica.

por Gustavo de Almeida as 20:54:27

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