Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
Siga-nos no Twitter Gustavo de Almeida
Marcele Fernandes









13.11.09

Um filme de geração

Quando começaram a subir os créditos de “500 Days of Summer” eu comentei com a Marcele: “Este é um filme de geração”. Não um filme “para homem” ou um filme “mulherzinha”. Nada disso. Bobagem. É um filme de geração. O filme de quem está entre os 25 e 30 anos, filme de quem está para se resolver, se apaixonar, decidir o rumo a ser tomado na vida. Filme de quem se sente excluído, filme de quem tem medo. “500 Days of Summer” além de tudo é um saboroso trocadilho, uma alusão aos verões de nossas vidas, aos amores passageiros de verão, ou mais precisamente “de veraneio”. E mais: “500 Days of Summer” é o melhor filme sobre rejeição no estilo “Te vejo como amigo” desde as teses rancorosas de Billy Cristal em “When Harry met Sally”. Para uma geração que sofre com rejeição, solidão e amores platônicos, “500 Days of Summer” é um filme tão fundamental quanto “High Fidelity” e sua coleção de fracassos retumbantes.

Summer irrita, a nós, homens. Tem todas aquelas “coisas de mulher”. Os diálogos enigmáticos, as falas incompreensíveis e aquela irritante mania feminina de achar que, bem, você não é o homem da vida delas porque você não entendeu aquela frase sobre Woody Allen ou David Bowie. “Bowie tem uma aspereza continental, me leva a pensar no inverno e suas folhas cinzentas”, diz sua amada. Você faz apenas cara de “hã”?, e, pronto, tem uma crise.

Pausa para advertência: esta minha referência só vale para mim até o dia 29 de julho de 2002, depois, nunca mais aconteceu isso.

Voltando a “500 Days of Summer”, uma das cenas mais sensacionais se desenvolve quando Tom Hansen, vivido pelo Joseph Gordon-Levitt, tem a esperança de voltar para Summer porque ela o chamou para “uma pequena reunião festiva”. A tela se divide em dois: a Realidade e a Fantasia. Na Fantasia, a casa está vazia, só os dois se beijam. Na realidade, existe uma reunião, mesmo, acontecendo. E Summer está com alguém.
Tom Hansen faz uma expressão de derrota que eu só tinha visto mesmo em Woody Allen, o ator, em “Crimes and misdemeanors” (Crimes e Pecados), quando ele vê a mulher que ama nos braços de um completo débil mental. Mas ali ele entende que amor é uma mistura caótica de sonhos e hormônios. A derrota, a derrota. É a expressão de Obelix ao ver Falbalá se encontrando com Tragicomix, ele, gordo, enorme, ela, linda de morrer, ele, Tragicomix, um semideus apolíneo. O casal “perfeito”. O gordo excluído.

“500 Days of Summer” nos leva a pensar se, sim, se as meninas feias e gordinhas sofrem tanto quanto os meninos feios e gordinhos. Bom, me refiro aos que sofrem – há meninos e meninas feios e gordinhos que não estão nem aí. Eu mesmo sou feio e gordinho mas sempre soube me virar. Até 29 de julho de 2002, depois não precisei me virar mais. Sofri? Claro que sim. E nem era gordinho. O pior: Tom Hansen nem é um cara tão feio assim. Mas é meio nerd. Tem amigos esquisitos. É introvertido, tímido e perdedor – um arquiteto que saiu da linha para trabalhar escrevendo cartões de felicitações. Em uma sequencia ótima, é incumbido de fazer cartões fúnebres.

“500 Days of Summer” é sobre a derrota, sim. Sobre a derrota necessária, aquela que nos forma o caráter, que nos faz aprender todas as lições que deveriam vir nos livros de Moral e Cívica na década de 1970: ser atencioso, sem ser subserviente; ser carinhoso, sem ser meloso; ser cool, sem ser excessivamente hype; e acreditar que após cada derrota o que importa é pegar a bola no fundo da rede e correr para colocar no meio-campo.

“500 Days of Summer” é daqueles filmes fundamentais para apagar a memória das derrotas. Com “500 Days of Summer” a gente passa a entender que todo mundo perde. Everybody hurts. Pena que não tem essa música na excelente trilha sonora - que inclui uma versão ótima de "Here comes your man", dos Pixies. Por sorte, não é a versão cantada por Tom Hansen, bêbado, num karaokê.
“500 Days of Summer” é o filme da geração da Marcele. É uma pena que não é da minha. Que derrota.

por Gustavo de Almeida as 12:14:17

15.10.09

Beleza e desespero: a abertura de "ANTICRISTO"

Se você me perguntar se Anticristo é um bom filme, ou se você deve ir vê-lo, eu não poderei te responder nada. Mas talvez eu te diga:
- São cinco minutos iniciais extraordinários.
Sou dos partidários de que Anticristo é um filme fortíssimo, caricato em alguns momentos, mas que "gruda" em seu cérebro por meses. Lars Von Trier, com esse filme, mostra que fazer cinema é antes de tudo conseguir que o espectador se sinta dentro de um sonho (ou, no caso, pesadelo) do qual é possível acordar (ou seja, sair) antes das coisas ficarem pior.
Eu, por exemplo, quando sonho que estou numa fila de condenados à execução em um paredón, só acordo quando recebo a minha bala na cabeça. Passo o horror de ver todos meus companheiros de luta (ou de festa, vá saber se eu não era um ditador do Cone Sur antes de estar ali) perecerem até a minha vez de ter os miolos explodidos por dez carabinas.
Com Lars Von Trier você pode simplesmente se levantar e sair do cinema.
Eu fiquei.
O vídeo acima é sobre a parte que explica tudo o mais que vem a seguir. Os padrões são completamente diferentes do restante - nesta abertura fantástica, Lars Von Trier usa o recurso da câmera lenta, do Preto & Branco com tons azuis e ainda por cima com a ária Lascia ch´io pianga, da primeira ópera de Haendel, "Rinaldo".
Pequeno parêntese: não conheço Haendel direito, até o filme de Trier, "Rinaldo" para mim era nome de atacante nordestino que joga no Sudeste.
Voltando a Trier, não pretendo aqui fazer uma resenha do filme. Admito que, no final do filme, nas cenas finais MESMO, aconteceram coisas que até agora não entendi. Mas no cômputo geral, a frase que parece definir vem de She (os personagens são He, William Dafoe, e She, Charlotte Gainsbourg): "A natureza é a igreja de Satã".
Lars Von Trier não é cinema para apenas pensar. É cinema para sentir, e também para algo que mistura as duas coisas sem ser a inteligência emocional dos best-sellers.
Claro que há momentos no filme que são contraditoriamente "bobos". Mas acho que até estes momentos ajudam a quebrar o raciocínio durante o filme. O telespectador é obriga a mudar o eixo. Tem que sair do eixo racional e ir voltando aos poucos. Tem que "sonhar". De repente, é puxado para a superfície de novo. E assim por diante.
Aguarda-se a visão do horror, do inferno, das vísceras, mas nada disso vem. Vem a sutileza, a cena de muito escuro com muito claro no meio, a selva fechada, a solidão de quem atravessa uma ponte, a solidão de quem está sonhando e não pode pedir ajuda ao ser amado.
Anticristo é um filmaço. Não culpo quem não gostou. Não acho que seja um filme obrigatório, reconheço que tem gente que não precisa passar por isso, e tem gente que nem deve passar por isso. Não se deve dar uma medalha para quem viu e gostou, e nem mesmo desancar quem não gosta.

Digamos que Anticristo seja uma droga que ainda não está ilícita.

Mas um dia ficar ilícita, é porque uma forma de cinema muito bacana terá deixado de existir, esse cinema da fuga.

**********************

Ah, em tempo: tentei criar um botãozinho aqui do lado, mas como sou muito tosco para mexer em template, vai aqui mesmo - o link para a comunidade do Eclipse na Internet:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=34882884

Ainda não tem atividade nenhuma, mas é bom para recebermos reclamações ou até elogios. Fica a dica.

por Gustavo de Almeida as 20:54:27

A caixinha da sorte grande e do azar alheio

Ainda sem estreia prevista no Brasil, "The Box" é um filme com Cameron Diaz de protagonista. Quando isso acontece, a menos que o Ben Stiller esteja por perto, o resultado é sem graça. Mas como o diretor é o mesmo Richard Kelly que, além de dirigir ainda escreveu o roteiro de um filme chamado Donnie Darko (que me foi muito recomendado), fiquei curioso.
Os dilemas éticos são atraentes, cativantes, interessam ao ser humano, exploram os limites da alma do mesmo jeito que ficar perdido na selva explora os do corpo. Em Batman Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, a discussão ética é sobre qual barcaça seria explodida primeiro: uma carregando os ditos "cidadãos de bem" e a outra presidiários.
Em "The Box", já se sabe: um cara estranho (vivido pelo genial Frank Langella, o Nixon de Frost/Nixon) chega à casa de Cameron e seu marido, vivido por James Marsden. Ele abre uma caixa com um botão, e avisa que se eles apertarem o mesmo, ganham um milhão de dólares (eles, claro, estão meio que precisando de grana). Só que, em contrapartida, uma pessoa - que eles não fazem ideia de quem seja - morre em outro lugar.
Claro, o primeiro pensamento dos dois provavelmente foi: "Caramba, será que vai ser a minha mãe? Vou ganhar um milhão de dólares para matarem minha mãe?". A regra do jogo é que vale morrer qualquer pessoa mesmo.
Vou esperar ansiosamente esse "The Box", que deve pintar ainda neste semestre. Enquanto isso, divirta-se com a sátira genial abaixo.

por Gustavo de Almeida as 04:46:12

6.08.09

Obrigado, John Hughes

planestrains

John Hughes, que partiu deste mundo nesta quinta-feira 6 de agosto, nos deu muitos filmes inúteis e sem graça nos últimos 10 ou 15 anos. Mas sua memória deve ser reverenciada sempre por ser o papa da “Comédia Tela Quente”, aquele filme que estreava na segunda-feira à noite na Globo e depois ia para a Sessão da Tarde com “uma turma do barulho aprontando mil e uma confusões”.
Claro, John Hughes era muito mais do que isso: nos fez disfarçar o choro em Planes, trains & automobiles, de 1987. Steve Martin tentava voltar para casa a tempo para o Dia de Ação de Graças americano, John Candy – que hoje sabemos que era genial – fazendo o papel de um vendedor de argolas para chuveiros que...não tinha ninguém. Esta excelente comédia, lançada aqui no Brasil com o nome “Antes só do que mal-acompanhado”, tinha esse fecho lacrimoso para dar aquela mensagem final “capriana” do bom cinema americano: a família, a família e a família. Bem disse o Roberto Da Matta há uns 20 anos: “Democracia se faz com filmes de Frank Capra”.
Devemos a Hughes os momentos inigualáveis de “Curtindo a vida adoidado” (abaixo, um trailer modificado e muito divertido), a redenção de Twist and shout, as melhores gags de Esqueceram de mim. Devemos a John Hughes o surgimento de Molly Ringwald em “Gatinhas e gatões (Sixteen Candles) , “A garota de rosa shocking” e Clube dos Cinco.

John Hughes não dirigia filmes desde “Curly Sue, a malandrinha”, preferindo apenas escrever ou produzir.
Ele captou a alma do jovem de classe média baixa americano: Martin e Candy, apesar de adultos, são dois adolescentes quando dividem a mesma cama em “Planes...”.
Neal (Martin): Del, pór que você beijou minha orelha?
Del (Candy): Por que você está segurando a minha mão?
Neal: Ué, onde está sua outra mão?
Del: Entre dois travesseiros...
Neal: NÃO SÃO TRAVESSEIROS!!!

Eles se levantam e começam a discutir resultados de...futebol! Um diálogo 100% John Hugues!
São legados inesquecíveis. Por mais que a história do cinema seja um registro em domínio de pessoas que não admitam tais tributos, milhões e milhões terão sempre cenas inesquecíveis proporcionadas por Hughes em “Curtindo a vida adoidado”. Ver, por exemplo, o Charlie Sheen fazendo uma ponta, contracenando com a Jenniffer Grey, não tem preço. Sheen é um cara preso na delegacia onde Grey, irmã de Ferris, tenta saber do paradeiro da “turma que apronta mil e uma confusões”.
Sheen: - Drogas?
Grey: - Não, obrigado, sou careta.
Sheen: - Não, eu quis dizer, “você está aqui por causa de drogas”?
Grey: - Você está aqui por quê?
Sheen: - Drogas.

Hughes, é certo, não entrará em nenhum panteão dos grandes cineastas. Mas tem lugar garantido como ídolo de pelo menos duas gerações da era da TV e do VHS. Que descanse em paz!

por Gustavo de Almeida as 18:52:36

17.05.09

Vila Cruzeiro, a favela carioca que está conquistando o mundo

O dia está ensolarado em Botafogo, Zona Sul do Rio, no Bar Plebeu. Diogo Nascimento, ator nas horas vagas e construtor de estantes para sobreviver, bebe uma soda limonada. Respira. Tenta sorrir por causa da sensação boa, mas as lembranças não deixam. A jornalista holandesa Patrícia Maresch, diretora do documentário "Cruzeiro", parece perceber o desconforto. Sorri para Diogo. A mesa fica mais à vontade, e Diogo desabafa:

- Aqui na Zona Sul, até o ar é melhor.

Ator que cursa nada menos que três escolas de dramaturgia ao mesmo tempo, Diogo não gosta de falar mal da Vila Cruzeiro. A ele já basta ter de esconder dos outros cariocas que mora em uma determinada vila onde, desde o dia 2 de maio de 2007, as operações policiais foram diárias, com mais de uma centena de mortos e mais de duas centenas de feridos.

- Quem vai procurar emprego tem que escrever na ficha: "Olaria. Se escrever Vila Cruzeiro, já era. O patrão diz que o cara vai atrasar ou faltar por causa das guerras.

A frase bem que poderia estar no média-metragem (60 minutos) "Cruzeiro", resultado do projeto Favela Documentary, criado pela jornalista holandesa Patrícia Maresch. Em julho do ano passado, a Vila Cruzeiro teve seu dia de Cinema Paradiso. A exemplo do que acontece no filme de Giuseppe Tornatore, onde um vilarejo italiano vê filmes projetados em prédios no meio da praça, a favela se viu nas histórias de Diogo, Mayra Avellar, Eduardo Queiroz e Luiz Senuin, os quatro jovens que sonham com um futuro em que terão orgulho de suas próprias origens. A projeção aconteceu no campinho de futebol onde se criou o craque Adriano, hoje no Flamengo.

A favela é um fenômeno social-geográfico que tomou o Rio. A origem parece óbvia: os trabalhadores da indústria iam se acumulando perto de onde as mesmas funcionavam. Na Zona Sul não havia preços bons para quem pegava na enxada. Quando foi necessário pegar em enxada na Zona Sul, começaram a tomar algumas áreas e, pronto, o Rio virou uma favela com um pouco de cidade no meio.

Só há duas soluções a escolher, antes que a favela derrube a cidade e o caos prevaleça: a solução final, com o extermínio de todos os moradores e o início do IV Reich ou a solução pensada, com ações de segurança pública e queda dos muros que já existem entre o morro e o asfalto. Muros, inclusive, na mídia, que só vê notícia na favela quando nela há sangue. E, claro, pensar na remoção de algumas, sim, na integração dos moradores ao espaço legalizado.

“Cruzeiro” é a prova de que a queda do muro torna a coisa possível. E o muro tem de cair para os dois lados: o morador de favela tem que deixar o asfalto entrar, junto com o Estado, a polícia, a ordem urbana – o morador de favela não pode mais ter a irresponsabilidade de acreditar que o tráfico é sua emancipação. E nem acreditar que os traficantes sejam uma espécie de inevitável forma de reação à exclusão, uma guerrilha narco-marxista em defesa dos pobres. Esta é uma grande mentira.

Por outro lado, o asfalto deve deixar o favelado “descer”. Parar de excluir, de segregar, de ter medo. E deixar o favelado “descer” sem drogas. E, principalmente, sem armas. Tal e qual os quatro jovens da Vila Cruzeiro “descem” na produção da jornalita holandesa.

Esta é a história de “Cruzeiro”, um filme com quatro jovens que querem apenas ser quatro brasileiros, normais, sem tráfico e sem muros. Mas a história foi pouco contada.

Não houve sequer um órgão de imprensa que se interessasse pela história. Ofereci a matéria como frilance, ano passado a uma revista sediada em São Paulo, mas foi recusada com o argumento de que havia saído em O Dia. De fato: havia saído meia página no primeiro clichê de um domingo. E foi derrubada no segundo clichê.

Mayra recebe o prêmio das mãos do bispo sul-africano Desmond Tutu. Abaixo, a notícia na TV Holandesa

Tutu e a Vila Cruzeiro - Em dezembro, a coisa ficou mais séria: Mayra Avellar recebeu das mão do bispo sul-africano Desmond Tutu (em pessoa, como podem ver na foto abaixo) o prêmio Internacional Crianças da Paz, uma honraria que existe desde 2005 e que é concedida por uma comissão de vencedores do Prêmio Nobel. Houve um prêmio em dinheiro, mas nada que chegasse perto do Um Milhão do Big Brother Brasil – e, claro, nem um décimo da notoriedade que um sujeito ganha ao passar 60 dias sem trabalhar numa mansão com piscina. Mayra é só uma moradora de favela. Do mesmo jeito que não houve um só órgão de imprensa que deixasse de publicar a vitória dos BBBs, nenhum órgão de mídia veiculou a singular vitória de Mayra: sair de uma favela como a Vila Cruzeiro para receber um prêmio das mãos de uma personalidade internacional que é verbete na história da humanidade.

Patricia Maresch – filha de indonésios – soube da existência da Vila Cruzeiro em junho de 2002, quando o jornalista Tim Lopes foi torturado e assassinado ao tentar fazer reportagem com câmera oculta sobre as relações do tráfico de drogas com o funk. Na época, ela era editora de Notícias Internacionais do Jornal Nacional da Holanda, e se espantou muito com o fato. Os anos se passaram e, em fevereiro de 2007, pisou na Vila Cruzeiro tão famosa pela primeira vez. Se lembra até hoje da visão cativante do costado da igreja – no caso, a Igreja da Penha, um dos poucos cartões-postais famosos da Zona Norte de uma cidade que, para os turistas, só mostra o pedaço maquiado da Glória ao Leblon.

flycruz01

Patricia e os meninos do cast: volta ao mundo mostrando a Vila

- Nunca esqueço da igreja, da paz que senti ao entrar na favela, do jeito carinhoso com que fui recebida. Me lembro que passei alguns dias estranhando que não havia quase órgãos públicos e as coisas boas da favela, como os artistas, não eram retratadas por jornalistas. Nunca falei com um jornalista na favela. Só os vejo quando a polícia está junto. E quando a polícia está junto, a favela fica deserta. A Vila Cruzeiro que os jornalistas do Rio conhecem é deserta e tem medo – conta Patrícia, citando na verdade o trauma que a morte de Tim Lopes causou na imprensa de um modo geral. Mas, para ela, o deserto tem outro motivo, o mesmo que, aliás, causava diversas interrupções nas filmagens.

- O Caveirão (carro blindado da Polícia do Rio, que protege os policiais das balas dos traficantes) faz a favela parar. Quando entra, é um deserto só, não funciona Kombi, não passa ônibus, ninguém fica na rua.

O medo do caveirão

Ao longo de toda a ocupação da polícia, os moradores criaram códigos de sobrevivência. Telefones celulares eram constantemente usados. Patrícia, que mora provisoriamente em Botafogo, também adotou o hábito de telefonar para alguém da favela antes de ir para as filmagens.

- Se tem tiroteio, não dá nem para entrar. Uma vez lá dentro, se estivermos dentro do Espaço Ibiss, até podemos continuar. Mas não dá para ficar relaxado e gravar normalmente – diz a holandesa. O Ibiss é um espaço mantido pela ONG de mesmo nome. No ano passado, o governo do Rio destinou cerca de R$ 800 mil para a Ibiss desenvolver atividades culturais, esportivas e assistencialistas na Vila Cruzeiro. Os moradores se acostumaram a conviver com dentistas e animadores culturais conterrâneos de Patrícia.

- Estes profissionais são totalmente respeitados pelos traficantes. Ninguém os incomoda – assinala a jornalista. – Mas quando entram os caveirões, tudo pára. Sei que o carro blindado é para proteção dos policiais. Só que "proteção" é tudo o que falta para nós, que estamos do lado de fora – conta Patrícia, com a concordância de Diogo.
Patrícia, claro, não sabe das estatísticas. Não sabe que a morte de policiais durante operações passou a ser perto de zero quando há a presença do blindado. Se o blindado é usado de forma ruim, consertemos a forma ruim – mas nada de eliminar o blindado.

Nem a Globo ficou

A ausência do mundo exterior não acontece só na forma do poder público e dos jornalistas. Se não fosse o Ibiss, nada haveria de contrapartida.

- O Ibiss é onde ficava o Criança Esperança. Depois da morte do Tim, o projeto foi embora e o espaço ficou desativado – conta Diogo. Na festa de dois anos do Ibiss, ocorrida em outubro do ano passado, o rapaz, de câmera nas mãos, teve de ouvir de alguns moradores que não o conheciam:

- É para a Globo essa filmagem?

flyercruz
Caveirão fotografado pelos meninos na favela Vila Cruzeiro

Durante dois meses as filmagens dividiram espaço com a ocupação que a Secretaria de Segurança Pública do Rio manteve na favela, iniciada depois que dois PMs foram mortos no bairro de Oswaldo Cruz. O local da morte dos PMs era o mesmo no qual o menino João Hélio Fernandes Vieites, de seis anos, começou a ser arrastado até a morte por seis bandidos que roubaram o carro de sua mãe. A repercussão da morte dos PMs Marco Antonio Ribeiro e Marcos André Lopes ­– ambos soldados – foi grande e logo se concluiu que os matadores eram da Vila Cruzeiro. Em 40 dias de ocupação, já havia 17 mortos e 65 feridos. Aulas foram interrompidas e comerciantes fechavam as lojas mais cedo várias vezes por semana. Ou nem abriam.

O que assustava Patrícia era o que acontecia no restante da cidade.

- As filmagens aconteciam sob tensão. Muitas vezes acabavam porque uma pessoa da comunidade tinha sido baleada, alguém conhecido era parente, todos iam para o hospital. Eu via lágrimas, desespero, medo. Aí, voltava para Botafogo e me via em uma parte da cidade que ignorava completamente o que estava acontecendo. Parecia que não havia alguém à beira da morte em um hospital.

Pelos rádios comunicadores, os traficantes passavam informes entre si, estabelecendo o valor de R$ 2 mil pela vida de um policial.


A recusa ao fuzil

Por sorte, a vida de Eduardo Queiroz, um dos quatro jovens do filme, já havia mudado. E no ano anterior. Ex-traficante, andava com um fuzil nas mãos desde criança. Aos 19 anos, com dois filhos, procurou uma igreja evangélica e também o Ibiss. Pediu ajuda, largou o tráfico com um objetivo em mente: poder ver os filhos um pouco maiores. Muito recluso, ele não dá entrevistas sobre sua situação. Até porque as lideranças do tráfico e as próprias facções mudavam, e Eduardo permanecia no tráfico. O que o tirou foi a mesma perspectiva que move também Diogo:

- Tenho uma filha de cinco anos. Mora com a mãe na Chatuba. Ajudo com mais do que a Justiça me obrigaria a pagar. Para isso tenho que trabalhar 12 horas por dia, montando e desmontando estantes. Mas o que eu gosto mesmo é a arte, o teatro. E sei que não dá para viver disso, pelo menos por enquanto.

flycruz02
Diogo ajuda a manejar a câmera: jovem da Vila Cruzeiro estuda em três cursos diferentes

“Tem banheiro lá?”
No fim do ano passado, Diogo e Mayra foram à Holanda com Patrícia e mais 13 jovens do grupo F.A.V.E.L.A. Lá, apresentaram a peça Favela Força, que até hoje busca patrocínio para se apresentar no Brasil. Os atores e diretores tentam um horário no Teatro João Caetano, de administração do município. Mas na Holanda, os aplausos foram incontáveis, apesar de algumas situações inusitadas.

- O nome do grupo na verdade era Não Sou Maluco. Mas lá aconselharam que fosse mudado, já que nós holandeses temos dificuldades em pronunciar "Não sou maluco" – explica Patrícia.

- O mais engraçado foi a pergunta feita por uma diretora de teatro na Bélgica: "Lá tem banheiro?" – diverte-se Diogo.

Em abril de 2008, nova ocupação de duas semanas na favela, 18 pessoas são mortas, a bandeira do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite da PM do Rio, é hasteada na comunidade. Um símbolo do Estado – ou, pelo menos, da forma com que ele entra na favela. A esta altura, o filme estava em sua fase de montagem e edição. Os meninos tiveram de sair da favela e participar da montagem na casa de Patrícia, em Botafogo – ou seja, no outro Rio de Janeiro. Na verdade, no Rio que mais aparece ao longo de uma hora - apesar de cenas chocantes como o muro com a inscrição "Morador: se tiver guerra, não saia de casa, assinado CV" e o susto filmado sem querer no momento de um tiro.

- Quis que os meninos aparecessem em suas vidas normais, mesmo que houvesse cenas com medo e tensão. É preciso que os que moram fora acompanhem a vida deles e notem que eles tentam viver de forma honesta, vencer de forma honesta – diz Patrícia.

Nessa época, já estava com eles o documentarista Gustavo Gelmini, que co-produziu recentemente o americano They Killed Sister Dorothy, do diretor Daniel Junge, vencedor do Festival South by Southwest. O filme é sobre a morte da freira Dorothy Stang e tem narração de Martin Sheen. Este ano, Cruzeiro já participou de um festival de documentários em Londres e de outro no Qatar – este, o 5º Festival Internacional de Documentários da Rede Al-Jazeera. O sucesso foi muito grande e provavelmente “Cruzeiro” vai passar em todo o mundo árabe. Além disso, a grande e boa novidade é que Mayra, depois de receber o prêmio de Tutu, começou a fazer flashes para a BBC de Londres sobre a convivência de crianças em meio a tiroteios entre traficantes armados e policiais.
Daí para a frente, quais seriam os planos, para quem já deu a volta ao mundo? Voltar para a Holanda?

- Não me pergunte –diz, sorrindo, "Pat, a mais carioca das holandesas", como está em sua comunidade no Orkut, criada por Mayra, que ainda criou a comunidade do filme.

O trailer de "Cruzeiro" já está no YouTube - posto dois deles acima - e pode ser visto com as palavras-chave "Documentary Vila Cruzeiro Teaser Espaço IBISS Favela". Contatos com a equipe podem ser feitos no site do filme: http://www.faveladocumentary.com/

por Gustavo de Almeida as 18:56:25

:: Próxima página >>







[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]