Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









22.12.09

Voltar a dormir


"I will destroy Dantooine"

Sono REM, sono profundo, sono reparador, sono equilibrador. Tudo isso de volta por causa de uma máscara esquisita que sopra ar no nariz e na boca da gente. Mas, sério, é difícil expressar com palavras o quanto essa maquininha muda a vida da gente. Só quem usa o CPAP para dormir pode entender. A diferença é absurda.
Acabou o sono devastador no fim de tarde. Acabou o negócio de adormecer de repente, vendo um filme, tombando para a frente (no cinema isso pode ser complicado). Acabou a falta de disposição para o trabalho e para - argh - exercícios. O mundo volta até a ser um lugar razoável para se viver.
Valeu muito a pena, a paciência que a gente emprega - afinal, é um vai-e-vem danado: ida ao pneumologista, depois polissonografia, volta ao pneumologista, depois faz titulação do CPAP, volta pela terceira vez ao pneumo que faz o pedido do CPAP oficialmente.
Aí, é buscar três orçamentos (no GOOGLE tem, e aqui neste post aposto como vai aparecer) com empresas diferentes que vendem, levar ao plano de saúde, aprovar, fazer o pedido (onde comprei levou um dia para chegar, ótimo), ir ao pneumo pela quarta vez, fazer os últimos ajustes e, finalmente, dormir. Dormir como há anos eu não fazia.
Completei hoje uma semana de CPAP. A sensação é de rejuvenescimento.

Claro, no meu caso tem uns percalços - todo dia antes de dormir tenho que falar para a Marcele: "Luke, i am your father", para ela se esborrachar de rir...

por Gustavo de Almeida as 10:42:12

14.12.09

R.E.M. está de volta ou Reaprendendo a dormir

Eu ainda nem sabia o que era “ponta firme” ou “tirolês” (ambas expressões do jogo de dominó) e o poeta, dramaturgo, roteirista, escritor, publicitário e marqueteiro Igor Cascalho Ventura já decretava, naquele longínquo 1990, com todo sotaque de paulista e recém-campeão brasileiro:
- Meu, você não sabe dormir.
Acreditem, é possível não saber dormir. E não estou nem falando do meu problema de saúde atual, que envolve ronco e apneia. Não saber dormir – acho que depois de anos aprendi – é quando o cara se posiciona mal, não cuida do ambiente antes da dormida, permite que um telefone sem fio fiquei deitado discretamente ao lado do travesseiro, ou esquece de programar o timer da TV. Sem contar as persianas apenas meio abaixadas.


CPAP, o mais novo "melhor amigo" do Gustavo e da Marcele

Quando o cara é displicente com o sono, acorda à toa, não cuida de manter o ambiente escuro, frio e silencioso, podemos dizer que o caboclo não sabe dormir e nem faz muita questão de aprender. Dormir é, mais que uma necessidade, quase uma arte. Quem dorme bem, faz todo o resto muito bem. Quem dorme mal, acorda descompensado, tudo torto, não consegue medir força, não se equilibra. Mesmo a ressaca da birita é mais aguda no sujeito que dormiu mal.


A máscara que me dará dormindo o mesmo charme que Darth Vader

Outra figura lendária, o imortal Engenheiro Cobra (tão mítico quanto Cascalho Ventura), sempre alertava durante os porres:
- Duas aspirinas antes de dormir, para baixar a pressão e o sono durar mais. Muita água. E sono. Dorme, dorme muito. É zero ressaca.
Todas as vezes em que dormi pelo menos 10 horas depois de um porre, acordei inteiro e pronto para outras garrafas.
Mas, enfim, um dia, há quase dois anos, chegou o desafio. Quando exatamente chegou, eu não sei, sei que tem a ver com a indecente barriga que formei depois de casado – e que preciso combater urgentemente. Comecei a ter apneia do sono.
Eu, que nunca havia roncado – muito pelo contrário – passei a ter um ronco de urso. Com a diferença que pelo menos o urso hiberna e dorme bem. Nós que temos problemas de ronco e apneia, não dormimos. Não atingimos o sono REM, onde o corpo pára e começa a fabricar diversos hormônios que inclusive auxiliam no emagrecimento.
Há quase dois anos não durmo um sono sequer com sono REM. Minha memória ficou ligeiramente afetada, e todos os dias, em horários diversos da tarde e início da noite, tenho um sono praticamente irresistível. Chego a roncar em cinema, durante o filme. Coisa que nunca fiz.
O pior é que o gordo pensa que ronca porque é gordo. Sim, é verdade: a faringe também engorda, o ar demora a passar, e quando passa faz barulho. A novidade é que o gordo ronca porque é gordo e também é gordo porque ronca. Se não roncar, o gordo tem mais chances de emagrecer. Primeiro, porque a disposição para os exercícios aumenta. Depois, porque vários hormônios voltam a ser fabricados.
Mas graças a este aparelho que vocês estão vendo aí nas fotos, nesta segunda-feira, 14 de dezembro, terei a primeira de muitas noites restabelecedoras. Trata-se do CPAP, o mais eficiente combate ao ronco e à apneia que existe. Para se ter uma ideia, em polissonografia recente registrei umas 80 apneias por hora. Com o CPAP ligado na clínica, foi ZERO apneia.
Passei quase que o ano inteiro me enrolando com médicos e clínicas. Só acabou a via-crucis quando achei uma clínica chamada AIR, no Centro Médico do Barra Shopping (NÃO É POST PAGO, ESTOU APENAS DANDO DICA, DE GRAÇA, DE UM ATENDIMENTO QUE FOI LEGAL, OK?). A AIR tem parceria com uma outra clínica chamada SLEEP, que é a que faz os exames.
Pela segunda vez então dormi numa clínica para fazer uma polissonografia. Estresse zero. Geralmente quem te atende já fez aquilo mil vezes, pendura os eletrodos em você em cinco minutos e um abraço. Você fica lá com o controle remoto na mão, vendo TV, e ajusta o timer da mesma.

Demora um pouco para dormir com eletrodos na cabeça, no peito, na cintura, além de dois sensores no nariz e um clipe beliscando o dedo mindinho da mão. Mas se dorme.
Com este resultado – que é ASSUSTADOR – a gente vai ao médico, que vai decidir qual melhor opção. O meu médico decidiu que meu caso era extremo e necessitava do uso da máscara com CPAP. Marquei outro exame, desta vez chamado de “titulação do CPAP”. Ali tive a melhor noite da minha vida em uns cinco anos. Dormi profundamente com o CPAP.
Em mais duas semanas e o médico me deu todas as coordenadas. Fiz então o contato com o plano de saúde, contactei três vendedores para obter orçamento, e já vou dar entrada no reembolso (são mais de R$ 3 mil).

E hoje, dia 14, finalmente vou dormir a sério. Como nos velhos tempos, meu amigo Cascalho.

por Gustavo de Almeida as 19:50:36

13.12.09

O sorriso podre do velho Dalborga

Me telefona o Bernardo Mello Franco, jornalista (se o cara não tivesse um sobrenome tão foda quanto esse, juro que só falaria “Bernardo, amigo meu”), no meio da semana, ao celular. Não me lembro onde eu estava nem o que eu fazia, mas estava meio ocupado, de modo que eu não pude falar direito. Mas sabia para que ele tinha ligado: a morte do alucinado Luis Carlos Alborghetti.
- E aí, tá de luto?
- Não chego a tanto, mas sem dúvida o homem deixa uma lacuna difícil de preencher – respondi.
O Dalborga era realmente uma espécie de “assassino do McDonald's” da televisão brasileira. Todas as doenças e paranóias e neuroses da mídia pareciam ter sido misturadas, e dessa mistura nasceu a engraçadíssima matéria-prima do Alborghetti.

Me lembro de quando vi pela primeira vez. Ano de 1990, o canal 9 do Rio (ainda não havia TV a cabo) era explorado pela Rede OM (Organizações Martinez). O canal chegava naquele ano, por coincidência o primeiro ano de Collor na presidência, grande aliado do falecido deputado José Carlos Martinez. Reza a lenda que a Rede OM seria o tal canal que Collor e Martinez usariam para “enfrentar a Globo” e que, por causa disso, a Vênus Platinada fez toda a campanha do impeachment – inclusive colocando pilha na juventude através da série Anos Rebeldes. Eu acho que é lenda – do jeito que era a Rede OM, levaria uns 200 anos para deixar de ser traço e conseguir chegar perto da audiência do Telecurso 2º Grau.
Para se ter uma idéia, havia um filme reincidente na OM cujo nome não lembro se era realmente “A Alcova”. Algo assim. Em dado momento, havia uma cena em que simplesmente, do nada – o filme não era pornô e não parecia ser até então – um sujeito de uns 50 anos tirava para fora um bilau gigantesco e enfiava nas partes de uma mulher meio aprisionada. A cena era chocante porque passava tipo 22h, 22h30. Mas não causou a menor celeuma: ninguém via.
Claro, EU via. Já tinha uma mania de rir do humor involuntário. E nisso a Rede OM era insuperável.

Pois um dia me liga um amigo da faculdade:
- Liga na OM, agora, já, rápido!
- Calma, calma....o que que há?...
- Liga agora, porra!
Liguei e dei de cara com um CLOSE no rosto do Alborghetti. Suado. Aos berros contra alguma coisa. A câmera ia se afastando lentamente, revelando uma toalhinha em volta do pescoço dele. Em segundos notei que os dentes eram tortos e meio podres. O óculos, enferrujado. O fundo do cenário era uma espécie de chroma-key, daqueles que Hitchcok usou em Vertigo e se arrependeu. Fantástico.
Fiquei assistindo, totalmente entretido. Os patrocinadores eram um plus a mais: ALIMENTOS ZAELI, FRIGORÍFICO ALVORADA, KURTEN MADEIRAS e SALIMETIN eram da primeira leva. E sempre com o Bamerindus por fora, já que o Martinez era colado nos donos paranaenses do hoje extinto banco. A chamada que Alborghetti fazia dos produtos era sensacional:
Olha aqui, minha mãe branca, minha mãe negra, quando a senhora for ao supermercado, peça ALIMENTOS ZAELI. Se disserem que não tem, a senhora chama o Alborga, que ele vai lá QUEBRAR O RABO desses supermercados picaretas.

Mas a do Bamerindus era inigualável, um case de marketing difícil de classificar:

- BAMERINDUS, O BANCO DA FAMÍLIA BRASILEIRA DO ESTADO DO PARANÁ! QUER IR, VAI. NÃO QUER IR, NÃO VAI, NÃO ME ENCHE A PORRA DO SACO

Alborghetti sabia vender seus produtos. Posteriormente, o Cadeia foi tendo outros patrocinadores, como o Chá Mate Real. E a lenda de Dalborga e do repórter Augusto Canário – um sujeito que era mistura de papai Smurf com colono de rótulo de aguardente – ia crescendo. Uma delas, testemunhada por um casal de amigos, dava conta de que Dalborga tinha contado 77 facadas. De 1 a 77 no vídeo, fazendo o gesto da facada. Em TV, quase cinco minutos contando.

- Eu tirei do canal, vi parte de outro programa, quando voltei ele estava lá ainda, contando – me disse a amiga do casal.

Frases como “Vou sapatear no caixão do Comando Vermelho” ou “Vai mijar pelo dedão do pé” eram frequentes, acompanhadas de coreografias e closes surpreendentes. Dalborga sabia que a visão dele era aviltante, e de certa forma usava o próprio corpo para reagir aos horrores que as reportagens traziam. E tome cacetada na mesa. E tome gestos indecorosos, e principalmente o primeiro bordão, ainda naqueles primeiros dias de Cadeia Nacional:
- Senta aqui no buraco da mamãe!
Vá saber o que significa isso. E eram sensacionais as duas principais estatísticas apresentadas por Alborghetti. Primeiro, a de que ele era o "deputado estadual mais votado da história do Paraná" (já não era). E depois, a mais divertida, era quando ele se referia a Londrina.
- A SEGUNDA MAIOR CIDADE DO SUL DO PAÍS!
E ficávamos pensando: bom, o programa é de Curitiba, significa que na visão dele Curitiba então é maior que Porto Alegre. E pior: Londrina é a segunda, logo, LONDRINA É MAIOR QUE PORTO ALEGRE...
Dalborga, enfim, se foi. Vai fazer falta por ser a representação carnal, viva e abjeta daquele demônio que há em cada um de nós, aquele cara que se revolta com determinado crime a tal ponto de achar que o negócio é “passar o rodo” no bandido. O Dalborga era uma forma da gente entender que se pode “sentir”, sim, estas vontades. Mas também servia para lembrar que, se transferirmos tais reações instintivas e legítimas da natureza humana para o velho e bom estado de direito, o resultado é algo tão pavoroso quanto o sorriso do Dalborga.
Que descanse em paz, o velho Dalborga.

por Gustavo de Almeida as 23:37:12

13.11.09

Um filme de geração

Quando começaram a subir os créditos de “500 Days of Summer” eu comentei com a Marcele: “Este é um filme de geração”. Não um filme “para homem” ou um filme “mulherzinha”. Nada disso. Bobagem. É um filme de geração. O filme de quem está entre os 25 e 30 anos, filme de quem está para se resolver, se apaixonar, decidir o rumo a ser tomado na vida. Filme de quem se sente excluído, filme de quem tem medo. “500 Days of Summer” além de tudo é um saboroso trocadilho, uma alusão aos verões de nossas vidas, aos amores passageiros de verão, ou mais precisamente “de veraneio”. E mais: “500 Days of Summer” é o melhor filme sobre rejeição no estilo “Te vejo como amigo” desde as teses rancorosas de Billy Cristal em “When Harry met Sally”. Para uma geração que sofre com rejeição, solidão e amores platônicos, “500 Days of Summer” é um filme tão fundamental quanto “High Fidelity” e sua coleção de fracassos retumbantes.

Summer irrita, a nós, homens. Tem todas aquelas “coisas de mulher”. Os diálogos enigmáticos, as falas incompreensíveis e aquela irritante mania feminina de achar que, bem, você não é o homem da vida delas porque você não entendeu aquela frase sobre Woody Allen ou David Bowie. “Bowie tem uma aspereza continental, me leva a pensar no inverno e suas folhas cinzentas”, diz sua amada. Você faz apenas cara de “hã”?, e, pronto, tem uma crise.

Pausa para advertência: esta minha referência só vale para mim até o dia 29 de julho de 2002, depois, nunca mais aconteceu isso.

Voltando a “500 Days of Summer”, uma das cenas mais sensacionais se desenvolve quando Tom Hansen, vivido pelo Joseph Gordon-Levitt, tem a esperança de voltar para Summer porque ela o chamou para “uma pequena reunião festiva”. A tela se divide em dois: a Realidade e a Fantasia. Na Fantasia, a casa está vazia, só os dois se beijam. Na realidade, existe uma reunião, mesmo, acontecendo. E Summer está com alguém.
Tom Hansen faz uma expressão de derrota que eu só tinha visto mesmo em Woody Allen, o ator, em “Crimes and misdemeanors” (Crimes e Pecados), quando ele vê a mulher que ama nos braços de um completo débil mental. Mas ali ele entende que amor é uma mistura caótica de sonhos e hormônios. A derrota, a derrota. É a expressão de Obelix ao ver Falbalá se encontrando com Tragicomix, ele, gordo, enorme, ela, linda de morrer, ele, Tragicomix, um semideus apolíneo. O casal “perfeito”. O gordo excluído.

“500 Days of Summer” nos leva a pensar se, sim, se as meninas feias e gordinhas sofrem tanto quanto os meninos feios e gordinhos. Bom, me refiro aos que sofrem – há meninos e meninas feios e gordinhos que não estão nem aí. Eu mesmo sou feio e gordinho mas sempre soube me virar. Até 29 de julho de 2002, depois não precisei me virar mais. Sofri? Claro que sim. E nem era gordinho. O pior: Tom Hansen nem é um cara tão feio assim. Mas é meio nerd. Tem amigos esquisitos. É introvertido, tímido e perdedor – um arquiteto que saiu da linha para trabalhar escrevendo cartões de felicitações. Em uma sequencia ótima, é incumbido de fazer cartões fúnebres.

“500 Days of Summer” é sobre a derrota, sim. Sobre a derrota necessária, aquela que nos forma o caráter, que nos faz aprender todas as lições que deveriam vir nos livros de Moral e Cívica na década de 1970: ser atencioso, sem ser subserviente; ser carinhoso, sem ser meloso; ser cool, sem ser excessivamente hype; e acreditar que após cada derrota o que importa é pegar a bola no fundo da rede e correr para colocar no meio-campo.

“500 Days of Summer” é daqueles filmes fundamentais para apagar a memória das derrotas. Com “500 Days of Summer” a gente passa a entender que todo mundo perde. Everybody hurts. Pena que não tem essa música na excelente trilha sonora - que inclui uma versão ótima de "Here comes your man", dos Pixies. Por sorte, não é a versão cantada por Tom Hansen, bêbado, num karaokê.
“500 Days of Summer” é o filme da geração da Marcele. É uma pena que não é da minha. Que derrota.

por Gustavo de Almeida as 12:14:17

30.10.09

Quatro dias para sair do ar

A resposta já está assinalada, mas se quiser você pode ir treinando. Teve gente que respondeu errado e se deu muito mal. De qualquer maneira, é dica de um bom filme para se ver nessa folga boa.

marcelluswallace

Um bom feriado para todos. De muito pensamento positivo. A gente volta na terça-feira direto para o Belmonte do Jardim Botânico (ver post abaixo).

por Gustavo de Almeida as 01:50:54

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