Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









14.02.11

Música e a grande arte do encontro

Demoramos uns dois minutos para encontrar a mesa 76 no Teatro Rival, onde íamos ver o show do Guinga e da Mônica Salmaso, com várias participações do excepcional violonista Lula Galvão. As mesas, como se sabe, têm quatro lugares. E como eu e Marcele compramos só dois – compramos meio de súbito pela internet, não deu nem para começar a sondar mais companhia para fechar uma mesa de quatro pessoas – sabíamos que haveria dois lugares com pessoas que a gente não conhece. Normal. Parte do jogo.

Fotocelular(1024)
Eduardo Lima com o mestre Guinga nos bastidores do Teatro Rival

Quando a gente encontra finalmente a mesa, estava lá um rapaz que parecia ter uns 16 anos – descobrimos que eram 20 anos, na verdade – magro, muito branco, entretido com uma câmera digital e um telefone celular. Ele levantou os olhos para nos ver, a gente fez um gesto apenas visual de “dá licença”, nos sentamos, e, para quebrar o gelo, eu comentei com a Marcele e virando para ele:
- A mesa é apertada, né?
Sim, a mesa é meio apertada, mas é tranquila de se sentar e apreciar o show. E foi sobre este assunto que, uns cinco minutos depois, o rapaz se identificou, depois de levantar o olhar de um dos seus gadgets. Quer dizer, ele se identificou não ainda pelo nome, mas pelo que ele pensava daquele momento. De certa forma, o que ele pensava daquele momento dizia muito mais sobre ele do que seu nome ou qualquer outra informação possível.
- Este show vai ser demais, né? Só gênio.
Vi logo que o rapaz não era do Rio. “Gênio”? É muito singelo, reconheço. Mas ao mesmo tempo, é definidor e apaixonado. E exato – Salmaso e Guinga são geniais mesmo, e ao fim do show eu pude constatar isso. Ele continuou falando, até que soltou:
O Guinga é meu professor. Venho para o Rio uma vez por mês ter aula com ele.
Como estávamos num show musical ficou claro para mim e para a Marcele que a aula em questão era de violão, e não de extração de molares (Guinga é dentista). O quarto ocupante da mesa chegou um minuto depois disso, um homem de cabeça raspada que devia ter a minha idade mais ou menos, óculos e com pinta de músico também. E era. Marcele tomou a iniciativa de pedir que todos se apresentassem, disse nossos nomes, e eles disseram. Édson, o quarto ocupante, e Eduardo, o rapaz que é aluno do Guinga.. Édson ainda nos divertiu ao dizer que, quando comprou o lugar na mesa, não haviam vendido nenhuma vaga ainda, portanto, ele na verdade é o primeiro integrante e nós éramos seus convidados.
Completos desconhecidos, todos. E no entanto a conversa fluía de forma impressionante. Falamos de música brasileira, de música negra, de rock and roll, mas, acima de tudo, o que me chamou a atenção foi a história de Carlos Eduardo Lima, um dos grandes violonistas do Brasil, que aos 20 anos estava ali na minha frente bebendo uma coca-cola em lata e mexendo em uma câmera digital, ansioso pelo início do show.
Eduardo conheceu Guinga durante um festival de música em Itajubá, sul de Minas Gerais. Contou Eduardo que, na ocasião, chegou de mansinho, sem botar banca para ninguém, e numa espécie de workshop/show do Guinga, viu um outro violonista também jovem subir ao palco e dar início aos trabalhos com a música “Lamento do Morro”, de Garoto.
Neste momento, Eduardo se emociona só ao mencionar a música, mexe os braços, gesticula, usa exclamações em profusão. Ama a música de Garoto como poucos. E relembra o sentimento de humildade que teve.
-Eu via aquele cara tocando e pensava, 'não, tou em outra, não tenho como tocar violão, não alcanço aquele cara'. Era bonito demais,
Até que, contou ele, encontrou com o Guinga em outro evento. Teve a oportunidade de contar para ele o que sentiu ouvindo “Lamento do morro” e, mais ainda, teve a oportunidade de tocar na frente de Guinga. Que ficou tão impressionado a ponto de convidá-lo para subir ao palco no dia seguinte.
- Para mim foi algo que não dá para descrever. Imagina, um ídolo seu te fazendo um convite desses.
Quem aguentou ler até aqui, é bom lembrar de novo: estamos falando de um sujeito de 20 anos que ouve Guinga, Garoto, Rafael Rabello, entre outras coisas. Voltemos ao texto.
Do episódio em Itajubá, começava a nascer essa amizade entre Guinga, de 61 anos, e Edu, então com 18, suponho. E Guinga se tornou o professor de Edu.
- É muito legal. Venho uma vez por mês, aprendo muito, mas muito mesmo, com o Guinga, e uso logo depois tocando na noite – conta ele.

SANTOANTONIO
Marcada no mapa a cidade de Santo Antonio do Pinhal, de onde Edu sai todo mês para vir ao Rio aprender violão

Eduardo sentiu uma apreensão enorme quando ouviu pelo alto-falante a frase “Fotografias só são permitidas com autorização expressa da produção”. É claro que ele não tinha autorização. Aliás, diga-se: Eduardo não era convidado do Guinga. Sequer avisou que ia aparecer. Ouviu apenas do mestre, dizendo meio assim distraidamente, que haveria o show com Monica Salmaso no Teatro Rival. Na verdade, Eduardo nem sequer havia comprado com antecedência.
- Cheguei aqui agora, comprei ingresso de estudante e me deram esta mesa – explicou.

Como ir ao show do professor e não poder registrar nem um momento? Pessoas nas outras mesas comentavam, “se não pode fotografar, filma”. Verdade. Filmar com a câmera não aciona o flash. Apesar disto, acho que foi possível para todos ter fotos do show. Diga-se de passagem que esta é uma regra meio anacrônica, não? “Ah, não queremos vocês fotografando porque não queremos que postem as fotos em suas redes sociais com 400 amigos cara, vai que eles se interessam pelo artista ou pelo teatro”.
Sim, eu entendo que deve ser por causa dos flashes. Mas, enfim, era só dizer que os flashes estão proibidos, não?
O show começou e Eduardo Lima parecia Gustavo de Almeida aos 12 anos em dia de gol do Zico. Só conseguia, ao fim das músicas, dizer “Que queisso!”, e aplaudir entusiasticamente. No fim, depois de diversas músicas fantásticas, fomos ao backstage. Eu dizendo, “Fala lá com ele”, quando Guinga apareceu. Havia várias pessoas, de mais idade, na frente, todas cumprimentando Guinga. Monica apareceu logo depois, muito simpática, fez fotos com Marcele – na verdade, “imagens”, eu apertei o botão errado. Mas nada de Edu se adiantar. Ficava ali, estático. Quando chegou a vez dele, o mestre o abraçou entusiasticamente. E falou da brancura do Edu, sempre brincando – como todo mundo sabe, Guinga é um cara muito engraçado. Falou sobre a praia que os dois foram na véspera, e disse que Eduardo havia queimado só as pernas. “Não me queima o filme, rapaz!”, brincou. Até que parou sério, no meio dos convidados, e disse, com muita atenção.
- Este rapaz aqui toca pra c(*).
Eu ainda tentei fazer uma foto do Eduardo ao lado do Guinga, e saiu essa que estou postando. Mas tá meio fraca. Quando perguntei para ele se não iria fazer alguma naquele momento, ele explicou que o Guinga estava atendendo muita gente e não queria atrapalhar. Mas sorriu e disse:
- Essa foto aí eu faço uma vez por mês.
No dia seguinte, Eduardo viajaria de volta a Santo Antônio do Pinhal, cidade do interior de São Paulo, perto de Campos do Jordão. Viajaria feliz, porque de quebra ainda fez uma foto ao lado de Mônica Salmaso, a quem admira. Fomos até o metrô, todos, e nos despedimos na estação Botafogo. Disse a ele que quando eu fosse em Campos do Jordão, iria querer ver um show dele. Aí ele me lembrou que tinha no YouTube uma música que ele fez pro Guinga. Postei o vídeo no meu perfil no Facebook, achei a música absolutamente maravilhosa, espetacular.
O que fez com que um cara do interior de São Paulo e um carioca da gema se encontrassem na vida e passassem a ter uma relação de mestre-aluno uma vez por mês? O que move uma pessoa a atravessar quatrocentos quilômetros uma vez por mês por causa de duas horas de aula de violão? O que fez com que Eduardo compusesse uma melodia tão espetacular para seu professor Guinga?

A resposta para todas essas perguntas, a gente sabe, é a música. Não tem MSN, Orkut, Blog ou Facebook. A música é a rede social mais perene, mais indestrutível. A história dos dois poderia ser um bom filme, um grande documentário sobre o poder da música, mas é apenas mais uma história real, que não lemos em jornais ou revistas, mas está aí.
Eduardo provavelmente vai ler isso aqui e concordar. E espero que ele guarde este texto aqui, pois acho que muita gente ainda vai escrever sobre Eduardo Lima, violonista e compositor. O Edu dos Pinhais. Boa sorte para ele e seu professor – os dois me ensinaram muito sobre a vida.

por Gustavo de Almeida as 02:19:34

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Carla Crespo
Url: http://www.agendashows.com/
Boa a história. Esse lance de não poder tirar fotos em certos locais acho bem sem graça. Há situações em que desejamos registrar os fatos para sempre. Não faz qualquer sentido proibir que se tirem fotos / filmar. Bjos! Carla.
01.03.11 @ 18:00
Nome: Rádio Motorola
Url: http://www.oluapmot.com.br
Parabéns
07.03.11 @ 16:06
"A música é a rede social mais perene, mais indestrutível." Belo texto, parabéns.
Aquele abraço!
12.03.11 @ 23:51
Eita, texto pra ler e reler! E reler de novo !

Agora o lance do flash, é porque quem nao se encomoda com o flash nos olhos que levante a mão.
22.03.11 @ 16:58
Nome: Dorly Neto
Url: http://www.dorlyneto.com
Acontecimento do acaso agora. Conheci esse menino num dos Corujões da Poesia em que frequentei, inclusive o filmei. Fiquei maravilhado com sua técnica e simplicidade. Melhor que isso foi saber de sua história, que até então me era desconhecida.

Um abraço e parabéns pelo perfil do rapaz!
27.03.11 @ 21:16
Nome: Erick Faria
Url:
Devo concordar, o texto esta bom demais, a história de inicio simplório e atípico inustada é muito boa. Já estive em Sto Antônio dos Pinhais mas infelizmente não tive a oportuniade de ver o Edu tocar. Juro que estou morrendo de vontande. Passo link do youtube (não tenho face).
Parabéns pelo blog.
24.06.11 @ 10:30
Nome: Alfredia Clute
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How do I get traffic to a blog on blogger?
24.09.11 @ 19:53
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02.10.11 @ 01:44
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02.10.11 @ 13:29
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Tirando a censura à fotografia, tudo perfeito!
31.10.11 @ 17:39
Nome: Maria José
Url: http://mixnoticias.com/
O poder da música é muito grande mesmo.
24.11.11 @ 18:15
Nome: Michelle
Url: http://www.mundoagora.com/
Concordo com a Maria José, realmente o poder da música é fantástico!!
28.11.11 @ 00:32
Nome: Maria Edjane
Url: http://www.sualista.com.br
Música é realmente algo que transforma a pessoa e enaltece a alma.
16.12.11 @ 15:11
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30.12.11 @ 15:03
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19.01.12 @ 19:46
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This is the penalise Música e a grande arte do encontro - Eclipse blog for anyone who wants to seek out out near this content. You observation so such its nigh wearying to fence with you (not that I really would want…HaHa). You definitely put a new reel on a subject thats been graphic virtually for eld. Metropolis clog, simply majuscule!
29.02.12 @ 02:29
Nome: Anderson Jr.
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É claro que vocês são tão idiotas, pequenos, medíocres, vagabundos , que não sabem mesmo nem aproveitar um espaço público para dizer alguma coisa que preste , na porra desta vida. Gente como vocês fazem da internet um cocô geral . Por que voc~e s não enfiam o seu site .....no Paraguai ?
06.03.12 @ 08:55
Nome: Maria José
Url: http://www.baixarmsn.com.br/
A única coisa ruim é a proibição em relação às fotos...
27.03.12 @ 12:39
Nome: Alcides Amaral
Url:
Um grande Garotoo !
18.04.12 @ 09:45
Nome: Marieli
Url:
“Tem gente que nasce poesia.”
19.04.12 @ 01:05

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