Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
Siga-nos no Twitter Gustavo de Almeida
Marcele Fernandes









8.12.10

Praia de Botafogo

Há 30 anos, eu pegava no canto de uma primeira página de O GLOBO a manchete “Ex-Beatle John Lennon é assassinado”. Quando penso nisto, sinto exatamente o peso deste tempo que passou. Vem aquela vertigem, “o horror de saber que a vida é verdadeira”, como escreveu Fernando Pessoa um dia. Trinta anos. E aqueles dias parecem ter sido vividos só em função disso.
Se há um fato que marcou a minha geração – até mesmo para mim, que sempre gostou mais individualmente de George & Paul – este fato é o atentado cometido pelo sr. Chapman. Não me interessa se você, como eu, não é tão fã da obra solo de Lennon; o que importa é o sentimento daquela época. Houve uma segunda Beatlemania, muito mais forte do que a Michaeljacksonmania ocorrida ano passado. Os sentimentos iam mudando, evoluindo, à medida que as milhões de fichas iam caindo. Primeiro, a constatação súbita de que os Beatles realmente estavam finados, soterrando aquela esperança surda de que um dia se juntassem.

BEATLES

Depois, a sensação de perda de Lennon em si. E em seguida a vertigem de naquele momento constatar que um dia nenhum Beatle caminhará mais sobre a Terra. Quando perdemos George, em 2006, me lembro de balbuciar algo sobre isso com minha prima, Mariana. Foi um estranho telefonema. Ambos sabíamos o que o outro queria dizer, mas quase não dissemos. As mensagens foram trocadas. Ambos sabíamos que, de certo modo, voltávamos a 1980. Naqueles dias quentes (nem tanto como hoje) de dezembro, a gente de férias, as famílias se encontrando. O pai da Mariana, meu tio, indo instalar uma aparelhagem de som “moderna” no carro, um velho Marajó branco. Baita som: cinco caixas de som e um toca-fitas.
E compramos a fita, dupla, Beatles 1967-1970.
Entramos, todos, no carro, Mariana com sete anos. E ouvimos “Back in USSR”, o avião soprando, a voz de Paul rasgando o ar, e talvez naquela mesma ocasião o pai da Mariana tenha dito que “Across the universe” significava, para ele, “Adeus ao nunca”. Do alto dos meus 12 anos, eu, de fato, estava “curtindo” a morte de Lennon. Conhecendo os Beatles, comentando, aproveitando todo o “mood”. Eu que até então havia me contentado com meu compacto “Strawberry Fields Forever/Penny Lane”, de 45 rotações, que eu me divertia ouvindo em 33 – “Leeeeeet meeeeee taaaaaake yooooou doooooownnnnnn”.

Dias e dias se passaram, a gente curtindo este luto. Mas era incrível a velocidade da notícia em 1980: o Globo publicou em segundo clichê, uma matéria bem menor, para só então, horas depois, o Jornal Nacional falar no assunto. Curiosamente, nos fez chorar colocando imagens de Lennon com “Yesterday” ao fundo – uma música cuja gravação só tem o autor, ou seja, Paul McCartney.
E me lembro de duas frases, cujos autores eu não tenho certeza. Diante da TV, alguém disse “Tanta gente ruim no mundo e matam esse cara”, durante “Yesterday”. E outra, dias depois, em frente ao Cine Opera, numa banca de jornais da Praia de Botafogo, “Não é todo dia que morre um Beatle”. Depois da frase, todos compramos revistas com biografia de Lennon. Estávamos na mais triste das Beatlemanias. Mas curiosamente, esta adversidade aproximou a gente dos Beatles e toda a gente de nós mesmos. Talvez os próprios Beatles entendessem isso, já que meses depois gravaram a lindíssima “All those years ago”, com um videoclipe absolutamente maravilhoso, e cantada por George. Os Beatles, neste sentido, nos mostraram o peso do tempo perdido – Paul e John, se tivessem superado as brigas, talvez tivessem dado algo à humanidade entre 1970 e 1980. Bastou Lennon ser assassinado para George, Paul e Ringo gravarem uma música.

Isto pode ser alvo de críticas, sim. Podem até dizer que isso é comercialismo. Mas eu creio que entendo o que eles sentiram. Na morte, no fim, talvez precisemos de uma certa pajelança, enfim, de cantar para nossos espíritos. E deve ser por isso que Paul dedicou “Here Today” a Lennon no show de São Paulo. Sim, Paul também sabe que trinta anos se passaram, e eu também sei. E como todo tempo é morrer um pouco, precisamos de música, de arte para que a verdade não nos destrua.

Aqui, hoje. Mesmo que volta e meia nosso coração volte a 30 anos atrás, não ao Dakota, mas à Praia de Botafogo.


Here Today

Paul McCartney
And If I Say I Really Knew You Well
What Would Your Answer Be.
If You Were Here Today.
Ooh- Ooh- Ooh- Here To - Day.

Well Knowing You,
You'd Probably Laugh And Say That We Were Worlds Apart.
If You Were Here Today.
Ooh- Ooh- Ooh- Here To - Day.

But As For Me,
I Still Remember How It Was Before.
And I Am Holding Back The Tears No More.
Ooh- Ooh- Ooh- I Love You, Ooh-

What About The Time We Met,
Well I Suppose That You Could Say That We Were Playing Hard To Get.
Didn't Understand A Thing.
But We Could Always Sing.

What About The Night We Cried,
Because There Wasn't Any Reason Left To Keep It All Inside.
Never Understood A Word.
But You Were Always There With A Smile.

And If I Say I Really Loved You
And Was Glad You Came Along.

If You Were Here Today.
Ooh- Ooh- Ooh- For You Were In My Song.
Ooh- Ooh- Ooh- Here To - Day.

por Gustavo de Almeida as 17:53:03

Posts similares:
O show não pode parar
O Que Coube A Paul McCartney
How do you sleep, Paul?


Comentários:


Seus comentários

Nome: ozone kitesurfing
Url: http://www.powerkitesdirect.com/ozone-kites/
Amazing article, thank you, I will subscribe to you RSS later.
01.10.11 @ 15:27
Thanks for any other excellent article. Where else could anybody get that kind of information in such a perfect way of writing? I have a presentation subsequent week, and I am at the look for such info.
22.10.11 @ 17:46
I precisely had to say thanks once again. I'm not certain what I would've taken care of in the absence of the tips and hints discussed by you about this subject. It absolutely was an absolute daunting case for me, however , finding out a specialised way you handled the issue made me to jump with happiness. I will be grateful for your support and thus pray you know what an amazing job you are always accomplishing teaching some other people via a web site. More than likely you haven't got to know any of us.
24.10.11 @ 04:10
Nome: Maria Edjane
Url: http://www.sualista.com.br
Excelente artigo, esse blog é surpreendente!
16.12.11 @ 15:15
Nome: valo vilag
Url: http://xbox360konzol.blog.hu
Hi there! Do you know if they make any plugins to protect against hackers? I'm kinda paranoid about losing everything I've worked hard on. Any tips?
21.12.11 @ 22:05
Nome: Free Online English Speaking Course
Url: http://freeonlineenglishspeakingcourse.net/tag/language/
Hi there! I just wanted to ask if you ever have any issues with hackers? My last blog (wordpress) was hacked and I ended up losing many months of hard work due to no back up. Do you have any methods to prevent hackers?
21.03.12 @ 15:07

Seus comentários::


Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)