8.12.10
Praia de Botafogo
Há 30 anos, eu pegava no canto de uma primeira página de O GLOBO a manchete “Ex-Beatle John Lennon é assassinado”. Quando penso nisto, sinto exatamente o peso deste tempo que passou. Vem aquela vertigem, “o horror de saber que a vida é verdadeira”, como escreveu Fernando Pessoa um dia. Trinta anos. E aqueles dias parecem ter sido vividos só em função disso.
Se há um fato que marcou a minha geração – até mesmo para mim, que sempre gostou mais individualmente de George & Paul – este fato é o atentado cometido pelo sr. Chapman. Não me interessa se você, como eu, não é tão fã da obra solo de Lennon; o que importa é o sentimento daquela época. Houve uma segunda Beatlemania, muito mais forte do que a Michaeljacksonmania ocorrida ano passado. Os sentimentos iam mudando, evoluindo, à medida que as milhões de fichas iam caindo. Primeiro, a constatação súbita de que os Beatles realmente estavam finados, soterrando aquela esperança surda de que um dia se juntassem.
Depois, a sensação de perda de Lennon em si. E em seguida a vertigem de naquele momento constatar que um dia nenhum Beatle caminhará mais sobre a Terra. Quando perdemos George, em 2006, me lembro de balbuciar algo sobre isso com minha prima, Mariana. Foi um estranho telefonema. Ambos sabíamos o que o outro queria dizer, mas quase não dissemos. As mensagens foram trocadas. Ambos sabíamos que, de certo modo, voltávamos a 1980. Naqueles dias quentes (nem tanto como hoje) de dezembro, a gente de férias, as famílias se encontrando. O pai da Mariana, meu tio, indo instalar uma aparelhagem de som “moderna” no carro, um velho Marajó branco. Baita som: cinco caixas de som e um toca-fitas.
E compramos a fita, dupla, Beatles 1967-1970.
Entramos, todos, no carro, Mariana com sete anos. E ouvimos “Back in USSR”, o avião soprando, a voz de Paul rasgando o ar, e talvez naquela mesma ocasião o pai da Mariana tenha dito que “Across the universe” significava, para ele, “Adeus ao nunca”. Do alto dos meus 12 anos, eu, de fato, estava “curtindo” a morte de Lennon. Conhecendo os Beatles, comentando, aproveitando todo o “mood”. Eu que até então havia me contentado com meu compacto “Strawberry Fields Forever/Penny Lane”, de 45 rotações, que eu me divertia ouvindo em 33 – “Leeeeeet meeeeee taaaaaake yooooou doooooownnnnnn”.
Dias e dias se passaram, a gente curtindo este luto. Mas era incrível a velocidade da notícia em 1980: o Globo publicou em segundo clichê, uma matéria bem menor, para só então, horas depois, o Jornal Nacional falar no assunto. Curiosamente, nos fez chorar colocando imagens de Lennon com “Yesterday” ao fundo – uma música cuja gravação só tem o autor, ou seja, Paul McCartney.
E me lembro de duas frases, cujos autores eu não tenho certeza. Diante da TV, alguém disse “Tanta gente ruim no mundo e matam esse cara”, durante “Yesterday”. E outra, dias depois, em frente ao Cine Opera, numa banca de jornais da Praia de Botafogo, “Não é todo dia que morre um Beatle”. Depois da frase, todos compramos revistas com biografia de Lennon. Estávamos na mais triste das Beatlemanias. Mas curiosamente, esta adversidade aproximou a gente dos Beatles e toda a gente de nós mesmos. Talvez os próprios Beatles entendessem isso, já que meses depois gravaram a lindíssima “All those years ago”, com um videoclipe absolutamente maravilhoso, e cantada por George. Os Beatles, neste sentido, nos mostraram o peso do tempo perdido – Paul e John, se tivessem superado as brigas, talvez tivessem dado algo à humanidade entre 1970 e 1980. Bastou Lennon ser assassinado para George, Paul e Ringo gravarem uma música.
Isto pode ser alvo de críticas, sim. Podem até dizer que isso é comercialismo. Mas eu creio que entendo o que eles sentiram. Na morte, no fim, talvez precisemos de uma certa pajelança, enfim, de cantar para nossos espíritos. E deve ser por isso que Paul dedicou “Here Today” a Lennon no show de São Paulo. Sim, Paul também sabe que trinta anos se passaram, e eu também sei. E como todo tempo é morrer um pouco, precisamos de música, de arte para que a verdade não nos destrua.
Aqui, hoje. Mesmo que volta e meia nosso coração volte a 30 anos atrás, não ao Dakota, mas à Praia de Botafogo.
Here Today
Paul McCartney
And If I Say I Really Knew You Well
What Would Your Answer Be.
If You Were Here Today.
Ooh- Ooh- Ooh- Here To - Day.
Well Knowing You,
You'd Probably Laugh And Say That We Were Worlds Apart.
If You Were Here Today.
Ooh- Ooh- Ooh- Here To - Day.
But As For Me,
I Still Remember How It Was Before.
And I Am Holding Back The Tears No More.
Ooh- Ooh- Ooh- I Love You, Ooh-
What About The Time We Met,
Well I Suppose That You Could Say That We Were Playing Hard To Get.
Didn't Understand A Thing.
But We Could Always Sing.
What About The Night We Cried,
Because There Wasn't Any Reason Left To Keep It All Inside.
Never Understood A Word.
But You Were Always There With A Smile.
And If I Say I Really Loved You
And Was Glad You Came Along.
Ooh- Ooh- Ooh- For You Were In My Song.
Ooh- Ooh- Ooh- Here To - Day.
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