8.11.10
Quem odeia a Árvore da Lagoa?

Nesta quarta-feira tem a primeira entrevista coletiva da famosa Árvore da Lagoa - que, se não estou errado nas contas, vai debutar: será - repito, pelas minhas contas - o 15º ano consecutivo da Árvore, que é patrocinada pela Bradesco Seguros. Antes que me apedrejem, devo dizer que o patrocínio é para a árvore, não para este blog. Apenas cito o nome do patrocinador por achar hipocrisia esconder.
Meu parêntese é: durante anos todo mundo chiou - inclusive a mídia - porque o "esporte olimpico" (ou "tudo que não é futebol" ou "Educação Física") não tinha o dito "apoio financeiro". Hoje, quanto temos times de vôlei bancados por empresa, tem essas frescuras de chamar pelo nome o Rexona de "Rio de Janeiro" (corrijam se eu estiver errado, já que sou uma ameba em vôlei).
Logo, deixemos de frescuras. É Árvore da Lagoa para mim, mas tenho a liberdade de escrever "Árvore da Bradesco Seguros" e não "Árvore de uma seguradora".
Voltando ao tema, o debate que eu queria levantar é: por que, afinal de contas, os engarrafamentos que surgem em decorrência da árvore fazem com que milhares de cariocas a odeiem?
Há alguns anos li um artigo (do jornalista e escritor Fernando Molica) que denunciava um certo preconceito. Fiquei intrigado. Preconceito contra o quê? O articulista então explicava algo que eu não tinha reparado: a maioria das pessoas que vai lá para a Lagoa só para ver a árvore é da Zona Norte. Aí, me casei com uma mulher da Zona Norte, a Marcele, que me esclareceu: na infância e adolescência dela, a família dela ia ver a árvore. Dias de sonho, daqueles que ficam na memória da gente tal e qual a primeira andada de velocípede ou o primeiro compacto dos Beatles (no meu caso, Strawerry Fields Forever de um lado e Penny Lane do outro).

Meu ponto sempre foi: não, não é preconceito. As pessoas odeiam ficar presas no trânsito, e isso não tem a ver com o motorista que pára pra ver a árvore ser ou não da Zona Norte. Realmente, pouca coisa acaba mais com nosso humor do que ficar preso no trânsito, e quando o engarrafamento já tem hora marcada, é mais irritante ainda.
Mas em um determinado ponto, parei para pensar: a revolta não é um pouco excessiva? Digo, a árvore fica por cinco semanas, e em um momento em que os engarrafamentos já são mais do que naturais - festas de fim de ano.
Será que realmente não tem um pouco de "blasé-Zona Sul", digo, "reclamo porque não tem mais graça ver essa merda dessa árvore e ela só serve para me pentelhar no trânsito". The point is: o morador da Tijuca/Vila Isabel nunca teve voz para reclamar das hordas que, pelo menos duas vezes por semana, invadem seu espaço para ver algum jogo no Maracanã. E engarrafamento é só uma parte do que acontece, neste caso. Algumas das pessoas que não gostam de futebol (esta minoria silenciosa) até lamentam o "atraso da nação" (ou o que quer que seja e que defina este estado de coisas), mas não há um sentimento de "comunidade". Odiar o Maracanã é uma decisão individual. Odiar a árvore da Lagoa é fazer parte de uma comunidade.
O interessante é que na própria Lagoa e nos arredores há várias atrações que causam engarrafamentos, e o ano inteiro. Domingo à noite é um inferno para entrar no Parque dos Patins; horas mais cedo, o inferno está na fila do Jockey Club; na Urca, o Noites Cariocas - que adoro - causa verdadeiro cenário de crise econômica russa pela Avenida Pasteur; e o morador da Barra que trabalha no Centro já tem, no seu caminho de volta para casa, hora marcada com o engarrafamento ali perto da PUC. Sem contar o atual carnaval carioca, que já está muito maior do que o de Salvador, com milhares de blocos que fecham metade das ruas da cidade.
Ora, causar engarrafamento, portanto, não parece ser motivo suficiente para alguém odiar alguma coisa, certo? Ao que parece, no entanto, parece que as pessoas que dizem odiar a árvore, não teriam este sentimento se não houvesse pessoas que param por ali para apreciar aquela vista. E estas pessoas são, em sua maioria, pessoas que vêm, de fato, da Zona Norte. Bingo. O pensamento é igual ao da praia invadida no fim de semana: "Pago IPTU caro e vem estes caras aqui no meu bairro encher o saco".
O sentimento distrital, a meu ver, é quase sempre positivo. Mas em algumas ocasiões - como esta - parece encerrar na verdade um puta de um egocentrismo. Um "viver para o umbigo". A bem da verdade, o ódio à árvore é um símbolo de uma cidade que tem dificuldades de convivência - está errado, claro, o cidadão que vem de fora e suja ou picha seu bairro. Mas errado do mesmo jeito que o morador que faz caca. O erro não tem origem. Babaca não tem origem ou nacionalidade.
Mas na simplificação habitual que fazemos, a tese é a de que o sujeito suja porque ele não mora ali. Mentira. Quem suja, suja em qualquer lugar. O que o cara faz na rua - atirar cigarros, chicletes, lata de refrigerante - é muito reflexo do jeito que ele se comporta em casa, sim.
O "invasor", portanto, que suja, rouba e engarrafa o trânsito, é todo aquele estranho ao ambiente - e no caso da árvore, esta é uma diversão do "invasor". Quem odeia a Árvore pode estar, bem lá no fundo, no fundo mesmo, com raiva do engarrafamento que é provocado "pelos outros". Pelo "invasor". Não leva em consideração que é na época da Árvore que a Lagoa fica mais "messiãnica", mais cheia de cidadãos de todas as partes do Rio, e não apenas à disposição daqueles que pagam o IPTU. Um imposto que, por sinal, reforça o desejo de desigualdade - quanto mais caro é o IPTU que o sujeito paga, mais ele acha que o dinheiro tem que ser investido na esquina onde ele mora. Não é o ponto - o IPTU é um imposto que trabalha com o conceito de compensação urbana, serve para diminuir as desigualdades também.
Claro, nem todo mundo que odeia a árvore se encaixa neste caso. Acredito na Navalha de Ockham, que preconiza ser mais perto da verdade aquela resposta que seja mais simples e direta. Ou seja, odeia-se a Árvore por causa do engarrafamento e pronto. Mas aí o caso é apenas de intolerância e, novamente, pesos e medidas diferentes.

Da minha parte, eu, que nunca fui lá muito fã da Árvore, fui "convertido" a ela pela Marcele, que é também adepta da Navalha de Ockham: gosta da Árvore porque ela é linda e ponto final. De fato, não há como negar que um passeio ao fim da tarde na Lagoa, depois de uns chopes nos quiosques, vendo a Árvore, bom, é daquelas coisas que fazem a gente achar que o Rio ainda tem salvação.
A Árvore da Lagoa merece uma chance. Por mais chato que seja este seu engarrafamento aí, meu amigo.
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Mas ela é linda e esse ano ainda vou levar o Thiago pra vê-la
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