24.05.10
Jesus, tou gordo!
Em 42 anos de vida, fiz apenas dois testes ergométricos. Sim, para os que nunca fizeram, o teste ergométrico é aquele em que você sobe numa esteira cheio de eletrodos enquanto um cardiologista (ou enfermeiro) analisa sua pressão, batimentos, respiração, etc. Nos dois eu fui bem. No primeiro, tirei um C-, tipo assim, passei, mas o médico falou para eu perder peso com urgência. Obedeci. Mas ainda tou cumprindo a ordem, quase dois anos depois.

No segundo, quarta-feira passada, tirei B. Mas a coisa foi bem mais, digamos, enfática. Entro no local de testes, um grande laboratório de exames, e aguardo chamado, após assinar o recibo do plano de saúde e um termo de responsabilidade um tanto assustador. Em poucas palavras, o texto do termo que assinei diz “Se tu morrer a culpa é tua, mané”. Pensando bem, qual termo de responsabilidade não diz isso?
Pois bem. Eis que ouço meu nome e vejo que foi uma moça que chamou. Lógico que a gente, quando tem 42 anos e, principalmente, é CASADO, tem que parar de ser assanhado porque, afinal, quando a gente chama uma mulher de “moça” é porque ela tem idade para ser filha da gente. Mas enfim, era uma loura bonita e muito séria. Ela me conduziu por um corredor que parecia um consultório-rodízio de dentista dos tempos do INPS – só que limpo e novinho.
- O senhor (claro, sempre a maldita palavra “senhor”) entra aqui, troca de roupa e venha até a sala ao lado sem camisa.
Tenso. Me troco em 10 minutos, porque dá um trabalho da porra ficar guardando todas as peças e tudo o mais – já que atualmente eu trabalho de terno.
Obedeço às ordens da dominatrix germânica e logo estou parado diante dela. A mesma pega um vidro com um gel estranho e alcóolico (não deve ser só alcool), e começa a raspar alguns pêlos do meu tórax para colocar os eletrodos.
Uma loura raspando os pêlos do seu peito é sempre uma experiência tensa. Tem o peso do fetiche. Mas mal sabia eu o que vinha pela frente – um golpe forte na auto-estima.
Findo o malfadado serviço, a loura me libera e manda eu esperar ser chamado. A loura, mais séria do que nunca, me manda aguardar numa cabinezinha com um armário, onde eu havia trancado minhas roupas. Eis que aparece um homem alto, magro, sério, e faz sinal para eu entrar na sala dele. A loura é que verbaliza.
- Senhor Gustavo, o senhor pode ir.
Nota, novamente, sobre o tema: este “senhor”, tratamento que é prerrogativa de quem não tem os cabelos no topo da cabeça, me mata a cada dia. Eu nunca imaginei que eu ia sentir saudade do “Aê baixinho” e do “Vai, moleque, passa a bola”. Hoje em dia, em um diálogo normal com um desconhecido, eu ouço a palavra “Senhor” mais vezes do que em um culto da Universal.
O homem magro aponta uma esteira, e dá uma ordem de eu me posicionar, ainda com a voz baixa. Aí eu fico com os dois braços apoiados para a frente, só que o cara ainda não havia colocado os eletrodos. Ele diz, sobriamente, “não, não, de frente para cá para eu colocar os...” mas nem da tempo de ele falar “eletrodos”. Quando eu me viro, ele larga um dos eletrodos, bate as duas palmas das mãos sobre as coxas ao mesmo tempo e abre a boca, com tudo, e desabafa:
- Jeeesuuuuuuuuuuuuuusssss, mas como você tá goooooordo!
Veja bem: não tenho nada de homofóbico. Não confunda. Não sou homofóbico e nem homofílico. Tenho amigos gays à beça, mas não são meus amigos porque são gays, e sim porque são meus amigos. Tampouco vejo nada de mais nas preferências deles. Mas meu problema não era com o escândalo que o médico fazia ou com possíveis trejeitos. Nem de longe. Meu problema passou a ser o fato de que o cara passaria os nove minutos do meu teste me chamando de gordo.
- Olha, você tem que fazer alguma coisa, urgente, muda a alimentação. Não pode ser assim. É qualidade de vida que você está perdendo.
Disse ao cara que eu perdi (e perdi mesmo) 13 quilos desde dezembro. E que já estava ciente. Quase disse, “porra, se eu não soubesse que a coisa é grave, não estaria aqui, caralho”. Mas eu estava fazendo o teste ergométrico, e se você já fez um, deve saber que tudo que você não quer é falar. Mas ele continuava:
- Quanto tempo que você levou para ficar gordo assim?
- 42 anos.
- Ah, não, quero dizer, quando você já foi magro?
- Nunca. Nem quando bebê. Acho que uma vez aos 18 anos. Mas a culpa não foi minha.
Em pouco mais de nove minutos o médico repetiu os discursos anti-gordo que toda minha família proferiu em sete ou oito anos. Só faltou criticar minha marca de adoçante. O ápice foi quando ele, magro como ele só, fez um gesto meio indecoroso usando o corpo todo: abaixou a metade superior do corpo em direção ao chão e estendeu os braços de forma meio estranha.
- Ser magro é bom até para, ó....
-(Silêncio, rezando para ele não citar nada sexual)
- ...amarrar o sapato!
Sim, eu notei que era uma piada. No fim, o cara fez o exame numa boa, o laudo é 100 por cento bem-feito, e tudo foi nota 10. Mas bem que essa Patrulha da Gordura poderia ser evitada.
Minha resposta, tal e qual Ronaldo Fenômeno, foi em campo: tudo normal no teste e ainda fui cumprimentado, 10 dias depois, pelo meu pneumologista, dr. Rafael Zenatti:
- É raro um teste bom como o seu – disse o pneumologista ao ver meu teste.
Eu que já me gabei de tanta coisa na vida, hoje comemoro resultado de teste ergomético. É, a gente envelhece.
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-(Silêncio, rezando para ele não citar nada sexual)
- ...amarrar o sapato!
muito boa!!
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Li alguns posts e quis comentar:
Parabéns, vc escreve muito bem, nunca leio histórinhas das vidas das pessoas. Mas vc conseguiu me entreter, parabéns mais uma vez.
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