26.04.10
O dogma do pênalti
Eu penso seriamente em abrir uma porrada de blogs e segmentar os assuntos, porque, na boa, me sinto um total peixe fora d'água quando uso o Eclipse para falar sobre o tema Futebol – como diz Juca Kfouri, a mais importante das coisas menos importantes. Mas um texto que li no blog do Rica Perrone (http://www.ricaperrone.com.br/) me levou a uma profunda reflexão. Nem comentei lá, porque fico meio grilado de comentar em blog de gente que eu não conheço (paranóia meio bizarra que eu não tenho no Twitter, por exemplo), mas a proposta do Fim do Pênalti é algo semelhante ao que aconteceria com a Igreja Católica caso fosse realmente encontrado o corpo do Cristo. É uma ruptura com um dogma, com algo que praticamente definiu vidas inteiras no futebol. A proposta do fim do pênalti tira dos juízes sua importância para o resultado, acaba com o fingimento dos atacantes, e põe pá de cal na eterna crucificação de quem perde a penalidade máxima por um motivo ou outro.
Diz o interessante texto do leitor publicado no blog do Rica que o pênalti, a princípio, seria uma punição para a infração de impedir com falta a progressão do adversário para o gol. E, de fato, esta lei está desatualizada desde que a expressão “Pênalti bobo” foi popularizada. Hoje em dia o que mais se vê é pênalti bobinho, em que o atacante ainda não tem condições de finalizar, mas uma mão no ombro ou um esbarrão de coxa faz o juiz marcar na hora a penalidade.
Aí é aquilo: a bola, o goleiro e o gol. Se no fim da década de 1990 os goleiros começaram a reagir com seus saltos de três metros para a frente, logo veio a reação dos atacantes, com a maldosíssima paradinha.
E tudo isto por causa do conceito da grande área. Um atacante tropeça no pé de um zagueiro (para mostrar que a discussão não é clubística, cito um pênalti a favor do meu time), como no caso de Toró e Jorge Wagner no Flamengo 2 x 1 São Paulo em 2009, e, pronto, a punição é o goleiro ficar cara a cara com um jogador adversário. Faz pouco sentido, de fato. A gente aceita por dois motivos: já nascemos assim e na hora do aperto, o pênalti é tudo que temos. Diante de uma retranca indevassável, o pênalti é como uma endoscopia: vai onde não se conseguia nem enxergar, sem dar a certeza da cura.
Só quero deixar claro que gostei muito do texto no blog do Rica, o leitor definitivamente “got a point”. Mas não estou dizendo que achei a ideia maravilhosa ou concordo com tudo. O pênalti, como deve escrever nesta segunda o Marcos Donizeti, tem uma importância tal na vida do brasileiro, que deve fazer muita falta se um dia acabar. “O pênalti deve fazer muita falta”? É, ficou meio ruim. E provo isso com a lista abaixo, dos Cinco Pênaltis mais inesquecíveis da minha vida.
1- Roberto Baggio contra o Brasil – PERDIDO, 1994
Não poderia deixar este em outro lugar a não ser o primeiro, já que significou a primeira vez que eu vi a Seleção Brasileira ser campeã do mundo. Tudo bem, nasci antes de 1970, mas tinha dois anos e pouco e não lembro dos golaços do Furacão.2- Zico contra a França – PERDIDO, 1986
O maior ídolo de todos os tempos perdeu o pênalti contra a França. Discordo de quem acha que “o Brasil só não ganhou por causa do pênalti perdido” (estão vendo? Até isso o fim do pênalti mudaria). Zico estava frio, bateu, perdeu, e depois teve gente perdendo gol embaixo da trave.3- Tita contra o Vasco – PERDIDO, 1977
Foi meu primeiro trauma de derrota, num estadual, contra o Vasco. Na época nosso rival maior era o Botafogo, pelo menos ali no meu microcosmo, ainda sob influência de meu pai. O Vasco, no entanto, tinha um timaço: Dinamite, Guina, Orlando Lelé, Marco Antonio (campeão do mundo em 1970), Abel Braga, etc. Perdemos de 5 a 4 a série decisiva, Tita perdeu pelo Flamengo. Só me recuperei do trauma um ano depois, quando Rondinelli....ah, vocês sabem.4- Edílson contra o Vasco – CONVERTIDO, 2001
Em 2001, quando Petkovic fez aquele inacreditável gol contra o Vasco aos 43 do segundo tempo, tudo começou com um pênalti – e discutível. Cássio não iria fazer o gol, houve o contato, mas sei lá se deu para o cara cair daquele jeito. Edílson foi lá e sacudiu a galera.5- Cássio contra o Fluminense, CONVERTIDO, 2001
– Lateral-esquerdo bem mediano do Flamengo, Cássio levou o time à conquista da Taça Guanabara de 2001 ao bater pessimamente um pênalti na série decisiva. A bola, no entanto, bateu no azarado goleiro tricolor Murilo, rodopiou e entrou. Inesquecível por motivos óbvios.
A lista poderia ficar infindável. Vou ficar só nos cinco para não encher muito o saco de vocês. Mas se me pedirem 10, eu tenho, 20, eu tenho, 50, eu tenho, acho que até 100 pênaltis eu consigo fazer.
Mas e se nenhum deles tivesse existido?
Leia o texto do blog do Rica aqui.
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