24.04.10
O pininho do peso e outras dores na academia de ginástica
E finalmente aconteceu: entramos em uma academia de ginástica. Para mim, fato inédito, depois de 42 anos e três meses invicto em relação a isso – só havia frequentado mesmo academias de lutas, e olhe lá. Ah, e, claro, a Academia da Cachaça, ainda que isso aqui esteja longe de ser um post pago.
A nossa academia é muito boa mesmo. Não é das famosas do Rio, nem é do Alexandre Accioly. Mas é bacana, tem preço convidativo e serviço honesto. Os professores são atenciosos, e não tem ninguém marrento. E os profissionais (nutricionistas, fisiologistas, médicos) são gente como a gente. Pelo menos isso a gente entende depois de uma conversa com a nutricionista.
Sim, eu fui a uma avaliação nutricional da academia. O nome da academia? Bom, primeiro que se eu der, vão dizer que é post pago. Quem quiser saber manda email que eu digo. Depois, fica chato eu reproduzir o diálogo com a nutricionista com todo mundo sabendo qual é a academia. Acabam sabendo quem é a nutricionista – pelo menos caso algum frequentador venha parar aqui.
Bom, é fácil imaginar que na academia eu me sinto completamente deslocado, né? Para começar, a idade: apesar de, nickhornbiamente falando, eu lutar contra o amadurecimento e ainda me prender à adolescência dos meus CDs, DVDs e cifras de músicas, vamos lá: já falta cabelo no topo da cabeça. Com 1,60m de altura e nessas condições, é um tal de “senhor” pra lá e pra cá que me deprime.
Depois, a juventude de uma academia consiste em pessoas com o físico do Jean Claude Van Damme – e eu lá no meio com o corpo do Mel Brooks. Agora, o pior mesmo é o pininho do peso. Isso deveria ser oculto. Meu Deus, por que o pininho do peso não é virado só para você? Não é justo que o pininho do peso tenha que ficar exibindo os 10 quilos ridículos que eu levanto na abdominal – após um esforço dionisíaco, nunca hercúleo – enquanto monstros descerebrados (algum defeito a gente precisa colocar neles, este é o que está mais a mão) erguem 90 quilos com a barriga como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Não dá para deixar todo mundo ver o pininho do peso marcando 19 quilos na cadeira extensora, para logo depois uma cópia de Evander Holyfield levantar 70 enquanto fala da rodada do dia anterior do Estadual.
Está na hora de digitalizar o pininho do peso. Aí, é só colocar um esparadrapo na frente do visor. E tudo bem.
***
Mas eu falava da nutricionista. Entro na sala, olho para a cara dela. “Tatiana, né?”. Ela faz uma cara de quem viu alguém de outro planeta. Bom, talvez nem tenha sido pelo que eu falei. Mas ela estranhou. E eu olhei o papelzinho de novo. “Burro!”, eu disse para mim mesmo. “Tatiana é o nome da recepcionista, agora que eu vi”, eu falei para ela, rindo amarelo. O nome da nutricionista era outro. Me sentei. E ela começou a entrevista dela.
No meio da entrevista, me ligam do trabalho. E pelo número do telefone a gente sabe que é urgente. Falei com a pessoa na frente da nutricionista. Assuntos tenebrosos. Ela passou a me olhar como se eu fosse de outro planeta, e além de tudo hostil. Desliguei e tranquilizei-a, dizendo que eu era jornalista.
Não sei se isso funciona de verdade.
O legal da nossa academia é que a nutricionista percebe logo qual é a nossa. Deu para ver na cara dela. Para começar, ela é normal. Nada dessas magrelas zen que expõem os próprios ossos à guisa de consumir tofu ou coisa assim. Não, a nutricionista não é gordinha nem nada – é apenas normal. E não faz carinha de nojo se a gente admite que gosta de ovo frito – com as beirinhas torradinhas.
Ou então ela finge muito bem.
- A que horas você costuma almoçar? - perguntou.
- Hummm...deixa eu ver....hoje é? Quarta-feira, não?
- Isso.
- A última vez que eu almocei foi quinta-feira passada.
Ela riu, em vez de dar esporro. Gostei. Ela entende que esse negócio de almoçar é meio relativo para quem tem um trabalho bonde-neurose total como o meu. Aliás, sempre trabalhei no Bonde da Neurose, nunca tive uma moleza.
- Em que hora a fome aperta mais?
- Ah, sempre de noite.
- E o que você come?
- O que estiver morto e cozido.
- Sua mulher janta com você?
- Bom, quando ela está, reconheço, é pior. Somos cúmplices. Pedimos pizza, macarrão.
- Sempre?
- Bom, agora melhorou, só sexta, sábado....
- Como funciona?
- Atualmente pedimos pizza na sexta e macarrão no sábado. Ou pizza na sexta e os dois no sábado. Varia.
- Caramba....
- Bom, quando ela não está, eu não peço. Quando eu não estou, às vezes ela consegue não pedir também. A gente quando está junto é que inventa muita moda.
- Certo. Então vocês vão fazer essa dieta aqui.
E mostrou um papelzinho dos mais simpáticos. Engraçado que ela notou logo que verduras e legumes não eram prioridade.
- O que você come de salada?
- Pouca coisa. Mas já foi pior. Antigamente eu nem tentava. Nada.
- Hoje eu já faço um grande esforço para consumir. Às vezes não consumo nada de salada, mas pelo menos penso em consumir. É um avanço.

Focaccia da Capricciosa, numa sexta-feira de noite. Esqueci de dizer à nutricionista que ainda rolava uma entradinha antes da pizza em si.
Ela perguntou de novo sobre a noite, o momento em que a fome aperta mais. Aí recomendou um sanduíche. Duas fatias de pão, duas de blanquet, etc. Eu lembrei de um lance importante (saco, vou ter que dizer de novo que isso aqui NÃO É post pago):
- Eu tenho comprado no Mundo Verde uns salgadinhos legais, congelados, pastel integral de forno, tortinha, etc, o que você acha?
Acho muito bom. Aí, no caso, você troca.
- Troco pelo quê?
- Deixa de comer o sanduíche e come o salgado. Um só.
(….)
- O que achou?
- Bom, eu penso que na hora da fome eu talvez queira pegar as duas fatias de pão, colocar o pastel de forno dentro e engolir tudo.
Ela riu de novo. Nem foi tão engraçado, eu sei, mas a gente ri de nervoso porque é humano e entende a fome do gordo. O gordo não tem fome, ele tem carência. Só carência explica essa necessidade tão grande de ser preenchido por dentro. Ops. Sim, tem um baita duplo sentido. Mas é isso mesmo: o gordo que é gordo mesmo tem a necessidade de ter o estômago completamente ocupado, tal e qual uma sucuri com uma vaca. E aí sim, o gordo pode descansar. E acumular mais calorias na cintura.
No meu caso, meu maior sonho, já disse uma vez, era acumular as calorias todas na sola do pé. Duvido que eu continuasse com meus 1,60m.
*********

Fala a verdade: tem lugar melhor na casa para a gente pendurar uma toalha do que a ergométrica?
E, finalmente, a academia tem uma bela sala que é praticamente sua razão de ser. A sala chamada carinhosamente de Cardio. Talvez porque na primeira vez em que a gente vai nela, a sensação é a de que vamos precisar de massagens cardio-respiratórias. Nesta sala ficam o “transport” (aparelho infernal do qual eu ouvi o nome pela primeira vez), a famosa esteira e as bicicletas ergométricas, usadas normalmente como cabides nas casas normais (como aqui em casa), mas altamente turbinadas nas academias.
O “transport” é o aparelho do gordo convicto. Acho que o “transport” está para o gordo como o riacho está para a onça. Onde tem um riacho, vai aparecer uma onça. Onde tem um “transport”, acredite, uma hora vai aparecer um gordo.
E o gordo, claro, fui eu. Subi, segurei nas duas hastes, e comecei a pisar nos dois espaços para os pés. Imaginei que não conseguiria fazer aquilo por mais de 10 segundos sem cair ao chão estatelado. Mas me enganei: fui em frente.
Descobri depois que o “transport” consome muito mais calorias do que qualquer outro exercício. Que é de máxima eficácia. Só tive de trocar as músicas do meu MP3. Vamos dizer que fazer “transport” ouvindo Confortably Numb e One, com Johnny Cash é até legal, mas o ritmo não encaixa. Coloquei então Rory Gallagher, Jerry Lee Lewis e AC/DC para dar uma embalada.
Bom, pelo menos na esteira eu fui bem. Na esteira que estendi aqui na sala assim que cheguei em casa, extenuado do primeiro dia de malhação.
Ser jovem ainda vai me envelhecer muito.
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se isto me matasse? bem, ao chegar lá do outro lado ia pedir pra ficar no paraíso budista, deve ser legal passar o resto da eternidade com um cara mais gordão que você. isto sem contar que os lutadores de sumô estarão lá também, vai ser um meeting de pesos pesados, só na eternidade encontraria minha turma...
não é problema não ter o corpo do van dame, problema seria é ter a mente, a filmografia e o QI dele. prefiro ser mel brooks.
gostei do texto, de seu clega jornalista e obeso
Luiz
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