26.03.10
Jardim da infância
Encontrei, como quase todo mundo, uma comunidade no Orkut sobre meu colégio de primeiro grau. Está lá, “Estácio de Sá”, http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=234789
Na verdade, já havia encontrado esta comunidade, mas foi só neste dia 26 de março, de madrugada, que eu li algo que me chocou um pouco.
Tem 493 membros por enquanto, mas não há uma tendência de passar muito deste número. Éramos, como sempre, uns 40 ou 50 na minha turma. Nunca repeti de ano, por isso, acabava acompanhando a maioria. E a velha Estácio de Sá, incrustada na Fortaleza de São João, na Urca, era uma escola digna, apesar de municipal. Já se chamou Escola 4.5.1 Estácio de Sá, alguma designação administrativa, depois virou escola municipal. Naquele tempo, os professores permaneciam, anos e anos. Você voltava à escola já “adulto” (com, digamos, 18 anos) e lá estava a sua professora.
Eram os anos do regime militar, mas incrivelmente eu não tinha lá muita idéia disso porque eu convivia com militares, desde criança. E eles não mordiam ou batiam. Pelo contrário: a maioria era de uma educação exemplar. Mas se percebia uma certa divisão socio-educacional entre os filhos dos oficiais e os filhos dos praças. Se misturavam, com alegria, no futebol. Porém, não na cantina na hora do refrigerante. Era curioso. Foram muitos anos, os primeiros da minha vida consciente, na Estácio de Sá.
Ler os fóruns desta comunidade me deixou extremamente melancólico. Um certo blues pairando sobre a alma. O sentido da palavra “Passado”, de repente, desabou sobre minhas costas. Não houve lágrimas, mas cheguei quase a desejá-las como forma de expiar o pecado que é envelhecer.
Uma coisa que eu nunca conseguia nestes tópicos era encontrar conhecidos. Sempre era gente muito antiga ou muito “moderna” (como dizem os militares).
Mas hoje, de madrugada, encontrei; “De 1975 a 1984”. Eu cumpri o último ano em 1982, ou seja, havia chance. E não deu outra: estavam lá, pessoas lembrando outras pessoas que eu certamente me lembrava, que ficaram na minha mente, ou lembranças que aguardavam um catalisador para causarem uma reação química no meu coração. Li nomes de amigos, colegas, descobri que um deles ainda usa o apelido daquela época até hoje (inclusive no Orkut), passei os olhos em listas. Sem escrever, sem comentar.
Li os nomes de professoreas – dona Anina, de Português, que era uma mulher linda, dona Helena Dora, que usava conchinhas que balançavam sobre a virilha, dona Maria do Carmo, de geografia, dona Elisa, de Matemática, dona Ierecê, diretora, dona Elba, dona Lurdinha. Personagens fundamentais na minha vida. E fico me perguntando por que diabos eu demorei tanto a perceber. Não digo “entender”, mas a perceber.
Se você me perguntasse há 20 anos se eu “entendia” que a dona Ierecê era importante na minha via, ok, eu diria, “Sim, é importante”. Mas era diferente de perceber.
Eu “percebi” hoje. Senti o cataclisma, a abertura do abismo embaixo dos pés, o gosto de terra na boca. Vi os nomes: “Os irmãos Marcos, Jorge e Arthur”. Sim, Arthur era um amigo da mesma turma, da 5º série. Morava em um prédio barra-pesada em Botafogo chamado Balança-mas-não-cai, na Rua Álvaro Ramos. Era mulato, magrinho, sacana, ria muito de tudo, um carioca dos mais legítimos, apesar de ter apenas 11 anos. Estranho. Não reconheço esta idade no Arthur. Para mim, tínhamos mais que 11 anos. Tínhamos idade adulta, que eu não saberia jamais dizer qual é, qual número. Mas éramos adultos que decidíamos como o mundo iria ficar em breve.
Eis que alguém responde ao tópico em que o nome do Arthur (alguns o chamavam de “Salsicha” por ser comprido, magro, alto) aparece. “O Arthur foi assassinado pela ex-esposa há uns seis anos”. Olho a data da postagem, é de lá pelo meio de 2007. Ou seja, por volta de 2001 meu amigo de colégio, de infância, morreu assassinado. Viveu estes anos todos sem que eu soubesse de sua existência.
Deixamos por conta da cidade, do acaso, da sorte ou do azar o nosso reencontro. Assim como o reencontro com todos os outros, de todos os outros. “Dispersar”, parece nos gritar a vida. É como ser chutado do ninho. Adeus, amigos de infância, agora vou para o segundo grau em outro colégio. De repente, até entendi “SuperBad”, que na verdade apesar de ser uma comédia besteirol é um filme sério que fala sobre isso – tanto quanto “Conta comigo”.
O Arthur se foi, e eu nem percebi. Não era mais meu amigo. Ou era, mais do que nunca? Eu sequer soube, sequer me enlutei. O Arthur para mim morreu antes disso. E sua morte real acabou sendo, para mim, apenas a segunda.
Comecei a olhar os tópicos. Um ex-estudante de lá, Marcelo Ambrosio, postou comentários e prometia digitalizar fotos da época. Achei duas no perfil dele (vou deixar mensagem pedindo autorização, mas já publico aqui, se ele pedir para tirar eu tiro, claro), que não são das minhas turmas, mas há vários coleguinhas com quem eu cruzaria mais à frente.
E de repente eu achei tão importante, mas tão importante, aquelas fotografias existirem. Não estou lá, é verdade. Mas me transportei imediatamente para o cheiro do pátio, o odor das massinhas de modelar, o paladar da grafite esquecida nos dedos, o barulho metálico dos lápis de cor se embolando, e todas aquelas reminiscências, e a gente subindo a escada em direção ao refeitório ouvindo alguém dizer que hoje tem “macarrão com salsicha” ou “arroz com sardinha”. Era a merenda. Eu raramente comia a merenda.
Me deu uma vontade gigantesca, incontrolável, de encarar um panelão de macarrão com salsicha. De sentir o aroma do prato, de ver aquelas senhoras adultas, que hoje devem ser senhorinhas bem idosas, transitando para lá e pra cá, a resolver os assuntos do dia. Cada qual com sua personalidade inesquecível, suas manias, suas piadas repetitivas. Professoras, lindas, responsáveis, cumpridoras da missão de educar, uma missão tão magistral. Numa escola que, claro, era apenas uma escola pública, de fato não era para formar baluartes em nada, mas formou pessoas de caráter e fé, a maioria de nós.
Mas o Arthur, este foi assassinado pela ex-esposa. Eu nunca soube o que ele foi fazer da vida. Nem com quem ele se casou a primeira vez. Não fui em seu casamento. Não conheci seu filho, não dividi com ele nenhum vício, não fui com ele ao Maracanã – apesar de saber que ele era Flamengo. Não, o Arthur para mim não chegou a viver – não depois daquele tempo em que brincávamos de inventar pichações de mesa de escola (péssima confissão, eu sei) ou de poltrona de ônibus.
O que mais me intriga são estes quase 10 anos em que o Arthur esteve morto e eu nem soube. É como se a morte e a memória fosse aquela teoria do gato dentro de uma caixa fechada. Se você não abrir a caixa, qualquer afirmação está correta.
Se eu não encontrar ninguém, é como se todos estivessem vivos e mortos ao mesmo tempo. E daí eu entendo o poetinha, quando ele pontificou que a vida é a arte do encontro. E estas fotografias são como um registro desta arte. Uma prova de que, sim, vale a pena marcar cada momento, cada aniversário, cada comemoração, cada beijo, abraço, perda, vitória, cada brinde e cada copo quebrado, guardar, porque nós morremos a cada dia sem saber, porque no fundo não nos encontramos nunca. Ou quase nunca.
Porque, no fundo, quando eu soube que o meu amigo tinha morrido sem que eu sequer fosse avisado disto, acho que fui obrigado a me encontrar um pouco. Tal e qual no fim daquele filme, talvez jamais tenhamos amigos tal e qual aqueles que tivemos aos 12 anos. E, sim, as pessoas, como dizem no filme, entram e saem de sua vida como garçons em um salão.
E hoje eu senti a dor, pela primeira vez, de ser um dos garçons.
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VAI PROCURAR SUA TURMA!
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vi sua msg e fotos da época da estácio. lembro da msg sobre o arthur. foi postada pelo cezar, não sei se lembra, em resposta a um post meu em q citava o nome de vários colegas daquela época. realmente a notícia soou como uma bomba para mim, pois todos voltávamos juntos para pegar os ônibus fora da fortaleza: 107, 511 ou 512. e sempre estávamos no futebol, às vezes até matando aula. aliás, o esquema era futebol e depois cair naquela praia sensacional ou ir pular da ponte. tempos incríveis. vamos tentar montar um encontro dessa pessoal e trazer as professoras? organizando e divulgando com antecedência, pode ser q dê certo.
grande abraço!
Luiz Almir
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Acabou de ganhar um seguidor do seu site - rs.
abs
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um abraço,
Daniela
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