13.12.09
O sorriso podre do velho Dalborga
Me telefona o Bernardo Mello Franco, jornalista (se o cara não tivesse um sobrenome tão foda quanto esse, juro que só falaria “Bernardo, amigo meu”), no meio da semana, ao celular. Não me lembro onde eu estava nem o que eu fazia, mas estava meio ocupado, de modo que eu não pude falar direito. Mas sabia para que ele tinha ligado: a morte do alucinado Luis Carlos Alborghetti.
- E aí, tá de luto?
- Não chego a tanto, mas sem dúvida o homem deixa uma lacuna difícil de preencher – respondi.
O Dalborga era realmente uma espécie de “assassino do McDonald's” da televisão brasileira. Todas as doenças e paranóias e neuroses da mídia pareciam ter sido misturadas, e dessa mistura nasceu a engraçadíssima matéria-prima do Alborghetti.
Me lembro de quando vi pela primeira vez. Ano de 1990, o canal 9 do Rio (ainda não havia TV a cabo) era explorado pela Rede OM (Organizações Martinez). O canal chegava naquele ano, por coincidência o primeiro ano de Collor na presidência, grande aliado do falecido deputado José Carlos Martinez. Reza a lenda que a Rede OM seria o tal canal que Collor e Martinez usariam para “enfrentar a Globo” e que, por causa disso, a Vênus Platinada fez toda a campanha do impeachment – inclusive colocando pilha na juventude através da série Anos Rebeldes. Eu acho que é lenda – do jeito que era a Rede OM, levaria uns 200 anos para deixar de ser traço e conseguir chegar perto da audiência do Telecurso 2º Grau.
Para se ter uma idéia, havia um filme reincidente na OM cujo nome não lembro se era realmente “A Alcova”. Algo assim. Em dado momento, havia uma cena em que simplesmente, do nada – o filme não era pornô e não parecia ser até então – um sujeito de uns 50 anos tirava para fora um bilau gigantesco e enfiava nas partes de uma mulher meio aprisionada. A cena era chocante porque passava tipo 22h, 22h30. Mas não causou a menor celeuma: ninguém via.
Claro, EU via. Já tinha uma mania de rir do humor involuntário. E nisso a Rede OM era insuperável.
Pois um dia me liga um amigo da faculdade:
- Liga na OM, agora, já, rápido!
- Calma, calma....o que que há?...
- Liga agora, porra!
Liguei e dei de cara com um CLOSE no rosto do Alborghetti. Suado. Aos berros contra alguma coisa. A câmera ia se afastando lentamente, revelando uma toalhinha em volta do pescoço dele. Em segundos notei que os dentes eram tortos e meio podres. O óculos, enferrujado. O fundo do cenário era uma espécie de chroma-key, daqueles que Hitchcok usou em Vertigo e se arrependeu. Fantástico.
Fiquei assistindo, totalmente entretido. Os patrocinadores eram um plus a mais: ALIMENTOS ZAELI, FRIGORÍFICO ALVORADA, KURTEN MADEIRAS e SALIMETIN eram da primeira leva. E sempre com o Bamerindus por fora, já que o Martinez era colado nos donos paranaenses do hoje extinto banco. A chamada que Alborghetti fazia dos produtos era sensacional:
Olha aqui, minha mãe branca, minha mãe negra, quando a senhora for ao supermercado, peça ALIMENTOS ZAELI. Se disserem que não tem, a senhora chama o Alborga, que ele vai lá QUEBRAR O RABO desses supermercados picaretas.
Mas a do Bamerindus era inigualável, um case de marketing difícil de classificar:
- BAMERINDUS, O BANCO DA FAMÍLIA BRASILEIRA DO ESTADO DO PARANÁ! QUER IR, VAI. NÃO QUER IR, NÃO VAI, NÃO ME ENCHE A PORRA DO SACO
Alborghetti sabia vender seus produtos. Posteriormente, o Cadeia foi tendo outros patrocinadores, como o Chá Mate Real. E a lenda de Dalborga e do repórter Augusto Canário – um sujeito que era mistura de papai Smurf com colono de rótulo de aguardente – ia crescendo. Uma delas, testemunhada por um casal de amigos, dava conta de que Dalborga tinha contado 77 facadas. De 1 a 77 no vídeo, fazendo o gesto da facada. Em TV, quase cinco minutos contando.
- Eu tirei do canal, vi parte de outro programa, quando voltei ele estava lá ainda, contando – me disse a amiga do casal.
Frases como “Vou sapatear no caixão do Comando Vermelho” ou “Vai mijar pelo dedão do pé” eram frequentes, acompanhadas de coreografias e closes surpreendentes. Dalborga sabia que a visão dele era aviltante, e de certa forma usava o próprio corpo para reagir aos horrores que as reportagens traziam. E tome cacetada na mesa. E tome gestos indecorosos, e principalmente o primeiro bordão, ainda naqueles primeiros dias de Cadeia Nacional:
- Senta aqui no buraco da mamãe!
Vá saber o que significa isso. E eram sensacionais as duas principais estatísticas apresentadas por Alborghetti. Primeiro, a de que ele era o "deputado estadual mais votado da história do Paraná" (já não era). E depois, a mais divertida, era quando ele se referia a Londrina.
- A SEGUNDA MAIOR CIDADE DO SUL DO PAÍS!
E ficávamos pensando: bom, o programa é de Curitiba, significa que na visão dele Curitiba então é maior que Porto Alegre. E pior: Londrina é a segunda, logo, LONDRINA É MAIOR QUE PORTO ALEGRE...
Dalborga, enfim, se foi. Vai fazer falta por ser a representação carnal, viva e abjeta daquele demônio que há em cada um de nós, aquele cara que se revolta com determinado crime a tal ponto de achar que o negócio é “passar o rodo” no bandido. O Dalborga era uma forma da gente entender que se pode “sentir”, sim, estas vontades. Mas também servia para lembrar que, se transferirmos tais reações instintivas e legítimas da natureza humana para o velho e bom estado de direito, o resultado é algo tão pavoroso quanto o sorriso do Dalborga.
Que descanse em paz, o velho Dalborga.
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