Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









13.09.09

O traçado do muro de pedra: 1982 é apenas uma rachadura na parede, mas como dói

Para mim, a Copa de 1982 aconteceu em um pequeno bairro praiano, com uma murada de pedra e casas baixas. Ainda baixas, naquele ano de eleições para governador, em que eu me preparava para sair da concha rumo ao segundo grau. 1982 já teve o sabor amargo do – argh – crescimento, da separação daquelesz velhos colegas. Você vai me entender: quando se tem 14 anos e se estuda com colegas que você conheceu no mínimo aos seis anos – quando não aos cinco – bem, isso significa que você vai deixar de ver aqueles amigos que te acompanharam por toda a sua vida. Toda. Praticamente toda. A dor é imensa. E eu já vivia aquilo, dia após dia com gosto de despedida, os amigos dizendo que iriam para o Colégio Dom Pedro II, outros para escolas técnicas, alguns para a carreira militar. A menina por quem eu era apaixonado, esta, iria desaparecer das minhas vistas e eu, já meio nerd sem o saber, não teria mais o pretexto – a aula – para vê-la, ouvir sua voz, sentir seu perfume. Teria que – argh 2 – pedir seu telefone, ou quem sabe – argh 3 – chamá-la para fazer alguma coisa. Mas como convidar uma garota para sair sem que ela perceba que o que queremos é beijar sua boca?

Enfim, em 1982 tudo estava ruindo. Era a oitava série. Mas havia a Copa do Mundo – a Copa do Mundo sempre torna a vida melhor. E essa aconteceria nas férias de meio do ano. E eu sentia que 1982 seria a minha primeira Copa “a sério” - claro, assistira 1974 mal e porcamente e só lembrava de um cara chamado Valdomiro. Em 1978, não vi o Brasil perder, mas também não vi ganhar. Só falávamos na marmelada entre Argentina e Peru. Mas 1982 não. Eu já estava “adulto”, já participava dos movimentos amadurecidos de pessoas recolhendo dinheiro nas ruas, fazendo pedágios clandestinos a fim de comprar tinta e em seguida pintar laranjas gigantes com rosto no meio do asfalto. Sim, 1982 havia chegado. You're a big man now.
Ver estes vídeos todos do maravilhoso filme oficial de 1982 me levou, não à Espanha, mas àquele país estranho onde eu vivia, de onde, por televisões de no máximo 20 polegadas, as pessoas viam aqueles lugares escuros, aqueles estádios escuros de Madrid, Sevilha e Barcelona. Aquelas Tvs que mostraram batalhas épicas como Alemanha x França, a agressão monumental de Schumacher, o goleiro, no francês Batiston.

Aquelas Tvs que mostraram o Sarriá. Naquela tarde.

A murada de pedra, em frente a uma casa baixa, de três andares, um apartamento por andar. Não era bem um prédio. Está lá até hoje, incólume, depois de milhares de repinturas. Os amigos que lá habitavam já estão longe. Não moram mais ali no térreo, onde eu vi Brasil x Itália. Mas os fantasmas de 1982 me levam a todo instante para aquele dia, a gente chegando, se juntando ao povo. Eu nem bebia cerveja. Nada. Só coca-cola. O povo em volta, sofás, almofadas, cadeiras, salgadinhos. Gente que eu nunca tinha visto. No bairro, assim como em todo o Rio de Janeiro, vários preparativos para a festa. Passando pelos italianos, era barbada. O Brasil das eleições para governador emergia com a arte de Éder, Zico, Júnior, Leandro, Cerezo, Sócrates e, last but never least, Falcão. A esperança emergia. 12 anos depois do Tri, veio o Tetra. A esta altura, o mundo já estava encantado.
Eu iria perder meus amigos, meus colegas, a garota que eu tinha me apaixonado. Mas ganharia a Copa. Ora essa.
A murada de pedra é adornada por outras pedras, embaixo, que protegem a estrutura toda da força milenar das águas. Conter o mar, sabemos bem, não é tarefa fácil, e exige ter a mesma paciência petrificada que as águas salgadas e que respiram com ritmo sobre qualquer coisa.
Era só atravessar a rua, e voltar para casa, em silêncio, acompanhando o contorno da murada de pedra. Andando, dava uns 400 metros até em casa. Veja bem, não aconteceu nada. Eu apenas andei. Mas, que diabos, eu não sabia naquele momento que a caminhada jamais sairia de minha memória. Talvez porque tinha sido a primeira vez em que chorei sem um motivo trivial como uma queda, uma briga ou uma perda.
Eu chorei porque estava crescendo. E chorei porque, sinceramente, não conseguia entender por que as pessoas acham positivo o sentido da palavra “crescer”. Naquele momento, eu crescia porque aprendia o que é uma grande derrota, crescia porque em breve aprenderia que a vida é 4-4-2, não, nunca a beleza do 4-3-3. Chorei uma barbaridade, porque estava sozinho e tinha sido acordado de um sonho bom.
Só ouvia o barulho dos meus passos. Nas ruas, nenhuma alma. Nas janelas, pessoas encostadas no parapeito, dando as costas para as ruas. Televisões ligadas, semblantes de torpor. Acabou.
Não me venham dizer que “é apenas um jogo”. O Sarriá foi a nossa Alésia. O porre de fossa da nação. O amadurecimento ilícito, quase penal, um eletrochoque no país esquizofrênico com um general de presidente mas eleições para governador. E gente voltando do exílio.
Atravessei a praia, via uns poucos moradores encostados em frente aos botequins, todos em silêncio.
Talvez eu tivesse “detonado” meu choro por causa do Oscar. O zagueirão, que começara a carreira ao lado de Polozzi na Ponte Preta e que depois se consagraria no São Paulo. Naquele Brasil x Itália, aos 47 do segundo tempo, o jogo já praticamente terminado, todos em pé, corações batendo a mil esperando o empate salvador, consagrador, o país inteiro preparado para um urro de alegria quando a bola estufasse a rede italiana. Escanteio. É agora. A bola desce, está lá o gigante Oscar. A cabeçada vai quase no ângulo.
Mas Dino Zoff, uma lenda que depois seria técnico da Azzurra, esticou o braço e voou. Um gigante que sobreviverá aos séculos. Caiu Zoff, abraçado à bola, sem deixar rebotes, que na linguagem da vida real é o equivalente a “dúvidas”.
A cabeçada do Oscar até hoje me faz levantar meio milímetro da cadeira. Ainda acho que a bola pode entrar, é estranho. E fica a sensação de que eu seria uma pessoa diferente da que sou hoje, se o Oscar conseguisse aquele gol.
Os anos passaram, e aquela caminhada acompanhando o traçado do muro de pedra à beira-mar continuou, através da vida. Percebi que não haveria outro 1982.
E saber que não haverá outro 1982 é o que me faz ainda chorar, acompanhando o traçado desta vida.

Todos estes pensamentos nocivos são fruto de uma noite vendo alguns (ainda não todos) destes vídeos, 10 partes do filme oficial. Divirtam-se. A narração é de Sean Connery:

por Gustavo de Almeida as 02:17:20

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