31.08.09
Mamãe, agora eu sou mainstream!
O cantor – cujo nome talvez eu jamais venha a saber – está exultante em cima do palco. Feliz. Guardadas as devidas proporções, está meio Paul Simon em dia de Central Park. A guitarra é acionada a todo momento, sobrepondo-se aos outros dois instrumentistas no palco: um saxofonista ao estilo Kenny G e um tecladista que ainda faz a bateria eletrônica. A barulheira, no fim, é da pesada. Em dado momento, no fim de uma música, ele para, agradece, e, em tom intimista com a plateia de pouco mais de 2 mil pessoas, convoca:
- Eu queria agora que vocês cantassem junto comigo algo muito especial. Mas tem que ser junto, tá?
A plateia arrebatada, concorda. E ele dispara “Pais e filhos” com a garganta aberta:
- É PRECISO AMAAAAA-AAAA-AAAAAR, AS PESSOAS COMO SE NÃO HOUVÉSIAMANHÃ

O palco iluminado do Roupa Nova, a banda mais mainstream do mundo
Quando ele menciona que é um grão de areia, para tudo e o show volta. Qualquer um, no entanto, entende e mata a charada: ele só estava emocionado e precisava falar algum verso que tivesse “amar” e “pessoas”. A cena, no entanto, não aconteceu na época em que “Pais e filhos” foi lançada, e sim na sexta-feira passada, dia 28 de agosto, na Fundição Progresso, casa de shows do Rio de Janeiro, na abertura da apresentação do Roupa Nova. Eu e Marcele estávamos lá, acreditem. Muita gente diria: “Nem de graça”. Bom, foi de graça. E a gente não recusou. No fim, nos divertimos muito.
E eu pude berrar, em voz bem alta: “Mamãe, eu sou mainstream”.
É preciso amar? É. Sem dúvida. A palavra “amar”, nas minhas contas pouco compromissadas, foi pronunciada pelo menos 900 vezes na noite carioca da Fundição. No show de abertura, um típico músico (justiça seja feita: um BOM músico) de espaço menor, ocupando um palco com grande público, tocando tudo, mas tudo o que há de mais manjado e jukebox do rock brasileiros nos últimos 30 anos.
Quando entra o Roupa Nova, quem é de fora, como eu, fica até sem jeito diante da total intimidade deles com o público. Voltavam de “Abbey Road”, o que tornou tudo ainda mais pitoresco: tanto no vídeo com bonecos dos músicos apresentado no início do show quanto nas conversas e clipes que se seguiram, a impressão que se tem é que o Roupa Nova foi a Londres em um balão ou mesmo em uma louca aventura a bordo de uma galera com remadores e um númida batendo em um tambor. Os ótimos músicos do Roupa Nova falavam de Abbey Road com o deslumbre de alguém mostrando os joguinhos de seu novo Playstation 2... em 2009. Se para o público seleto e hype o estúdio onde os Beatles gravaram Sgt Pepper's e Abbey Road já é tão manjado que é até tema de seriado da Sony, bom, o Roupa não tem nada a ver com isso. Seu público tem TV a cabo, mas assiste o BBB. Tem internet mas adora o Orkut. E não troca Friends ou Seinfeld pela novela das oito – tanto é que todos sabem todas as letras e cantam junto o tempo todo. Difícil haver show mais animado – a não ser talvez o do Los Hermanos, outro show em que fãs cantam do início ao fim.
Mas, numa boa, é até sacanagem querer comparar as duas bandas. O Roupa Nova, musicalmente, é absurdamente superior. Sem demérito para o Los Hermanos.
O público era completamente misturado, uma verdadeira salada etária; filho com a mãe do lado, até avós estavam lá para cantar a música da novela – mesmo que tivesse sido a música da Viúva Porcina, como “Dona”. Quem gosta do Roupa Nova jamais vai, por exemplo, a festas que aconteçam na madrugada do dia 25 de dezembro. Quem gosta do Roupa Nova deixa o controle remoto da TV na mão da mãe.
Por tudo isso, o sucesso do cantor de abertura era inevitável. A coisa chegou a tal ponto que a produção do show iluminou toda a Fundição Progresso para o Ôôôôô-ôôô do refrão de Será, do Legião Urbana, outra tocada por ele. O cara era meio Theo Becker, na animação e na emoção dele. O público o venerava. Mas venerava a sério, não era de sacanagem. “Olha, estamos cantando coisas lindas, mas essa aqui, sinceramente, acho a mais linda de todas. Vamos cantar juntos?”. Aí entrava:
- Nadadoquefoiserá, de novo do jeito que jáfoiumdia, tudo paaaassa, tudo sempre, passará...
E as mãos por toda a plateia faziam uma onda novamente, 25 anos depois do meu primeiro show do Lulu Santos, no finado Noites Cariocas.
O delírio aumentou quando eles tocaram um hit do Nando Reis que o J. Quest popularizou. O refrão: “O amoooooor/é o caloooooor/que aqueeeece/a al-ma”. Êxtase.
Se no mundo houvesse tanto amor como num show do Roupa Nova (incluindo a abertura, claro), talvez não tivéssemos tido nem a Primeira Guerra Mundial. Ou pulássemos direto para a Segunda.
No fim da música do Nando Reis, o nosso amigo juke box dispara um verso “A tua piscina está cheia de ratos/Tuas idéias não correspondem aos fatos, o tempo não para”. E para por aí, incrivelmente. Foi quando achei que o cara era o Theo Becker, disfarçado. Faltou apenas o "Valeu, Cazuza!".
Quando a banda entra, o público já está, digamos, excitado pelas preliminares. O Roupa tem dois “âncoras” neste show: Feghali, que toca violão, guitarra, teclado e canta, e Kiko, guitarrista. Paulinho, o vocalista entrado em anos (careca e de cavanhaque, é o único a não colocar a idade no site oficial do grupo), e Serginho, o baterista cantor, são os que abrem a boca apenas para cantar. Serginho é quem faz a voz mais falsete, e faz cara de emocionado. Se pudéssemos dar um apelido, seria “Serginho, o Deflorador”: volta e meia se levanta da bateria cantando, anda com um gingado de quem diz, “nós vamos nos amar e eu prometo que não vai doer”.
E tome “Sapato velho”, “Linda demais”, para cima do público extasiado. Quando entra o piano de “Volta pra mim” todos preparam a garganta para o refrão. Atrás da gente, uma menina de uns 23 anos abraçada a um cara berra:
-EU TE AMO E VOU GRITAR PRA TODO MUNDO OUVIR, VOCÊ É MEU DESEJO, DE VIVEEEER....
Numa breve pausa, Paulinho vai para o centro do palco, é iluminado e aparece no centro do telão berrando o refrão de “À flor da pele”:
- NINGUÉM MERECE A SOLIDÃO....
Bebe-se pouco no show do Roupa Nova. Drogas? Nem pensar. O clima é de namoro no portão de casa. Pior: portão da casa onde antes de chamar a mãe da garota de sogra, você a chamou um dia de “tia”. A sensação é de que o Roupa mora em uma vila e todos os moradores estão ali. Quem está tomando conta das casas, meu Deus?
Tampouco há roupas extravagantes ou modernas, no máximos vestidos muito decotados, ousados, até. Sim: há mulher a rodo no show do Roupa Nova. Elas olham de olhos arregalados para Feghali quando ele conta que “Londres é uma cidade histórica”. “Oh, really?”, perguntaria um londrino. O problema é que Londres é realmente longe dali. Em todos os sentidos possíveis. O hype e o ecstasy londrino passam ao largo da experiência do Roupa. Para eles, o rock nem mora mais na Inglaterra, e se alguém vira as noites ouvindo música eletrônica (criando imitadores no Brasil), que se lixem. Os coroas dormiam cedo depois de umas cervejas e nem bagunçavam o hotel.
No fim, Abbey Road ficou mesmo para trás. O bis foi mesmo com um medley que começou com Sweet Child O'Mine do Guns and Roses, emendou com Have you ever seen the rain do Creedence Clearwater Revival, e quando desci as escadas da Fundição estava bombando com Stayin alive, dos Bee Gees. Sabe-se lá o que vinha depois. Fui embora porque já estava satisfeito, uma noite divertídíssima.
Eu finalmente era mainstream, depois de tantos anos tentando ser alternativo e não conseguindo!
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