20.08.09
O tal do Metabolismo

A balança sempre vence no fim. É a minha vida, há alguns anos. Uma luta eterna. Um filme visto e revisto milhares de vezes. A balança, no caso, é como o mocinho, o caubói bom e solitário, que depois de ser vítima de mil e uma artimanhas (sibutramina, ortomoleculares, exercícios, dietas revolucionárias), sempre vence no fim. As piadinhas, claro, sempre começam. Não faltará gente para ser criativo:
- Gustavo! Se vier a crise econômica que você está esperando, vamos todos morrer de fome, heim? Para quê tantas reservas?
E eis que me considero no ponto mais alto da minha vida de semi-gordo: com 1,60m de altura, o certo seria eu ter uns 67 quilos, dada a minha musculatura. Só que estou com tenebrosos e perigosíssimos 93 quilos. Isto significa que o "mocinho", ou seja, a balança, não só venceu como goleou e ainda saiu de campo dando banana para a torcida adversária.
Quer dizer, banana não. Banana engorda. Saiu mandando tofu. Ops. Eu é que estou tofu, na verdade.
Me falta, reconheço, um bom endocrinologista, já que todos parecem concordar que meu problema é mais de metabolismo mesmo. Tenho o metabolismo de um urso no inverno, pelo jeito. Só que os ursos têm o privilégio de dormir semanas depois de fazer apenas uma refeição. E vejam bem, um alce - "Na natureza selvagem" nos prova isso - pode ser uma refeição bem mais leve do que hamburgueres do Joe e Leo's ou pizzas da Stravaganze. Se você assar o alce em vez de fritá-lo, fica mais light ainda. Por isso, nem dá para comparar minha situação com a de um urso. Se eu pudesse dormir por uns seis meses, talvez emagrecesse o que preciso. Agora, como ficar acordado sem vontade de comer 20 pães franceses quentinhos com manteiga derretendo ou uma lata inteira de doce de leite?
Sim, eu sei que você fica acordado sem essa vontade. Acredite, eu também ficava. Mas a perda de todas as calças do meu guarda-roupa fez com que brotasse uma ansiedade mortal, daquelas que só se cura com muito doce. "Putz, com que calça vou trabalhar? Pô, preciso de uma bomba de chocolate. O cinto não deu? Caceta, o que vou fazer agora, quer dizer, o que vou fazer depois de matar essa caixa de alfajores?"
Acredite: nós gordos, somos assim. Sabemos que engorda, que é errado, mas em uma situação extrema, nossa salvação é a comida. Um dos meus maiores medos, que é o de avião, fica ainda mais agravado quando imagino que, durante uma queda livre de avião em chamas, o serviço de bordo provavelmente é suspenso. O que comer enquanto centenas de pessoas urram, berram e rezam para serem acolhidas pelo Senhor?
Outro dia eu conversava com uma amiga que tem lá seus problemas, nem tão graves assim, com o peso. E inevitavelmente se falou em reencarnação:
- O que você preferia? Voltar ao mundo rico, mas com este seu metabolismo, ou pobre e podendo comer de tudo?
- Voltaria pobre e viraria o maior assaltante de pizzarias do mundo, procurado pela Interpol e pelo FBI - respondi.
Hoje tive um reencontro com um grande amigo meu, que eu não via há uns três anos. Nos vimos de longe, durante a caminhada de fim de tarde. No encontro, ele começa com pequenos golpes de rim, fígado e baço, trabalhando embaixo:
- Cara, sabe que eu quase não te reconheço, de longe?
(Tento fugir para as cordas e fazer o clinche, mas não consigo. Ele insiste)
- Você tá gordo pra caralho!
(Eu reconheço com a expressão e o gestual de um porta-voz do Exército americano explicando Pearl Harbor)
Aí é a minha vez:
- Pois é, cara, a minha barriga é um problema, mas também sempre foi.
- É, mas não é só a barriga não. A SUA CARA está inchada também!
Não deu nem tempo de ouvir o gongo soar, na contagem já deu para ver que era nocaute.
Este tipo de situação é normal na vida do neo-gordo. Agora, isto tudo foi com um cara que eu não via há três anos. Fico imaginando garotas enfartando de rir e sujeitos de mais ou menos 41 anos de olhos arregalados ao me encontrar.
- Porra, você era tão magrinho, baixinho, e agora tá essa jamanta?????
Isso se eu encontrar gente do CEFET. Se eu achar alguém da Escola Estácio de Sá, onde estudei na infância, periga a pessoa achar que eu sou meu pai. E que meu pai precisa de uma dieta séria.
Ou, no mínimo, de reconhecer que não se pode comer churrasco enrolado com bacon (como na foto lá em cima) impunemente.
ps - Site de onde tirei a foto? Viciados em churrasco! (http://www.bbqaddicts.com/)
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Mas, invocando a Pollyanna Trágica (personagem que sempre lembra que podia ser tudo muito pior - inventada por uma amiga minha e adotada por mim), ofereço uma tentativa de consolo: Pelo menos tu não é mulher, não precisa passar a raiva de te perguntarem o sexo do nenê e quando nasce(GRRR).
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