Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









11.08.09

A vida, este eterno recomeçar. Ou: perdi o meu aparelho de telefone celular

Perdi meu celular. Repito: perdi meu celular. E percebi que, à medida que os celulares evoluem e ganham novas funções na vida de todos nós, a frase “Perdi meu celular” ganha contornos mais graves. Um dia, “perdi meu celular” teve tanta importância quanto “perdi meu relógio” ou “não acho a chave do portão”. Hoje em dia “perdi meu celular” é algo que merece condolências. Meus amigos, inclusive, entenderam isto. Avisei a centenas de pessoas por email, inclusive para segurança delas, claro. Em grande parte dos emails de resposta o tom era sempre o mesmo:

-Que chato...mas você vai conseguir sair dessa...
-Isso é um saco, né? Mas a vida continua.
-Cara, que merda. Que merda. Bom, segue meu telefone, qualquer coisa que você precisar...

Achei sinceramente que se eu desse tal notícia pessoalmente, alguém me abraçaria dando tapas nas minhas omoplatas. Ok, tapas nas omoplatas é quase um hai-kai. Tapinhas nas costas então.
A perda do celular tem seis fases: descoberta, choque, negação, constatação, aceitação e coleta infernal de telefones que estavam na agenda. Na descoberta que o celular sumiu, você leva a primeira pancada mas é apenas para começar a procurar. Depois de 10 minutos de procura em casa, ou perto de você no escritório, você leva o “choque”:

- Ai, caceta, será que me roubaram ou eu perdi?

Aí tem mais uns 15 minutos em que você vira uma mochila na mesa e joga para o alto todos os objetos de sua casa que tenham pano envolvendo, cobrindo ou apenas cercando lateralmente. Desesperado, você abre a geladeira e o congelador. Sei lá. Depois que fecha a porta do congelador, a vítima entra na fase de negação. É quando você faz coisas idiotas como ir até o último estabelecimento comercial por onde você passou a fim de saber se alguém te devolveria um celular de 500 reais. Ou quando você anda pela rua num domingo revirando folhas de árvore no chão tal e qual um mendigo procurando resto de comida. É, foi o que eu fiz.
A verdade é que ninguém devolve celular. E isto mostra a que ponto nós chegamos. Por essas e outras que na última vez em que perdi o celular pensei em criar um sistema parecido com os de segurança para veículos, aqueles que travam o carro todo 10 minutos depois de roubado. Só que no caso de celular, seria uma explosão. Uma baita explosão, com estilhaços. Mas, claro, acionado pelo dono. A gente é que julgaria se o cara que pegou o celular estava com a intenção de aguardar ligação do dono para devolver.
No caso do meu, o cara desligou rapidinho. E aí seria assim: ligo a primeira vez, toca, toca e ninguém atende. Ligo a segunda, está desligado. BUM! Tudo pelos ares.
No próximo celular que eu comprar, farei este adesivo: “Caro senhor: este aparelho contém um explosivo acionável à distância. Caso queira evitar uma explosão, atenda à ligação do dono”.
Gostaria de fazer uma estatística: quantos devolvem? Qual a porcentagem de gente que não se deixa seduzir pela câmera ou sei lá, pelo gravador, e realmente devolve? Garanto que é mínima. É a nova crise ética. Pode valer até novela das oito na Globo. Imagino o texto do Roberto da Matta (ou similar) no dia seguinte ao da estreia: ”Depois de Odete Roitman, dos marajás e dos sem-terra, os novos vilões do imaginário social brasileiro na Vênus Platinada são os que acham aparelhos de telefone celular e não devolvem”. Por outro lado, aqueles que devolvem tendem a ser marginalizados. “Você devolveu o celular do cara? Você se acha melhor do que alguém?”, ouviria o incrédulo praticante do bem.
Bom, no fim das contas, passei pela fase da aceitação (não sem antes berrar uns 300 “fudeu!” pelas janelas de casa) e finalmente cheguei à da coleta infernal de telefones que estavam na agenda. Este é um momento que, apesar de infernal, pode surpreender. Gente que antes só te dava o tel do trabalho te enviando o de casa. Gente que nunca falou comigo por telefone me mandando todos os contatos. E gente que eu nem sei quem é me desejando pronto restabelecimento (de ter perdido o aparelho) e mandando os contatos, claro.
Como a Marcele está com amigdalite e não pode sair de casa, não pudemos ainda comprar um aparelho novo – já que tudo, sei lá por que razão, está no nome dela. A razão eu sei: uma daquelas regras estranhas de “fidelidade”. Mas a regra, impossível entender. Sei que está tudo no nome dela e ela tem que ir junto. E a Marcele adoeceu justamente agora.
Sem aparelho, me resta anotar na velha e boa agenda de papel todos os telefones enviados. Não são poucos. Estão todos anotadinhos. Penso inclusive em não passar nada para a agenda eletrônica do telefone. Isso. Nada, nada. E aí, me valer do velho método: telefonar para quem estiver perto de minha agenda e pedir para a pessoa dar uma olhada em um número para mim.
Sempre funcionou. Não me venham dizer agora que este método não é “digital”.

por Gustavo de Almeida as 03:03:14

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Seus comentários

Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blogspot.com
Sensacional, como sempre. Marcele tá doentinha é? beijo pra ela!!
11.08.09 @ 16:35
Nome: Luís Edmundo
Url: http://orlandolele.blogspot.com
Sugiro um bloquinho dos menores, que caiba no bolso de trás da calça. Infalível.
13.08.09 @ 11:16
Nome: N.Sara
Url:
Ahá.
Uma das meljhores expressões de liberdade é ficar sem celular. Da primeira vez que perdi (e perdi mesmo), o porteiro encontrou varrendo a calçada na porta de casa, aquela coisainha rosa metálica breguíssima, e me devolveu (tem gente, sim, que devolve celular).
Da segunda vez senti que alguém curtucava meu bolso da calça , aquele bolso trasiro, levemente; não dei muita bola, eu ali na banca de capas de almofadas comprando presentes, naquele afã de escolher cor, textura, aquela mulherada toda em volta... Então fiquei sem celular e só me dei conta umas duas horas depois, querendo fazer munhas unhas, TINHA que avisar Ricardo que ia demorar (senão ele pensa que eu abandonei casa, amor, cidadania). E, confesso, conheço o episódio de esvaziar mochila e fazer o caminho de volta que nem Hansel e Grettel. Roubaram. Puxa. Mas sabem o quê? Foi um marco, uma libertação, uma espécie de Libertas quae sera, porque passei a ter celular de cartão. Sem conta, caminhando contra o vento sem lenço e sem documento. Só me deu muita pena das fotos do meu filho, momentos preciosos. O resto a gente tira de letra. Evoé Baco.
17.08.09 @ 10:56

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