Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









6.08.09

Apenas o fim: uma reflexão

marcelogarcia

Marcelo Garcia foi secretário municipal de Assistência Social no já saudoso período de Cesar Maia. Ele tem uma newsletter diária - você pode assiná-la pelo endereço dele, http://www.marcelogarcia.com.br e passar a receber pensamentos e reflexões diárias, não só sobre política ou gestão em assistência social, mas sobre as nossas vidas e os nossos desencontros. Garcia escreve também uma coluna no site YouPode.
O texto recebido hoje, quinta-feira, dia 6 de agosto, me comoveu em particular. Marcelo descreve uma cena fácil de ser "vista". E um sentimento ainda mais "tangível" - principalmente depois que ele trocou de avião e deixou de embarcar no fatídico vôo 447 da Air France. Marcelo trocou de avião e pagou R$ 800 do bolso dele só para poder ir de um jeito mais conveniente e confortável, queria ter mais tempo até chegar ao aeroporto. E nasceu de novo.
De lá para cá, seus textos têm a expressão de quem está em pleno e explosivo parto. Vale muito a pena:



MORTES E O FIM
por Marcelo Garcia

06/08/09

1- Esta semana fui a um velório de 3 jovens que morreram em um acidente de carro. Eram 3 primos. Dois, filhos de uma mesma mãe.

2- Ao chegar lá eram 3 caixões um ao lado do outro e uma multidão de pessoas.

3- Entrei e abracei minha amiga (tia dos jovens) e o pai de dois deles.

4- Naquele momento vi um pai que deixou de ser pai, uma mãe que deixou de ser mãe, uma avó que deixou de ser avó e uma tia que também estava deixando de ser tia.

5- A morte faz com que, de forma imediata, vínculos sejam rompidos entre uma pessoa que até dois dias atras, por exemplo, fazia parte da minha vida e do meu cotidiano. A promessa dita pelo padre de que todos vão se encontrar na eternidade não me acalentava a alma. Na verdade o que via naquele velório era o fim de 3 histórias. O fim do futuro de relações. O fim da convivência. O fim. Apenas o FIM.

6- Fiquei pensando na finitude. Ela existe e é concreta. O fim nunca avisa quando vem, mas sabemos que vem. O fim significa sair de uma história. Sair de relações. Sair do presente e nunca ter futuro.

7- Olhava a família da minha amiga e via dor. MUITA DOR. Olhava para o pai, mãe e avó dos jovens e via o quanto o FIM daqueles jovens significava mudança total na vida deles próprios pois rotinas serão mudadas. Saudades serão construídas. Dores serão vividas por muitos e muitos anos. Se é possível esta dor um dia passar.

8- No velório estavam presentes muitos jovens amigos dos jovens que encerraram sua história na vida. Eles estavam muito abalados. Estavam surpresos com a idéia de um fim. Estavam confrontados com uma dor que talvez ainda não tivessem vivenciado.

9- É claro que fiquei pensando durante todo o resto do dia na possibilidade de minha própria história findar e eu ter deixado muitas histórias mal contadas e mal vividas. Fiquei pensando que o mais importante na vida é pensar no futuro e por isso fazer uma história legal de vida para que de fato se possa ter uma bela história para contar.

10- Minha amiga deixou de ser tia. Eu me confrontei com o FIM da vida e me lembrei que eu não posso esquecer é de viver. Preciso trocar a caneta e dar uma nova direção para minha história.

11- Viva a VIDA.

11- O fim virá para todos, mas o que não dá para esquecer é que a história das nossas vidas está sendo vivida. E é apenas isto que deve importar.

por Gustavo de Almeida as 16:22:39

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