4.08.09
Me dê motivo...

Eu tenho realmente um problema com livros de auto-ajuda. Não é puro preconceito intelectualóide, nada disto. Não tenho medo de parecer burro ou alienado ao fuxicar uma pilha de livros do Içami Tiba ou mais um da série de Mitch Albom, A Última Grande Lição. Vejam: tenho certeza de que estes livros realmente ajudam alguém. Mas creio que ajudam quem realmente já está além de qualquer ajuda humana e precisa de auto-convencimento. E no mais, não faço a mais remota idéia sobre que assunto pode estar sendo abordado em um livro que se intitule “Quem mexeu no meu queijo?”.
Aqui na casa do Eclipse deve ter alguns livros de auto-ajuda, reconheço. Mas nenhum do tema, dentre todos eles, que mais me apavora: motivação. Sim, tenho verdadeiro terror diante de pessoas que foram pagas ou convencidas a motivar aqueles que o cercam. Se estivermos em uma colônia de férias ou coisa parecida (embora pelos próximos cinco anos dificilmente você vá me flagrar em uma colônia de férias, digamos, este é o prazo mínimo), saio correndo quando aparecem aqueles sujeitos magros, de sorriso alvo e branco, roupa limpa e bem passada, dispostos a tirar todas as dúvidas e a proporcionar a você uma boa estada!
Acredito, sim, piamente, que dentre eles há gente que deseja realmente isto, gente do bem, e coisa e tal. Mas não acredito em mim mesmo se eu precisar de alguém que me motive a, por exemplo, deitar numa banheira de ofurô com uma caipivodka nas mãos disposto a só sair dali quando o dia escurecer. Sim, é o meu modelo de férias: fazer absolutamente nada.
É claro que, fora das férias, há aqueles que fazem este papel de motivador, e aí devemos incluir todo e qualquer departamento de recursos humanos com mão-de-obra ociosa. É batata: bastou a folha de pagamento fechar antes do previsto e ter gente de bobeira no RH que logo aparece um evento no qual, por meio de uma música, nós funcionários aprenderemos que deixar pneus se enchendo de água da chuva pode alimentar o mosquito da dengue – ou que escovar a língua também previne doenças.
Você é basicamente um desmotivado, acreditam os gênios do RH. E tome programas de motivação, de “incremento” ou de “empowerment”. Ora, eu não consigo ver motivação maior para um funcionário do que a perspectiva de perder o salário e o emprego – mas ao mesmo tempo sei que cientificamente esta motivação pouco produz de bom. Logo, motivar é mais ou menos como fazer uma cosquinha do bem, daquela que não causa falta de ar. Motivar é apenas fazer o cara levantar da cama. Tocar uma campainha pode ser um puta programa motivacional. Tocar a campainha e sair correndo (como eu já fiz muito) pode ser o melhor de todos, dependendo de quem sair correndo da casa com um facão para te pegar.
Agora, repare que não tem RH ou nada parecido que tentem te motivar para o que realmente importa. Não há folders lembrando que eu tenho de consertar o cabideiro do armário, quebrado há 10 dias, ou musiquinha me instigando a sair correndo para o supermercado para comprar sabão em pó. Aí essas coisas vão ficando para trás, as prioridades vão sendo abandonadas, até que um dia você perde o saco para tudo.
O Henfil uma vez disse: inspiração é um doberman rugindo atrás de você. Sim, ele quis falar também de motivação. Eu ainda acho que a melhor história de motivação é aquela anedota velha e rápida, na qual o sujeito tem o programa de emagrecimento de R$ 500 e o programa de R$ 5000. Ele paga os quinhentos, e o trancam numa sala. Entra uma loura linda, perfeita, nua, com uma plaquinha pendurada:
“Se você me pegar, sou toda sua”
O cara corre como louco, sua, perde quatro quilos mas não pega a loura. Paga, satisfeito (ma non troppo) o “tratamento”, mas fica curioso com o de 5 mil. “Se o de 500 é essa gatinha, imagine quem eles colocam no de cinco mil”. Ele volta e paga o valor. Trancam o cara na mesma sala. Entra um negão enorme, com três pernas, e uma cartaz gigante pendurado:
“Se eu te pegar, te como”
Motivação é isso aí. Os caminhos podem ser diferentes, o funcionário não fica satisfeito pessoalmente em nenhum deles, e volta e meia o mais desagradável é o de maior eficiência.
Enfim, se é necessário que um motivador te faça sair do marasmo, é porque alguém da mesma equipe te fez parar antes. Pode apostar nisso.
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Este post foi ilustrado com imagens engraçadíssimas de cartazes motivacionais de uma coletânea sobre o tema:
http://villageofjoy.com/25-motivational-posters/
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E preconceito? Vamos brincar de preconceito? Vamos sim! Adivinhe aí quem foi preso pelo quê. Aposto como você vai errar muito:
http://picktheperp.com/
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