Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









31.08.09

Mamãe, agora eu sou mainstream!

O cantor – cujo nome talvez eu jamais venha a saber – está exultante em cima do palco. Feliz. Guardadas as devidas proporções, está meio Paul Simon em dia de Central Park. A guitarra é acionada a todo momento, sobrepondo-se aos outros dois instrumentistas no palco: um saxofonista ao estilo Kenny G e um tecladista que ainda faz a bateria eletrônica. A barulheira, no fim, é da pesada. Em dado momento, no fim de uma música, ele para, agradece, e, em tom intimista com a plateia de pouco mais de 2 mil pessoas, convoca:
- Eu queria agora que vocês cantassem junto comigo algo muito especial. Mas tem que ser junto, tá?
A plateia arrebatada, concorda. E ele dispara “Pais e filhos” com a garganta aberta:
- É PRECISO AMAAAAA-AAAA-AAAAAR, AS PESSOAS COMO SE NÃO HOUVÉSIAMANHÃ


O palco iluminado do Roupa Nova, a banda mais mainstream do mundo

Quando ele menciona que é um grão de areia, para tudo e o show volta. Qualquer um, no entanto, entende e mata a charada: ele só estava emocionado e precisava falar algum verso que tivesse “amar” e “pessoas”. A cena, no entanto, não aconteceu na época em que “Pais e filhos” foi lançada, e sim na sexta-feira passada, dia 28 de agosto, na Fundição Progresso, casa de shows do Rio de Janeiro, na abertura da apresentação do Roupa Nova. Eu e Marcele estávamos lá, acreditem. Muita gente diria: “Nem de graça”. Bom, foi de graça. E a gente não recusou. No fim, nos divertimos muito.
E eu pude berrar, em voz bem alta: “Mamãe, eu sou mainstream”.
É preciso amar? É. Sem dúvida. A palavra “amar”, nas minhas contas pouco compromissadas, foi pronunciada pelo menos 900 vezes na noite carioca da Fundição. No show de abertura, um típico músico (justiça seja feita: um BOM músico) de espaço menor, ocupando um palco com grande público, tocando tudo, mas tudo o que há de mais manjado e jukebox do rock brasileiros nos últimos 30 anos.

Quando entra o Roupa Nova, quem é de fora, como eu, fica até sem jeito diante da total intimidade deles com o público. Voltavam de “Abbey Road”, o que tornou tudo ainda mais pitoresco: tanto no vídeo com bonecos dos músicos apresentado no início do show quanto nas conversas e clipes que se seguiram, a impressão que se tem é que o Roupa Nova foi a Londres em um balão ou mesmo em uma louca aventura a bordo de uma galera com remadores e um númida batendo em um tambor. Os ótimos músicos do Roupa Nova falavam de Abbey Road com o deslumbre de alguém mostrando os joguinhos de seu novo Playstation 2... em 2009. Se para o público seleto e hype o estúdio onde os Beatles gravaram Sgt Pepper's e Abbey Road já é tão manjado que é até tema de seriado da Sony, bom, o Roupa não tem nada a ver com isso. Seu público tem TV a cabo, mas assiste o BBB. Tem internet mas adora o Orkut. E não troca Friends ou Seinfeld pela novela das oito – tanto é que todos sabem todas as letras e cantam junto o tempo todo. Difícil haver show mais animado – a não ser talvez o do Los Hermanos, outro show em que fãs cantam do início ao fim.
Mas, numa boa, é até sacanagem querer comparar as duas bandas. O Roupa Nova, musicalmente, é absurdamente superior. Sem demérito para o Los Hermanos.
O público era completamente misturado, uma verdadeira salada etária; filho com a mãe do lado, até avós estavam lá para cantar a música da novela – mesmo que tivesse sido a música da Viúva Porcina, como “Dona”. Quem gosta do Roupa Nova jamais vai, por exemplo, a festas que aconteçam na madrugada do dia 25 de dezembro. Quem gosta do Roupa Nova deixa o controle remoto da TV na mão da mãe.
Por tudo isso, o sucesso do cantor de abertura era inevitável. A coisa chegou a tal ponto que a produção do show iluminou toda a Fundição Progresso para o Ôôôôô-ôôô do refrão de Será, do Legião Urbana, outra tocada por ele. O cara era meio Theo Becker, na animação e na emoção dele. O público o venerava. Mas venerava a sério, não era de sacanagem. “Olha, estamos cantando coisas lindas, mas essa aqui, sinceramente, acho a mais linda de todas. Vamos cantar juntos?”. Aí entrava:
- Nadadoquefoiserá, de novo do jeito que jáfoiumdia, tudo paaaassa, tudo sempre, passará...
E as mãos por toda a plateia faziam uma onda novamente, 25 anos depois do meu primeiro show do Lulu Santos, no finado Noites Cariocas.
O delírio aumentou quando eles tocaram um hit do Nando Reis que o J. Quest popularizou. O refrão: “O amoooooor/é o caloooooor/que aqueeeece/a al-ma”. Êxtase.
Se no mundo houvesse tanto amor como num show do Roupa Nova (incluindo a abertura, claro), talvez não tivéssemos tido nem a Primeira Guerra Mundial. Ou pulássemos direto para a Segunda.
No fim da música do Nando Reis, o nosso amigo juke box dispara um verso “A tua piscina está cheia de ratos/Tuas idéias não correspondem aos fatos, o tempo não para”. E para por aí, incrivelmente. Foi quando achei que o cara era o Theo Becker, disfarçado. Faltou apenas o "Valeu, Cazuza!".
Quando a banda entra, o público já está, digamos, excitado pelas preliminares. O Roupa tem dois “âncoras” neste show: Feghali, que toca violão, guitarra, teclado e canta, e Kiko, guitarrista. Paulinho, o vocalista entrado em anos (careca e de cavanhaque, é o único a não colocar a idade no site oficial do grupo), e Serginho, o baterista cantor, são os que abrem a boca apenas para cantar. Serginho é quem faz a voz mais falsete, e faz cara de emocionado. Se pudéssemos dar um apelido, seria “Serginho, o Deflorador”: volta e meia se levanta da bateria cantando, anda com um gingado de quem diz, “nós vamos nos amar e eu prometo que não vai doer”.
E tome “Sapato velho”, “Linda demais”, para cima do público extasiado. Quando entra o piano de “Volta pra mim” todos preparam a garganta para o refrão. Atrás da gente, uma menina de uns 23 anos abraçada a um cara berra:
-EU TE AMO E VOU GRITAR PRA TODO MUNDO OUVIR, VOCÊ É MEU DESEJO, DE VIVEEEER....
Numa breve pausa, Paulinho vai para o centro do palco, é iluminado e aparece no centro do telão berrando o refrão de “À flor da pele”:
- NINGUÉM MERECE A SOLIDÃO....
Bebe-se pouco no show do Roupa Nova. Drogas? Nem pensar. O clima é de namoro no portão de casa. Pior: portão da casa onde antes de chamar a mãe da garota de sogra, você a chamou um dia de “tia”. A sensação é de que o Roupa mora em uma vila e todos os moradores estão ali. Quem está tomando conta das casas, meu Deus?
Tampouco há roupas extravagantes ou modernas, no máximos vestidos muito decotados, ousados, até. Sim: há mulher a rodo no show do Roupa Nova. Elas olham de olhos arregalados para Feghali quando ele conta que “Londres é uma cidade histórica”. “Oh, really?”, perguntaria um londrino. O problema é que Londres é realmente longe dali. Em todos os sentidos possíveis. O hype e o ecstasy londrino passam ao largo da experiência do Roupa. Para eles, o rock nem mora mais na Inglaterra, e se alguém vira as noites ouvindo música eletrônica (criando imitadores no Brasil), que se lixem. Os coroas dormiam cedo depois de umas cervejas e nem bagunçavam o hotel.
No fim, Abbey Road ficou mesmo para trás. O bis foi mesmo com um medley que começou com Sweet Child O'Mine do Guns and Roses, emendou com Have you ever seen the rain do Creedence Clearwater Revival, e quando desci as escadas da Fundição estava bombando com Stayin alive, dos Bee Gees. Sabe-se lá o que vinha depois. Fui embora porque já estava satisfeito, uma noite divertídíssima.
Eu finalmente era mainstream, depois de tantos anos tentando ser alternativo e não conseguindo!

por Gustavo de Almeida as 00:48:08

25.08.09

DJ sem frescura

agora vai!

Marco Antônio Barbosa - ou Bart, seja como for - é jornalista e, como tal, merece tanto a alcunha de sofredor quanto o mais empedernido torcedor do Botafogo. Talvez por causa dessa condição de jornalista pau-pra-toda-obra é que ele seja um DJ sem maiores frescuras: não se veste de maneira moderninha, não aparece em festas de editoras ou vernissages, não dá nomes bacaninhas para suas festas. E nem faz remixes famosos de medalhões da MPB. Enfim, Marco Antônio é um DJ dos tempos em que DJ era apenas disc-jockey, o cara que coloca o som. Não é um DJ típico destes tempos de agora, em que a rapaziada escolhe festas de acordo com quem estiver nas carrapetas (e sei lá o que é carrapeta).
Por tudo isso, Marco Antônio merece que a gente apareça lá na festa AGORA VAI! no próximo sábado. Diz ele que estará "cobrindo um buraco na programação do Espaço Marun (Catete)".
Diz ele também que vai detonar uma mistura de pop + rock + hip hop + eletrônico + whatever "de sempre". "Quem sabe, sabe, quem não
sabe pode vir para ficar sabendo"
Então, anotem aí: sábado, a partir das 23h, dia 29 de agosto, festa com o DJ Bart + special guest RENATO LIMA (College Rock Party)
ESPAÇO MARUN - Rua do Catete, 124, Catete (info: 9648 2318)
R$ 15 (com direito a R$ 5 de consumação)

PS - Calma, ele NÃO VAI tocar Belchior (eu acho). A foto na filipeta é só homenagem à figuraça do mês!

por Gustavo de Almeida as 14:14:31

Parar com o pão francês, uma decisão para toda a vida

E eis que finalmente consigo emagrecer um pouco, não a ponto de recuperar calças, mas ao patamar de conseguir amarrar o cadarço dos meus sapatos sem a sensação de estar em profundezas abissais sendo sugado por um polvo enquanto o meu snorkel aponta o fim do oxigênio. O gordo usa mais mocassim por causa disso, fiquem sabendo. Finalmente uns quilos vão embora. Não diria que comecei a ver a luz no fim do túnel. Diria que o túnel está engarrafado e um daqueles caras com um rodinho que oferecem limpeza do para-brisa me vendeu um mapa no qual é informado que o túnel tem luz no fim. Algo ainda muito tênue.
O pior é saber a verdade de sempre: o pouco que emagreci se deve ao corte do pão francês no menu. Verdade impossível de ser negada. Preciso parar em definitivo com o pão francês quentinho e que derrete a manteiga ao passarmos a faca. Não sei se existiriam paliativos, quem sabe adesivos que a gente grudasse na pele e suprisse a carência do danado. Parar com o pão francês é muito difícil e exige força de vontade e disciplina. Consigo parar por três semanas, depois acabo voltando. Quando volto, decido comer três ou quatro, como se fossem feitos de cenoura ou alface.
A melhor maneira de parar com o pão francês é formar um grupo de ajuda. Você conta a sua história, eles contam a história deles, cada um escolhe um par legal, trocamos abraços e dizemos palavras de apoio. Tais como “pão integral é legal”, “mortadela pra quê?” ou “quem sabe se jogarmos fora o miolo?”.
Uma variante terrível do pão francês é a bisnaga quente de supermercado. Aquela que você compra só porque sentiu o cheiro. O sujeito sai de casa para comprar lustra-móveis e de repente adentra com uma vareta de carboidratos que espalha farelo pelos quatro cantos da casa. Normal, a cena. Mas é uma forma de sabotar o sujeito que tenta parar com o pãozinho francês. A gente come aquilo pensando que está comendo algo mais fino, com menos miolo, etc. Mas a ideologia é a mesma: ser uma delícia que engorda de forma a não valer a pena consumir. Mesmo uma foto de uma bisnaga contém mais calorias que um aipo.
Legal é que aqui em casa Marcele nunca foi fã de pão francês. Mas há dias, principalmente fins de semana, em que ela sente vontade. E como eu estou sempre indo à rua para caminhar ou mesmo comprar jornais e revistas, ela aproveita e pede: “Traz um pãozinho”. Ela ainda não fez. Mas já planejo para o próximo fim de semana, ao ouvir o pedido, começar a tremer todo, voltar com uma cara de desespero, segurar nos braços dela, apertar um pouco e dizer, balbuciando:

- Você não vê que eu estou tentando PARAR? Heim?

por Gustavo de Almeida as 01:14:32

20.08.09

Malditos cacófatos

É vergonhoso admitir, mas apenas hoje, aos 41 anos, é que conheci a cantora Odetta. Uma jóia rara do Mississipi, que canta mistura de folk com country e blues, muitos clássicos como John Henry e Cotton Fields. Fiquei pensando por que catzo ela não é tão conhecida no Brasil e por que diabos eu nunca tinha visto um CD dela nacional.
Depois de ouvir um de seus clássicos, "Pay day at the coal creek" (Dia de pagamento nas minas de carvão), passei a entender por quê.
Maldito cacófato internacional que me privou de Odetta. Nenhum executivo de gravadora em sã consciência lançaria uma cantora que tivesse um hit com um refrão desses:

Mas vale a pena ouvir Odetta assim mesmo.

por Gustavo de Almeida as 16:29:12

Amazon: você precisa saber evitar

Esta imagem vale por mil palavras. Ou 152 dólares, fora 60 % de impostos que a gente paga para ter um produto que não iria ser lançado no Brasil mesmo.
Ou seja, 300 reais, mais 60 por cento disso....480 reais, é isso?
Eu preciso parar de ficar olhando as novidades da Amazon.

por Gustavo de Almeida as 16:21:21

O tal do Metabolismo

A balança sempre vence no fim. É a minha vida, há alguns anos. Uma luta eterna. Um filme visto e revisto milhares de vezes. A balança, no caso, é como o mocinho, o caubói bom e solitário, que depois de ser vítima de mil e uma artimanhas (sibutramina, ortomoleculares, exercícios, dietas revolucionárias), sempre vence no fim. As piadinhas, claro, sempre começam. Não faltará gente para ser criativo:

- Gustavo! Se vier a crise econômica que você está esperando, vamos todos morrer de fome, heim? Para quê tantas reservas?

E eis que me considero no ponto mais alto da minha vida de semi-gordo: com 1,60m de altura, o certo seria eu ter uns 67 quilos, dada a minha musculatura. Só que estou com tenebrosos e perigosíssimos 93 quilos. Isto significa que o "mocinho", ou seja, a balança, não só venceu como goleou e ainda saiu de campo dando banana para a torcida adversária.
Quer dizer, banana não. Banana engorda. Saiu mandando tofu. Ops. Eu é que estou tofu, na verdade.
Me falta, reconheço, um bom endocrinologista, já que todos parecem concordar que meu problema é mais de metabolismo mesmo. Tenho o metabolismo de um urso no inverno, pelo jeito. Só que os ursos têm o privilégio de dormir semanas depois de fazer apenas uma refeição. E vejam bem, um alce - "Na natureza selvagem" nos prova isso - pode ser uma refeição bem mais leve do que hamburgueres do Joe e Leo's ou pizzas da Stravaganze. Se você assar o alce em vez de fritá-lo, fica mais light ainda. Por isso, nem dá para comparar minha situação com a de um urso. Se eu pudesse dormir por uns seis meses, talvez emagrecesse o que preciso. Agora, como ficar acordado sem vontade de comer 20 pães franceses quentinhos com manteiga derretendo ou uma lata inteira de doce de leite?
Sim, eu sei que você fica acordado sem essa vontade. Acredite, eu também ficava. Mas a perda de todas as calças do meu guarda-roupa fez com que brotasse uma ansiedade mortal, daquelas que só se cura com muito doce. "Putz, com que calça vou trabalhar? Pô, preciso de uma bomba de chocolate. O cinto não deu? Caceta, o que vou fazer agora, quer dizer, o que vou fazer depois de matar essa caixa de alfajores?"
Acredite: nós gordos, somos assim. Sabemos que engorda, que é errado, mas em uma situação extrema, nossa salvação é a comida. Um dos meus maiores medos, que é o de avião, fica ainda mais agravado quando imagino que, durante uma queda livre de avião em chamas, o serviço de bordo provavelmente é suspenso. O que comer enquanto centenas de pessoas urram, berram e rezam para serem acolhidas pelo Senhor?

Outro dia eu conversava com uma amiga que tem lá seus problemas, nem tão graves assim, com o peso. E inevitavelmente se falou em reencarnação:

- O que você preferia? Voltar ao mundo rico, mas com este seu metabolismo, ou pobre e podendo comer de tudo?

- Voltaria pobre e viraria o maior assaltante de pizzarias do mundo, procurado pela Interpol e pelo FBI - respondi.

Hoje tive um reencontro com um grande amigo meu, que eu não via há uns três anos. Nos vimos de longe, durante a caminhada de fim de tarde. No encontro, ele começa com pequenos golpes de rim, fígado e baço, trabalhando embaixo:
- Cara, sabe que eu quase não te reconheço, de longe?
(Tento fugir para as cordas e fazer o clinche, mas não consigo. Ele insiste)
- Você tá gordo pra caralho!
(Eu reconheço com a expressão e o gestual de um porta-voz do Exército americano explicando Pearl Harbor)
Aí é a minha vez:
- Pois é, cara, a minha barriga é um problema, mas também sempre foi.
- É, mas não é só a barriga não. A SUA CARA está inchada também!
Não deu nem tempo de ouvir o gongo soar, na contagem já deu para ver que era nocaute.
Este tipo de situação é normal na vida do neo-gordo. Agora, isto tudo foi com um cara que eu não via há três anos. Fico imaginando garotas enfartando de rir e sujeitos de mais ou menos 41 anos de olhos arregalados ao me encontrar.
- Porra, você era tão magrinho, baixinho, e agora tá essa jamanta?????
Isso se eu encontrar gente do CEFET. Se eu achar alguém da Escola Estácio de Sá, onde estudei na infância, periga a pessoa achar que eu sou meu pai. E que meu pai precisa de uma dieta séria.
Ou, no mínimo, de reconhecer que não se pode comer churrasco enrolado com bacon (como na foto lá em cima) impunemente.

ps - Site de onde tirei a foto? Viciados em churrasco! (http://www.bbqaddicts.com/)

por Gustavo de Almeida as 01:42:47

11.08.09

A vida, este eterno recomeçar. Ou: perdi o meu aparelho de telefone celular

Perdi meu celular. Repito: perdi meu celular. E percebi que, à medida que os celulares evoluem e ganham novas funções na vida de todos nós, a frase “Perdi meu celular” ganha contornos mais graves. Um dia, “perdi meu celular” teve tanta importância quanto “perdi meu relógio” ou “não acho a chave do portão”. Hoje em dia “perdi meu celular” é algo que merece condolências. Meus amigos, inclusive, entenderam isto. Avisei a centenas de pessoas por email, inclusive para segurança delas, claro. Em grande parte dos emails de resposta o tom era sempre o mesmo:

-Que chato...mas você vai conseguir sair dessa...
-Isso é um saco, né? Mas a vida continua.
-Cara, que merda. Que merda. Bom, segue meu telefone, qualquer coisa que você precisar...

Achei sinceramente que se eu desse tal notícia pessoalmente, alguém me abraçaria dando tapas nas minhas omoplatas. Ok, tapas nas omoplatas é quase um hai-kai. Tapinhas nas costas então.
A perda do celular tem seis fases: descoberta, choque, negação, constatação, aceitação e coleta infernal de telefones que estavam na agenda. Na descoberta que o celular sumiu, você leva a primeira pancada mas é apenas para começar a procurar. Depois de 10 minutos de procura em casa, ou perto de você no escritório, você leva o “choque”:

- Ai, caceta, será que me roubaram ou eu perdi?

Aí tem mais uns 15 minutos em que você vira uma mochila na mesa e joga para o alto todos os objetos de sua casa que tenham pano envolvendo, cobrindo ou apenas cercando lateralmente. Desesperado, você abre a geladeira e o congelador. Sei lá. Depois que fecha a porta do congelador, a vítima entra na fase de negação. É quando você faz coisas idiotas como ir até o último estabelecimento comercial por onde você passou a fim de saber se alguém te devolveria um celular de 500 reais. Ou quando você anda pela rua num domingo revirando folhas de árvore no chão tal e qual um mendigo procurando resto de comida. É, foi o que eu fiz.
A verdade é que ninguém devolve celular. E isto mostra a que ponto nós chegamos. Por essas e outras que na última vez em que perdi o celular pensei em criar um sistema parecido com os de segurança para veículos, aqueles que travam o carro todo 10 minutos depois de roubado. Só que no caso de celular, seria uma explosão. Uma baita explosão, com estilhaços. Mas, claro, acionado pelo dono. A gente é que julgaria se o cara que pegou o celular estava com a intenção de aguardar ligação do dono para devolver.
No caso do meu, o cara desligou rapidinho. E aí seria assim: ligo a primeira vez, toca, toca e ninguém atende. Ligo a segunda, está desligado. BUM! Tudo pelos ares.
No próximo celular que eu comprar, farei este adesivo: “Caro senhor: este aparelho contém um explosivo acionável à distância. Caso queira evitar uma explosão, atenda à ligação do dono”.
Gostaria de fazer uma estatística: quantos devolvem? Qual a porcentagem de gente que não se deixa seduzir pela câmera ou sei lá, pelo gravador, e realmente devolve? Garanto que é mínima. É a nova crise ética. Pode valer até novela das oito na Globo. Imagino o texto do Roberto da Matta (ou similar) no dia seguinte ao da estreia: ”Depois de Odete Roitman, dos marajás e dos sem-terra, os novos vilões do imaginário social brasileiro na Vênus Platinada são os que acham aparelhos de telefone celular e não devolvem”. Por outro lado, aqueles que devolvem tendem a ser marginalizados. “Você devolveu o celular do cara? Você se acha melhor do que alguém?”, ouviria o incrédulo praticante do bem.
Bom, no fim das contas, passei pela fase da aceitação (não sem antes berrar uns 300 “fudeu!” pelas janelas de casa) e finalmente cheguei à da coleta infernal de telefones que estavam na agenda. Este é um momento que, apesar de infernal, pode surpreender. Gente que antes só te dava o tel do trabalho te enviando o de casa. Gente que nunca falou comigo por telefone me mandando todos os contatos. E gente que eu nem sei quem é me desejando pronto restabelecimento (de ter perdido o aparelho) e mandando os contatos, claro.
Como a Marcele está com amigdalite e não pode sair de casa, não pudemos ainda comprar um aparelho novo – já que tudo, sei lá por que razão, está no nome dela. A razão eu sei: uma daquelas regras estranhas de “fidelidade”. Mas a regra, impossível entender. Sei que está tudo no nome dela e ela tem que ir junto. E a Marcele adoeceu justamente agora.
Sem aparelho, me resta anotar na velha e boa agenda de papel todos os telefones enviados. Não são poucos. Estão todos anotadinhos. Penso inclusive em não passar nada para a agenda eletrônica do telefone. Isso. Nada, nada. E aí, me valer do velho método: telefonar para quem estiver perto de minha agenda e pedir para a pessoa dar uma olhada em um número para mim.
Sempre funcionou. Não me venham dizer agora que este método não é “digital”.

por Gustavo de Almeida as 03:03:14

6.08.09

Obrigado, John Hughes

planestrains

John Hughes, que partiu deste mundo nesta quinta-feira 6 de agosto, nos deu muitos filmes inúteis e sem graça nos últimos 10 ou 15 anos. Mas sua memória deve ser reverenciada sempre por ser o papa da “Comédia Tela Quente”, aquele filme que estreava na segunda-feira à noite na Globo e depois ia para a Sessão da Tarde com “uma turma do barulho aprontando mil e uma confusões”.
Claro, John Hughes era muito mais do que isso: nos fez disfarçar o choro em Planes, trains & automobiles, de 1987. Steve Martin tentava voltar para casa a tempo para o Dia de Ação de Graças americano, John Candy – que hoje sabemos que era genial – fazendo o papel de um vendedor de argolas para chuveiros que...não tinha ninguém. Esta excelente comédia, lançada aqui no Brasil com o nome “Antes só do que mal-acompanhado”, tinha esse fecho lacrimoso para dar aquela mensagem final “capriana” do bom cinema americano: a família, a família e a família. Bem disse o Roberto Da Matta há uns 20 anos: “Democracia se faz com filmes de Frank Capra”.
Devemos a Hughes os momentos inigualáveis de “Curtindo a vida adoidado” (abaixo, um trailer modificado e muito divertido), a redenção de Twist and shout, as melhores gags de Esqueceram de mim. Devemos a John Hughes o surgimento de Molly Ringwald em “Gatinhas e gatões (Sixteen Candles) , “A garota de rosa shocking” e Clube dos Cinco.

John Hughes não dirigia filmes desde “Curly Sue, a malandrinha”, preferindo apenas escrever ou produzir.
Ele captou a alma do jovem de classe média baixa americano: Martin e Candy, apesar de adultos, são dois adolescentes quando dividem a mesma cama em “Planes...”.
Neal (Martin): Del, pór que você beijou minha orelha?
Del (Candy): Por que você está segurando a minha mão?
Neal: Ué, onde está sua outra mão?
Del: Entre dois travesseiros...
Neal: NÃO SÃO TRAVESSEIROS!!!

Eles se levantam e começam a discutir resultados de...futebol! Um diálogo 100% John Hugues!
São legados inesquecíveis. Por mais que a história do cinema seja um registro em domínio de pessoas que não admitam tais tributos, milhões e milhões terão sempre cenas inesquecíveis proporcionadas por Hughes em “Curtindo a vida adoidado”. Ver, por exemplo, o Charlie Sheen fazendo uma ponta, contracenando com a Jenniffer Grey, não tem preço. Sheen é um cara preso na delegacia onde Grey, irmã de Ferris, tenta saber do paradeiro da “turma que apronta mil e uma confusões”.
Sheen: - Drogas?
Grey: - Não, obrigado, sou careta.
Sheen: - Não, eu quis dizer, “você está aqui por causa de drogas”?
Grey: - Você está aqui por quê?
Sheen: - Drogas.

Hughes, é certo, não entrará em nenhum panteão dos grandes cineastas. Mas tem lugar garantido como ídolo de pelo menos duas gerações da era da TV e do VHS. Que descanse em paz!

por Gustavo de Almeida as 18:52:36

Apenas o fim: uma reflexão

marcelogarcia

Marcelo Garcia foi secretário municipal de Assistência Social no já saudoso período de Cesar Maia. Ele tem uma newsletter diária - você pode assiná-la pelo endereço dele, http://www.marcelogarcia.com.br e passar a receber pensamentos e reflexões diárias, não só sobre política ou gestão em assistência social, mas sobre as nossas vidas e os nossos desencontros. Garcia escreve também uma coluna no site YouPode.
O texto recebido hoje, quinta-feira, dia 6 de agosto, me comoveu em particular. Marcelo descreve uma cena fácil de ser "vista". E um sentimento ainda mais "tangível" - principalmente depois que ele trocou de avião e deixou de embarcar no fatídico vôo 447 da Air France. Marcelo trocou de avião e pagou R$ 800 do bolso dele só para poder ir de um jeito mais conveniente e confortável, queria ter mais tempo até chegar ao aeroporto. E nasceu de novo.
De lá para cá, seus textos têm a expressão de quem está em pleno e explosivo parto. Vale muito a pena:



MORTES E O FIM
por Marcelo Garcia

06/08/09

1- Esta semana fui a um velório de 3 jovens que morreram em um acidente de carro. Eram 3 primos. Dois, filhos de uma mesma mãe.

2- Ao chegar lá eram 3 caixões um ao lado do outro e uma multidão de pessoas.

3- Entrei e abracei minha amiga (tia dos jovens) e o pai de dois deles.

4- Naquele momento vi um pai que deixou de ser pai, uma mãe que deixou de ser mãe, uma avó que deixou de ser avó e uma tia que também estava deixando de ser tia.

5- A morte faz com que, de forma imediata, vínculos sejam rompidos entre uma pessoa que até dois dias atras, por exemplo, fazia parte da minha vida e do meu cotidiano. A promessa dita pelo padre de que todos vão se encontrar na eternidade não me acalentava a alma. Na verdade o que via naquele velório era o fim de 3 histórias. O fim do futuro de relações. O fim da convivência. O fim. Apenas o FIM.

6- Fiquei pensando na finitude. Ela existe e é concreta. O fim nunca avisa quando vem, mas sabemos que vem. O fim significa sair de uma história. Sair de relações. Sair do presente e nunca ter futuro.

7- Olhava a família da minha amiga e via dor. MUITA DOR. Olhava para o pai, mãe e avó dos jovens e via o quanto o FIM daqueles jovens significava mudança total na vida deles próprios pois rotinas serão mudadas. Saudades serão construídas. Dores serão vividas por muitos e muitos anos. Se é possível esta dor um dia passar.

8- No velório estavam presentes muitos jovens amigos dos jovens que encerraram sua história na vida. Eles estavam muito abalados. Estavam surpresos com a idéia de um fim. Estavam confrontados com uma dor que talvez ainda não tivessem vivenciado.

9- É claro que fiquei pensando durante todo o resto do dia na possibilidade de minha própria história findar e eu ter deixado muitas histórias mal contadas e mal vividas. Fiquei pensando que o mais importante na vida é pensar no futuro e por isso fazer uma história legal de vida para que de fato se possa ter uma bela história para contar.

10- Minha amiga deixou de ser tia. Eu me confrontei com o FIM da vida e me lembrei que eu não posso esquecer é de viver. Preciso trocar a caneta e dar uma nova direção para minha história.

11- Viva a VIDA.

11- O fim virá para todos, mas o que não dá para esquecer é que a história das nossas vidas está sendo vivida. E é apenas isto que deve importar.

por Gustavo de Almeida as 16:22:39

4.08.09

Me dê motivo...

Eu tenho realmente um problema com livros de auto-ajuda. Não é puro preconceito intelectualóide, nada disto. Não tenho medo de parecer burro ou alienado ao fuxicar uma pilha de livros do Içami Tiba ou mais um da série de Mitch Albom, A Última Grande Lição. Vejam: tenho certeza de que estes livros realmente ajudam alguém. Mas creio que ajudam quem realmente já está além de qualquer ajuda humana e precisa de auto-convencimento. E no mais, não faço a mais remota idéia sobre que assunto pode estar sendo abordado em um livro que se intitule “Quem mexeu no meu queijo?”.

motivo01

Aqui na casa do Eclipse deve ter alguns livros de auto-ajuda, reconheço. Mas nenhum do tema, dentre todos eles, que mais me apavora: motivação. Sim, tenho verdadeiro terror diante de pessoas que foram pagas ou convencidas a motivar aqueles que o cercam. Se estivermos em uma colônia de férias ou coisa parecida (embora pelos próximos cinco anos dificilmente você vá me flagrar em uma colônia de férias, digamos, este é o prazo mínimo), saio correndo quando aparecem aqueles sujeitos magros, de sorriso alvo e branco, roupa limpa e bem passada, dispostos a tirar todas as dúvidas e a proporcionar a você uma boa estada!
Acredito, sim, piamente, que dentre eles há gente que deseja realmente isto, gente do bem, e coisa e tal. Mas não acredito em mim mesmo se eu precisar de alguém que me motive a, por exemplo, deitar numa banheira de ofurô com uma caipivodka nas mãos disposto a só sair dali quando o dia escurecer. Sim, é o meu modelo de férias: fazer absolutamente nada.

MOTIVO02

É claro que, fora das férias, há aqueles que fazem este papel de motivador, e aí devemos incluir todo e qualquer departamento de recursos humanos com mão-de-obra ociosa. É batata: bastou a folha de pagamento fechar antes do previsto e ter gente de bobeira no RH que logo aparece um evento no qual, por meio de uma música, nós funcionários aprenderemos que deixar pneus se enchendo de água da chuva pode alimentar o mosquito da dengue – ou que escovar a língua também previne doenças.

MOTIVO091

Você é basicamente um desmotivado, acreditam os gênios do RH. E tome programas de motivação, de “incremento” ou de “empowerment”. Ora, eu não consigo ver motivação maior para um funcionário do que a perspectiva de perder o salário e o emprego – mas ao mesmo tempo sei que cientificamente esta motivação pouco produz de bom. Logo, motivar é mais ou menos como fazer uma cosquinha do bem, daquela que não causa falta de ar. Motivar é apenas fazer o cara levantar da cama. Tocar uma campainha pode ser um puta programa motivacional. Tocar a campainha e sair correndo (como eu já fiz muito) pode ser o melhor de todos, dependendo de quem sair correndo da casa com um facão para te pegar.

MOTIVO092

Agora, repare que não tem RH ou nada parecido que tentem te motivar para o que realmente importa. Não há folders lembrando que eu tenho de consertar o cabideiro do armário, quebrado há 10 dias, ou musiquinha me instigando a sair correndo para o supermercado para comprar sabão em pó. Aí essas coisas vão ficando para trás, as prioridades vão sendo abandonadas, até que um dia você perde o saco para tudo.

MOTIVO93

O Henfil uma vez disse: inspiração é um doberman rugindo atrás de você. Sim, ele quis falar também de motivação. Eu ainda acho que a melhor história de motivação é aquela anedota velha e rápida, na qual o sujeito tem o programa de emagrecimento de R$ 500 e o programa de R$ 5000. Ele paga os quinhentos, e o trancam numa sala. Entra uma loura linda, perfeita, nua, com uma plaquinha pendurada:
“Se você me pegar, sou toda sua”
O cara corre como louco, sua, perde quatro quilos mas não pega a loura. Paga, satisfeito (ma non troppo) o “tratamento”, mas fica curioso com o de 5 mil. “Se o de 500 é essa gatinha, imagine quem eles colocam no de cinco mil”. Ele volta e paga o valor. Trancam o cara na mesma sala. Entra um negão enorme, com três pernas, e uma cartaz gigante pendurado:
“Se eu te pegar, te como”
Motivação é isso aí. Os caminhos podem ser diferentes, o funcionário não fica satisfeito pessoalmente em nenhum deles, e volta e meia o mais desagradável é o de maior eficiência.
Enfim, se é necessário que um motivador te faça sair do marasmo, é porque alguém da mesma equipe te fez parar antes. Pode apostar nisso.

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Este post foi ilustrado com imagens engraçadíssimas de cartazes motivacionais de uma coletânea sobre o tema:
http://villageofjoy.com/25-motivational-posters/

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E preconceito? Vamos brincar de preconceito? Vamos sim! Adivinhe aí quem foi preso pelo quê. Aposto como você vai errar muito:
http://picktheperp.com/

por Gustavo de Almeida as 00:57:24

2.08.09

Inteligência musical

Bobby McFerrin estava meio sumido, reconheça-se. Pelo menos aqui em terra brasilis o único traço de sua existência era o célebre "Don't worry, be happy", talvez a primeira Música de Auto-Ajuda da história da humanidade - o que nem por isso a torna uma música ruim.
Em função deste sumiço de mr. McFerrin, fiquei ainda mais surpreso com esta rápida workshop do homem no World Science Festival, um evento de ciências voltado para o público comum bancado em grande parte pela Fundação John Templeton.
Bobby demonstra que nosso cérebro tem certa "programação" com notas musicais. E que depois que entramos numa pentatônica é difícil sair dela - e devo lembrar que o blues, meus amigos, é 100% escala pentatônica.
Será que depois da "inteligência emocional", vem aí a "inteligência musical"? Reparem como o público acerta direitinho a nota que Bobby ainda não havia ensinado!

por Gustavo de Almeida as 12:04:14







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