Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









1.07.09

Sarah e Ricardo, por Sarah. E churrasco argentino, por Ricardo

Sobre pia bagunçada

Ah, as coisinhas asquerosas que aparecem na cuba da pia... Fica aquela maçaroca polimórfica policromática agarrada no ralo e, claro, chamo Ricardo para meter a mão naquilo. Eu também já cansei de dizer que pia não é lugar de jogar restos e que é só limpar o prato com o papel toalha antes... Mas já perdi a batalha. Mais, Ricardo enfia aquela mãozona ali sem nenhum pudor e ainda me diz: “Listo”. Dá ainda umas bombadas com o desentupidor só para garantir e fica me olhando com cara de espanto, rindo de soslaio do meu ataque de nojinho.
E eu tenho minhas manias, sabem? Lavo primeiro os copos com bombril limpinho e depois os pratos e vou arrumando tudo no escorredor em ordem de tamanho (coisa de alemão, yeke).
Por último deixo as panelas e finalizo limpando a cuba da pia e jogando água fervente. Tipo esterilização de mamadeira. Na primeira vez que me viu fazer isso ficou me olhando apalermado: ?!?!?!?!... Ele gosta mesmo é de lavandina (água sanitária), tudo acaba na lavandina, que tudo limpa e tudo cura (me dá um horror danando pensar que é capaz de banhar a mão ferida na lavandina).
Depois ele foi se acostumando e até gosta do ritual do 'depois das festas', em que estico uns panos de prato limpinhos, branquinhos na mesa da sala e vou botando as taças de vinho, os talheres, os pratos com o monograma RGL dourado do bisavô dele prá secar. Fica igual um exército de porcelana, lindo, limpinho, brilhando... Prato cheio para hospício, né?

Sobre sibutramina e a pizza do Ricardo
Eis que encontro o 'post' com a pizza do Ricardo e, puxa vida, quantos comentários sobre a Sibutramina! Mas, meu povo brasileiro, a sibutramina atua no sistema nervoso central e no fundo, é bastante semelhante à anfetamina! Deixem os medicamentos de ação no sistema nervoso central de lado, deixemos o haldol, o fenergan, o benzodiazepínico de lado junto com as anfetaminas e sibutraminas! Vamos para Pasárgada! Lá eu sou mulher mulher de pizzaiolo amador! PS - A pizza estava realmente linda, mais gostosa do que linda!

Sobre mortes de ídolos
Eu seguramente não vou me lembrar. Vou me lembrar do que eu estava fazendo, de maneira mais suave do que o 11 de setembro. Estava em casa, no quarto, “enqueueing” músicas no Winamp e “plim”: virei o rosto em direção ao corredor e falei pro Ricardo: “Michael Jackson morreu”. Assim, sem nenhuma emoção expressa na minha voz, mas pensando no dia em que Elvis morreu, que minha mãe ficou comovida como o diabo.
Tudo o que veio à minha memória foi: “Elvis”. Nem Lennon, nem ninguém, mas Elvis em Las Vegas e minha mãe escutando “Fever”. Estranhamente fiquei mais emocionada com a morte, no mesmo dia, de Farrah Fawcett, a eterna pantera sorridente. Ainda não descobri em mim o 'porquê' de Jill ser mais importante que Bad. Talvez pela lenta agonia da morte metastática, as batalhas que vão se perdendo, uma depois da outra, o esgotamento, a visão do fim, a posição fetal dos doentes terminais. Eu tenho quase um desprezo pela morte afogada em vômito, a vida desperdiçada na ponta da agulha na veia.
Tenho compaixão, mas me repele de maneira incontrolável, como um suicídio em prestações. Me comove a morte lúcida do lutador que perde, perde, perde e mantém o brilho nos olhos, aquela luzinha da vida, aquela fresta de esperança que se apaga no dripping endovenoso, ironicamente - penso agora - na mesma morfina, sempre; no alívio da morte, para um ou para outro.
Saudades dos meus que se foram. E uma lástima infinita do meu amigo Alexandre B. que lutou até o fim contra a 'indesejada das gentes' e foi perdendo devagarinho e perdeu todo o futuro de bom pai de duas meninas: fica o seu sorriso inteligente, o amigo que sequestrou meu livro Cem Anos de Solidão e devolveu a contragosto.

Sobre músicas longas e boas

Fiquei pasma ao saber que meu filho gosta de Hurricane. Eu sei a letra de cor! Me escreveu à mão, com sua caligrafia canhota um amigo, lá no campus da Praia Vermelha, estudante de comunicação, já falecido.
Lembro de alguns clássicos do rock progressivo que não acabam nunca: Genesis (The Battle of the Epping Forest - Selling England by the Pound)e Rick Wakeman (The Six Wives of Henry VIII). No repertório erudito há belíssimas composições como o Double Violin Concerto - Bach. A música é maravilhosa. Como é que alguém nasce com a melodia na alma? Dentro da cabeça?

Sobre seriados e Jack Bauer

"Pelamordedeus", determinada pessoa fica esperando e dá 'graçasadeus' porque dia de Jack-24 à noite é meu dia de plantão. Diz que vai se empazinar, ver Bauer e dormir. Hosana!

Sobre pedacinhos de bolo
Eu não posso comer doces, quer dizer, não posso abusar dos doces. Tenho aquela coisa estapafúrdia, injusta, épouvantable, que se chama 'curva glicêmica alterada', um eufemismo para 'escrito no seu código genético' ou ' escrito nas estrelas da marcha do Apocalipse' (Ricardo me ensinou que se a Santa Sé pega a gente, ele é quem vai para a fogueira, ele é o hegere, um bom cristão envolvido pelos braços da bruxa judia) ou 'pré-diabete'. Uma calamidade...
Ontem mesmo cheguei em casa alucinada por um tantinho assim ó, do tamanho da minha unha do dedo mindinho de brigadeiro-de-prato (aquele quentinho que de preguiça não se enrola) da véspera. Pois pasmem! Ricardo mentiu - MENTIU - que tinha visto uma barata passar em cima, mentiu que nem mulherzinha, disse que viu (e jurou pelos cravos da cruz) que tinha visto uma cascuda enooorrrmmmeee cruzar a cozinha e provar do brigadeiro quentinho ainda. E eu não comi. Ameaçou 'passar no lixo' - e passou. Ameaçou me deixar de castigo, sem cutucar ele um mês, ameaçou fazer coisas inimagináveis, chantagens horrendas às quais tive que ceder. E, como é que pode, ficar sem minha dose de chocolate com açúcar?

Sobre a ausência sentida
Quando Ricardo vai visitar a família sem mim, fico que nem bicho do mato, recolhida em casa. A primeira coisa que eu faço é fechar, lacrar todos os vidros das janelas e as copacabanas, porque “tenho medo da rua”. Comida é qualquer coisa que saia da lata, começo a roer pão duro! E nenhuma gota d'água nas plantinhas, pois  ficam para além do meu domínio, no peitoril, do lado de fora do vidro hermeticamente fechado. Os pés de orégano e de manjericão ficam sequinhos, retorcidos que nem rabinho de porco... E passar pelas lagartixas que morgam no teto e no umbral de entrada? Essas coisinhas temíveis, nojentas, feias, sem Ricardo para caçar uma ou outra destemida que invade a casa? E as cascudas? A premonição que há cascudas em casa e eu sem meu batedor? Ai, e se são voadoras? Ah não... E quando ele volta, a casa é casa outra vez, e não território inexplorado, deixa de ser filme de horror e de ficção científica no primeiro sorriso que ele dá quando me pergunta: “No aguastes mí alba haca? El orégano está medio muerto!”. E improvisa uma espécie de terapia intensiva com muita água e abre as janelas e me dá de comer e de beber.

Sobre o calor infernal
Ai, o verão... Em casa se dizia que há, apenas, duas estações no Rio de Janeiro: o verão e o inferno. Mas queria comentar mesmo é essa coisa de bicho-grilo, odiável. E olha que eu tenho um pezinho hippie, nascida em 1964, tenho, sim senhor, a calça boca-de-sino no sangue, paz-e-amor estampado no peito. Mas as frases bicho-grilo... Ah, a filosofia natureba-haxixiana... Em 1983, ano de mochila nas costas e pé na estrada com os amigos, por duas vezes tive um a acesso de fúria engolida (aquela fúria que é melhor deixar implodir antes de sair pelas narinas). E sempre com a mesma pessoa, extremamente egoísta (pois na verdade é isso que é).
Um calor infernal, dentro do quarto:
"***, dá prá abrir a janela?" (E fulana sentada do lado da janela).
"Ah, não sei se tô a fim...
E depois, um perrengue danado para chegar no Egito, dinheiro curtíssimo, caminhando até as pirâmides, descendo pelo labirinto fedorento (os faraós que me desculpem, mas as pirâmides cheiram a urina, cheiram como Copacabana no dia 1º de janeiro), quase quase
chegando na câmara principal, um calor infernal de agosto, a mesma *** para, empaca, quer dar meia volta e comunica:
"Não sei se tô a fim de descer"...
AAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRGH FDP!
"VAIS DESCER NA PORRADA"

Sobre a bebida

Lembro bem, amamentando meu filho, estava alucinada para tomar um pouco de Bailey's ou de Mozart... Assim que pude virei uma garrafa de Mozart, interirinha, tomando do gargalo, rindo, rindo que nem Ismália na torre..

Sobre o churrasco

Ah, o churrasco descrito é o brasileiro. Agora, Gustavito, imagina o que é o churrasco, o tal 'asadito' lá no Bosque de Pinos, La Plata, o 'legítimo argentino'...
Naquela rua que tem um bosque da família do meu criollo (que está mais para Pavarotti do que Gardel) rolam uns churrascos. Tem uma área perto da casa grande, sem grande frescura ('churrasco de macho'), a área del asado. É que também tem a área da roda de mate (uma cuia e um 'canudinho'- se ele me pega falando 'canudinho', tem um ataque de pelanca, uma treco quente amargo, cheio de baba dos outros, um nojo).
Na área do assado, não tem quase nada.  É mais um espaço livre entre as árvores onde fincam um animal crucificado e costelas e chorizos e morcillas (que eu confundia com murciélagos). Sempre carne vermelha, de vaca; às vezes um cordeiro, a via Apia de Espartacus. Tudo fincando no braseiro que fica no chão. è um ritual 'gaucho'. E como são muitos hombres, todos machos (Ricardo tem um monte de irmãos, um monte de cunhadas, um monte de sobrinhos, um monte de tias velhíssimas, um monte de primos e primas e agregados, um monte de ex-qualquer coisa e um só cunhado, coitado, marido da irmã, que por invenção e ciúmes inventaram que é manco e de pecho hundido! E o rapaz é ruivo ainda por cima!).
Ah, sim, aquele monte de gente 'macho' rodeando o asado, com ar de profundo conhecimento de causa... Um dos meus cunhados se veste todo de preto com rabinho de cavalo, parece até saído de Bodas de Sangre, de Saura... Não tem farofa, mas tem maionese e salada. E uma tonelada de sobremesas açucaradas. Começa cedo e não acaba nunca. E vinho, muito vinho. No fim estão todos meio borrachos, hablando cualquer pelotudez! Ah, e choram! C-H-O-R-A-M de felizes e de tristes, esses nostálgicos de tango, a melô da dor-de-cotovelo. Convidados, Marcele e Gustavo, para um verdadeiro e despretensioso asadito no Bosque de Pinos, La Plata, Argentina.

Sobre este último, Ricardo respondeu. O texto é primorosto, uma crônica digna de Soriano ou Fontanarossa (esportivo):

Mulher falando de asado é como homem falando de sutiã. Não apenas pelas incompatibilidades estéticas, mas pelas incumbências sociais. Poucas vezes uma mulher é convidada para levar o marido, mas quase sempre é o homem o "convidado" que leva a família, circunstancialmente estruturada com mulher e filhos.
E digo "convidado" e não convidado, pois você tem de ser meio boludo para ser convidado e não parte da asado-troika que organiza o negócio. Pois o asado é, primeiro do que tudo, uma vontade de ser-nos-outros, uma liturgia do relacionamento masculino.
Uma mulher, eventualmente, fica rondando nas redondezas da parrilla (churrasqueira), que inclui o fogo, a churrasqueira, a mesa de apoio logístico (onde você coloca a carne, a panela com chorizos e morcelas em hidratação - água, o sal, o chimichurri, etc), e a mesa de apoio social (que as vezes é a mesma da anterior, limpa). Essa última estrutura é fundamental, e de acesso restrito NÃO apenas às mulheres, mas também são mal vistos os "convidados" (boludos que ninguém sabe direito porque foram convidados) e aqueles circunstantes que não acompanharam o assador desde a primeira hora, brindando proveitosos conselhos sobre a temperatura ótima das brasas, a oportunidade de botar o chimichurri, e a conveniência de assar primeiro do lado do osso.
Verdadeiramente, se o visitante for corno ou com a masculinidade em dúvida (como acontece com os "convidados"), sugere-se enfaticamente abster-se de visitar a zona da parrilla, pois os assuntos tratados ali, com baita frequência são coisas desse tipo.

A zona da parrilla configura o Círculo Áulico, ao qual as mulheres não parecem dar demasiada importância, interferindo de quando em vez, para dispensar beijos encendidos demais ao coitado da roda vitivinícola. Com frequencia, a moça impertinente é despedida com roucas vozes, ou o marido pressionado para afastar as cenas impróprias dessa região do assado.
Não é preciso dizer que o que você come na mesa de apoio social não fará parte da travessa popular que é apresentada na mesa principal.
Exceção sistemática (isto é, é usual): na mesa de apóio social são preparados os choripanes (chorizo+pão) invenção tão argentina quanto o doce de leite, mas salgada. Aos efeitos de salvar espaço na mesa central, é frequente que esses choripanes sejam distribuídos por antecipado às crianças. Um sucedâneo muito bem sucedido é o morcipan, morcela em sandwich (sempre pão francês!), que faz as delícias de crianças e adultos, e vampiros esmoleiros.
Miscelânea: vinho tinto (os “convidados” às vezes bebem blanco), provisão inacabável de pão, às vezes salaminho (antes da cocção das carnes), queijo, e quitutes de mão.

por Gustavo de Almeida as 11:11:24
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