1.07.09
Vizinhos
- Deve ser italiano, olha o jeito dele. Tem físico de quem gosta de massas – eu dizia.
- Não, Gustavo – retrucava a Marcele – Pode ser espanhol, ouvi ele falando outro dia.
- Marcele, é italiano, ouvi o cara cantando umas árias ou algo parecido! E ele até parece o Pavarotti quando novo, repare, a barba e tudo o mais.
- Eu acho que pode ser espanhol. Ou argentino. A moça é brasileira.
- Ah, não, a moça é brasileira. Não muito, diga-se, mas é brasileira.
- “Não muito”?
- É, ela tem algo meio balcânico, meio cigano, sei lá.
Passaram-se uns dias, até que Marcele chegou, empolgada:
- É argentino! É argentino!
- Legal! Como você descobriu?
- Ele tem uma caneca do Boca na janela!
- Show! Ainda é o “nosso time”!
Claro que “nosso time” é só uma licença poética, afinal, todo o mundo sabe que “nosso time” aqui no Eclipse é apenas o Flamengo. Mas o fato é que quando voltamos de nossa inesquecível viagem a Buenos Aires em 2006, passamos meses em lua-de-mel com a Argentina e particularmente com o Boca Juniors. Para mim, a razão especial: o Boca faz com ele próprio o que o Flamengo já deveria fazer há uns 30 anos e não faz. Ou seja, investe na mística, na paixão, e monta um senhor museu com um senhor cinema 360 graus, com um filme comovente, maravilhoso, em que você começa ouvindo o tango triste e os latidos dos cães no bairro de La Boca e termina dentro de um campo de futebol jogando pelos bosteros. Maravilhoso.
O Ricardo é realmente torcedor do Boca. E, olhando de perto, não parece tanto com o Pavarotti não. E tem um gosto musical muito amplo, que não se restringiria jamais às óperas italianas. Ricardo, este torcedor do Boca, e a Sarah, a de traços balcânicos, eram nossos vizinhos. E engraçado: nos quatro anos que moramos aqui, foram os únicos vizinhos que visitamos.
Sabemos que vizinhos são como parentes por temporada: não interessa se você gosta ou não, o fato é que você não escolhe mas de uma maneira ou de outra ainda tem que dar satisfação. Mas com a Sarah e o Ricardo tínhamos uma convivência muito boa.
E quando falo que nós os visitamos, digo "visitamos" mesmo, a ponto de entrar na casa, beber, comer, ouvir som, etc. Não era só questão de idade equivalente (mais ou menos) não, acho que tinha a ver com um fator de identificação mesmo: ambos os casais são difíceis de esquecer.
Outro dia uma amiga nossa falava no viva-voz do carro com uma outra amiga que a gente só conhecia de vista. Encontros casuais em festas e tudo o mais. A amiga que dirigia comentou que estava indo à cantina La Fiorentina tomar um vinho com a gente. Aí veio a resposta:
Ah, sim, aquele baixinho e aquela altona?
É – respondeu a outra, às gargalhadas. - Eles mesmos. Inclusive ouviram no viva-voz, ahahahahah
Do mesmo jeito que eu e Marcele somos realmente inconfundíveis, Sarah e Ricardo o são. Sarah é impressionismo. Ricardo é expressionismo. Sarah é cores vivas para pintar a dor. Ricardo é emoção, felicidade expressa em O Grito. Ambos saudavelmente contraditórios.
A casa de Sarah e Ricardo vivia repleta de música, vinho e felicidade. A nossa parece um pouco, é verdade, mas devemos acrescentar as televisões e os dois computadores para que a descrição seja fiel. Já na descrição de Sarah e Ricardo, vale dizer que os dois volta e meia, de noite, decidiam que estava calor e iam mergulhar na praia, voltavam como duas crianças furtivas, como a esconder um pecado de alguma autoridade maior – o síndico, talvez... - que reprovasse o gesto.
A coisa toda começou assim: era noite de réveillon (de 2006 para 2007), eu e Marcele estávamos saindo para jantar na casa de minha mãe, a poucos passos. Aí, vimos os dois meio enrolados no apartamento. Porta aberta. A Sarah:
-Vocês sabem como sair daqui?
- Daqui? - respondi, estranhando um pouco a pergunta. Lentidão mental da minha parte.
- Sim, do bairro, se tem algum táxi para Copacabana.
- Ah, tem o ônibus que vai direto, está toda hora passando. Agora, vocês podem pedir para a cooperativa daqui. Demora mas vem. Vocês tem o telefone?
- Não! - responde a Sarah.
- Anote aí. Anotou? Bom, faz o seguinte: usem o nosso cadastro. Anote nosso telefone e passe para eles, fica mais rápido o atendimento. Eu sou o Gustavo e ela é a Marcele. É só vocês dizerem que é a gente, ok?
- Valeu! - disse a Sarah.
Depois disto, uns meses se passaram até que houvesse novo contato. Que foi o convite para uma pizza portenha, massa e tudo o mais feito pelo Ricardo. Um baita azar: a gente tinha detonado nada menos que um empadão de frango na casa da minha mãe. E devo dizer o que eu já disse para a Paula Clarice: empadão de frango da minha mãe é evento raro e de mega intensidade, tal e qual cometa ou eclipse solar. Mas claro que não poderíamos recusar peremptoriamente e fomos lá provar a pizza. E era magistral. “Teremos problemas com esses dois por aqui”, eu disse à Marcele logo que saímos do apartamento deles. “É”, concordou ela. De fato, um sujeito que faz pizza como o Ricardo não pode morar perto de duas pessoas que fazem dietas mensalmente.
Eu devia ter dito a Deus que eu tava brincando, porque logo depois de uma noitada de vinho e vários aperitivos excepcionais na casa deles, veio o anúncio:
-O proprietário pediu o apartamento! Vamos ter que nos mudar – disse a Sarah.
-Que merda! Mas não tem como morar no apartamento vazio dos fundos?
-Ah, não. Se for para morar nos fundos, a gente mora nos fundos de qualquer outro lugar, e mais barato. O que nos conquistou aqui foi a vista para o mar, o ar chegando.
Faz todo sentido, o argumento da Sarah. Enfim, eles se mudaram mas volta e meia nos falamos, principalmente por emails e mais principalmente ainda pelos comentários da Sarah, cada um mais literário e espetacular do que o outro. Tanto que fiz a postagem abaixo em homenagem ao Ricardo, que faz aniversário neste 1º de julho. Parabéns aos dois!!!
E reparem no post abaixo se os dois não deveriam ter um blog. Seria fantástico.
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15 de março
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Mas hoje -e convoco às efemérides- também, um dia 1o de Julho:
1523 São queimados como herejes dos monjes partidarios de Lutero. Os panos sujos se lavam em casa.
1818 Nace o ginecólogo Ignaz Philipp Semmelweis. (Vaginas felices da história. Perdão, "Páginas")
1831 Descubrimento do polo magnético septentrional (o de encima; o meridional fica abaixo). Antes disso, os navegantes só tinham marcado o Pôlo Sul nas bússolas.
1900 China: Sublevacões dos bóxers em Tientsin, Taku e Pekim. Nada diz da atitude dos pastores alemães, dos chihuahuas nem dos labradores.
1902 Nace o arquiteto Josep Lluís Sert. Complicado foi para a Ciência tirar o diploma da barriga da mãe. Nem falar da esquadra.
1914 Presentado uma invenção denominada "televisão" que leva imagens à distança. Foi um fracasso em 1914, pois não sabiam o que colocar nela. Agora é um baita sucesso, mais ainda não sabem que colocar nela.
1924 Japão: introdução do sistema métrico decimal. Antecedente das ofesas que levariam à participação do Japão na 2a guerra. Não gostam da introdução de nada neles.
1924 Inaugura-se a ponte sobre o río Hudson, em Nueva York. Forte antecedente para "The French Connection"
1929 Nace Popeye. Ainda é virgem.
1937 O clero espanhol manifesta por escrito seu apoio ao levantamento militar de Franco. Não sabemos a opinião do Deus.
1962 Ruanda proclama-se independente. Nada se falou da felicidade?
E tem MUITO mais: a morte do Michael Landon e Robert Mitchum, o CEP em uso na Espanha, etc.
Mas o que de verdade me afetou foi:
1974 Morre o General Juan Domingo Perón
O "Pocho" veio a morrer no meu niver. Apenas Miguel Pellegrina veio à minha festa, os outros estavam recolhidos em luto, os rádios ligados e música fúnebre o tempo todo.
O General foi indo devagar, meio sentado. assim que morreu, o Ministro de Bem-Estar Social, José López Rega, o pésimo, ruim, inculto e perigoso "Bruxo", adiantou-se gritando. "Façam espaço! Eu já o ressucitei antes, e o farei de novo!". Pegou o Geral dos tornozelos, e começou a recitar passes mágicos. Ao passar dos minutos, desistiu, dizendo: "O Faraó já está muito longe, e não posso fazé-lo voltar". Ou algo assim.
A história também se escreve com lápis negro.
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Estou enternecida pelos afagos e pela linda noite regada a vinho, suco de uva e 'sachet de gente'. Que se repitam! E, de verdade, eu não sabia que prestavam atenção na gente. Eu sim, prestava atenção em vocês, já escrevi antes, como a vizinha da Samantha, espionando da janela... Que seja um 'pós início' longo e duradouro!
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