Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









29.07.09

A vaca lenta vem aí

Não sei até que ponto é zoação, mas fuxicando o bizarríssimo site http://inventorspot.com/ (que mantém o slogan "Diversão séria para o inventor que há em todos nós") descobri que no Canadá foi lançada uma bebida para, er, "concorrer" com o Red Bull.
Ah, tá, o velho aviso de sempre: apesar de eu estar mencionando a marca Red Bull, isto não é um post pago até porque eu não curto muito a bebida e nem esse lance de ficar acordadaço. Só bebi Red Bull até hoje por razões profissionais - quando o café não deu jeito. Aliás, diga-se: o café é mais gostoso e tem exatamente a mesma coisa que "liga" o sujeito, que é a cafeína.
Findo o parêntese, apresento-vos a Slow Cow. A bebida, segundo a matéria do Inventor Spot, contém ervas conhecidas pelos seus efeitos calmantes, como a camomila e a cidreira. É "destinada aos hiperativos", aqueles que sofrem com a impossibilidade de ficarem quietos num canto.

Bom, se o Red Bull é normalmente associado a esportes radicais, adrenalina, noitadas, etc, qual será o mote publicitário principal da Slow Cow? Tardes em Itapoã? Sessão da Tarde, Asterix e Pipoca? Discos da Enya? Banheira de resort? Estou curioso. Mal posso esperar para a Slow Cow chegar ao Brasil.
Se Red Bull nos dá asas, Slow Cow nos dará o quê? Uma rede para balançar? A conferir.

por Gustavo de Almeida as 14:07:17

23.07.09

E vocês achavam que não havia mais espaço a ser vendido na camisa de um clube?

getafe01

getafe02

A foto acima mostra um dos jogadores do Getafe, clube mais-ou-menos da capital espanhola, vestindo o novo modelo de uniforme patrocinado pela rede de fast-food Burger King. Outro dia mesmo no Twitter alguém falava na ânsia das empresas por espaço na camisa de futebol - o Flamengo tascou lá no ombro dos jogadores a palavra Bozzano por diversas vezes. Ficou feio pacas, mas é um dinheiro que entra. No Twitter, se dizia que as empresas eram doidas para que os números de camisas acabassem, porque havia todo um espaço nas costas a ser aproveitado.
Me lembro que quando Juninho Pernambucano, pelo Vasco, começou a jogar com a camisa 31, rolou uma patrocinada e até mesmo uma tentativa incrível de se rebatizar o jogador como Juninho Telemar. O bom senso impediu tal atrocidade.
O Getafe encontrou a parte de dentro da camisa e vendeu ao Burger King.Agora, a cada gol, o jogador pode comemorar no estilo que os espanhóis chamam de "Ravanelli Style", que a camiseta se encarrega de dar ao craque o rosto do Rei Burger.
E tem mais: o uniforme - lançado nesta quinta-feira, 23 de julho - comprado pelo torcedor vem com instruções de como ser usado:

getafeinstrucoes

getafeinstrucoes01

Depois desta, o próximo alvo dos patrocinadores deve ser o próprio corpo do jogador. Agora, bola fora da Burger King é que os juízes estão cada vez mais punindo com cartão amarelo quem comemora gol tirando a camisa e colocando em volta da cabeça. Qual será a decisão do craque? Mostrar o símbolo Burger King ou se manter sem cartão amarelo?

Bom, sei lá se no Getafe tem craque.

por Gustavo de Almeida as 20:10:27

Live from internet

Quando criança, o sonho é poder levar o que quiser da loja de brinquedos. Uns quatro anos se passam, e o sonho é levar todo LP que puder carregar. Eu disse LP? Tá, CD, claro. E DVDs também. E livros, na livraria. Putz, nossa desgraça é o limite. O limite da conta bancária. Lá pelos 40 a vontade é de sair levando vinho a rodo. Mas o limite aparece de novo.
De repente, a gente acha um site como esse aqui: http://concerts.wolfgangsvault.com (esse mesmo, onde mal você entrou e já vai logo se cadastrar porque você não é bobo).
E vem a sensação de criança livre na loja de brinquedos.

O melhor: todos os brinquedos tocam ao vivo.

por Gustavo de Almeida as 18:25:31
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Categorias: Música


21.07.09

One-legged dog

Falei sobre o filme no Twitter. Um dos grandes filmes de minha vida. Uma poesia de Fernando Pessoa, um solo triste de Hendrix, um anoitecer em pólo, esse "O LUTADOR". Não resisto a deixar letra e música registradas aqui no ECLIPSE.

Como consegue Bruce Springsteen fazer um disco tão maravilhoso e essencial como "Working on a dream", em pleno século 21, dos tecnos e eletrosambas? Um disco feito de amargura, solidão, resignação doce, renúncia e sonhos desfeitos. Com essa obra-prima que acabou na trilha sonora de outra obra-prima.

Ouçam e leiam:

The Wrestler

Have you ever seen a one trick pony in the field so happy and free?
If you've ever seen a one trick pony
then you've seen me
Have you ever seen a one-legged dog
making his way down the street?
If you've ever seen a one-legged dog
then you've seen me

Then you've seen me,
I come and stand at every door
Then you've seen me,
I always leave with less than I had before

Then you've seen me, bet I can make you smile when the blood, it hits the floor
Tell me, friend, can you ask for anything more?
Tell me can you ask for anything more?

Have you ever seen a scarecrow filled with nothing but dust and wheat?
If you've ever seen that scarecrow
then you've seen me
Have you ever seen a one-armed man
punching at nothing but the breeze?
If you've ever seen a one-armed man
then you've seen me

Then you've seen me,
I come and stand at every door
Then you've seen me,
I always leave with less than I had before
Then you've seen me, bet I can make you smile when the blood, it hits the floor

Tell me, friend, can you ask for anything more?
Tell me can you ask for anything more?

These things that have comforted me, I drive away
This place that is my home I cannot stay
My only faith's in the broken bones and bruises
I display

Have you ever seen a one-legged man
trying to dance his way free?
If you've ever seen a one-legged man
then you've seen me

por Gustavo de Almeida as 01:12:03

15.07.09

Au, my god!

Pela primeira vez, o Eclipse vai falar de sexo. Oh! E sexo animal! Sexo animal SELVAGEM! Não, nada disso: sexo animal doméstico. Sexo Pet. E não é do Petkovic que estou falando. Sim, vamos falar sobre a nova revolução, se não em sexo para cachorro, pelo menos em releases para divulgar um produto.
Recebemos um release sobre a DoggieLoverDoll. Em tese, a solução para os cachorrinhos que têm a mania de subir na perna das visitas e, er, bem, você sabe: fuque-fuque de mentirinha. A gente sabe que não acontece nada - ou pelo menos eu passei a saber depois de ler o release abaixo.
Como?
Sim, o release abaixo informa que o cachorrinho não ejacula na sua perna quando isso acontece porque não dá tempo. E faz comentários do tipo "Os humanos possuem as mãos para praticarem a masturbação".
A tese que eu defendo é que este release funciona. Sim, funciona. Milhares de bobos como eu vão publicá-lo em blogs, todos vão ler até o fim em voz alta com outras pessoas em volta, mas o danado vai cumprir sua função, que é a de divulgar o produto.

Tudo bem: os caras poderiam ter poupado a gente de saber que a cadelinha inflável tem "um reservatório de fácil higienização". Não queria terminar meu dia pensando em alguém limpando sêmen canino na pia da cozinha.

Vamos ao release. Negritei os meus trechos favoritos, se me dão licença.

doguinho


Você deve conhecer ou já deve ter ouvido falar sobre essas bonecas para homens que são populares em Sex Shops de todo o mundo
. Existem aquelas infláveis, inteiras de silicone, entre outros modelos. Pois é, agora está sendo lançada no Brasil a primeira boneca para cães do mundo. É isso mesmo, uma boneca para cães praticarem sexo. A maioria dos cães não castrados vive atrás de alguma coisa para ter relações sexuais. Eles tentam cruzar com almofadas, bichos de pelúcia, pernas alheias e até mesmo com outros animais.

Para acabar com isso, e melhorar a vida dos cãezinhos, a empresa PetSmiling, com sede em Miami, nos Estados Unidos, e sede em São Paulo, no Brasil, está trazendo ao mercado a DoggieLoverDoll: uma cadela fabricada em borracha macia com canal vaginal de silicone e um reservatório de fácil higienização. O produto acompanha também um tubo de lubrificante íntimo, à base de água, para aumentar a vida útil do produto.

A boneca é fabricada nos tamanhos: pequeno, médio e grande, para poder atingir todas as raças existentes. “Tive a idéia de fabricar a boneca, quando meu maltês começou a querer pegar a perna de todo mundo. Fui pesquisar sobre o produto para comprar e não encontrei em lugar nenhum do mundo. Resolvi fabricá-lo!”, revela Marco Giroto, proprietário da empresa PetSmiling, responsável pela novidade mundial. O produto é exclusivo e já foi patenteado nos principais países do mundo onde ele será comercializado. A novidade mal foi lançada e já recebeu pedidos de vários países, inclusive, dos Estados Unidos, Alemanha e Japão.

Durante a fase de testes do produto, com alguns cães, inclusive com o maltês Flock (responsável pelo surgimento da idéia), os animais mostraram uma melhor qualidade de vida que foi medida pela diminuição da ansiedade, menos latidos, menos demarcações de território. Ou seja, os cães vivem melhor, pois colocam para fora toda sua sexualidade reprimida, durante anos, em alguns casos.

Quando o cão tenta cruzar com pernas, bichos de pelúcia e outros objetos, ele não consegue chegar à ejaculação; já com a DoggieLoverDoll, ele consegue. Os humanos possuem as mãos para praticarem a masturbação, agora os animais domésticos, que têm pouco ou nenhum contato com fêmeas no cio, agora podem se aliviar com o brinquedo desenhado especialmente para eles. Os cães possuem um grande apetite sexual e essa novidade, com certeza, irá melhorar a vida deles.

A novidade, em breve, poderá ser encontrada nos melhores pet shops do mundo. Estará disponível para venda, a partir do dia 22 de julho, ao cliente final no site http://www.doggieloverdoll.com. Os pet shops que quiserem revender a novidade, que promete sacudir o mercado PET (em pleno crescimento), poderá entrar em contato com a empresa no telefone (11) XXXX-XXXX ou pelo e-mail contato@petsmiling.com.

Depois de ler isso, impossível continuar achando que todos os cães merecem o céu...
por Gustavo de Almeida as 23:29:03

12.07.09

"E lá vamos nós com mais uma ridícula....dobradinha MAD!"

Se você tem mais de 35 anos, ou seja, se viveu bem parte dos anos 70 e as expressões Nixon, Spiro Agnew, Al Jaffe e O lado Irônico de Dave Berg fazem efetivamente sentido para você, com certeza o título deste breve post foi nostálgico.
A dobradinha (ou "fold-in") deve ter sido uma pauleira para os tradutores brasileiros de MAD. As de Al Jaffe eram extremamente políticas, envolviam campanhas eleitorais americanas, questões de desarmamento, de meio-ambiente, e precisavam chegar aqui mastigadinhas. E, pior, a dobra do texto tinha que dar certo de algum jeito.
Foi ótimo achar este link no Twitter do Arnaldo Branco, deu pra matar muitas saudades de dobradinhas que eu mesmo fazia nas MADs lá de casa.

dobrada

dobrada01

por Gustavo de Almeida as 22:22:13

7.07.09

Ajuda para um guerreiro

Sim, eu sei que há "milhares de crianças" doentes por aí. Milhares não, milhões. Sim, eu sei que se formos doar sangue para todas elas não faremos outra coisa. Sei também que há milhões de sites, blogs, twitters, emails circulantes, tudo sobre crianças doentes e a luta de seus pais.
Só que ao mesmo tempo não vejo como deixar de me sensibilizar com a luta sem tréguas de uma família para recuperar seu filho em uma longa internação de hospital. O caso do pequeno Robert exige sangue. E a família não hesita em pedir:

"Pessoal, segundo minha médica, vou precisar de sangue ao longo do meu tratamento. Tanto hemácias como plaquetas. Meu sangue é O+, e a preferencia é para quem tenha o mesmo tipo e fator RH.
Preciso que voce esteja bem de saúde, pese mais que 50 kgs para doar hemacias e 60 kgs para plaquetas, e não seja fumante.
Como sou criança, me aconselharam a solicitar inicialmente aos amigos casados ou que tenham parceira (o) fixa (o) ou única (o).
O local fica na Rua Conde de Iraja 183, Botafogo. O nome do local é Hematologistas Associados. O Telefone para eventuais dúvidas é 2537-7440
Basta dar o meu nome, Robert Gonzaga Pereira de Barros Moreira, e dizer que estarei no Copa D'or.
Peço para quem o doar que comunique o meu pai por e-mail, telefone, skype ou por aqui mesmo. http://nossopequenoguerreiro.blogspot.com/
Valeu!!"

Eu tenho O+ e vou fazer a minha doação. Sei de tudo isso do primeiro parágrafo, mas se você for fazer uma doação também, mal não fará. Afinal, se até um atleta morando em outro país teve tempo para dar uma alegria à família do menino, por que a gente não pode fazer o mesmo? Sim, estou falando do campeão Robert Scheit:

Nossos amigos Vlad e Alice deixaram na recepção algumas fotos e um bilhete do super mega campeão e xará do nosso guerreiro, Robert Scheidt!!!... fiquei curioso como eles conseguiram a dedicatória para o Robert desse atleta amigo, já que ele esta morando na Italia já há algum tempo...depois quero saber!!!

Só essa já mostra que o Scheidt merece cada medalha olímpica que conquistou.

por Gustavo de Almeida as 17:39:05

6.07.09

É, meus amigos...quem ronca sempre dorme primeiro

A considerar esta reportagem (ah, b2evolution, por que não me deixas embedar qualquer coisa...) do Fantástico, melhor eu dormir dentro de um escafandro ou a Marcele vai acabar surtando.
Ou, quem sabe, melhor eu comprar um CPAP e emagrecer 20 quilos.

por Gustavo de Almeida as 11:39:24

1.07.09

Vizinhos

- Deve ser italiano, olha o jeito dele. Tem físico de quem gosta de massas – eu dizia.
- Não, Gustavo – retrucava a Marcele – Pode ser espanhol, ouvi ele falando outro dia.
- Marcele, é italiano, ouvi o cara cantando umas árias ou algo parecido! E ele até parece o Pavarotti quando novo, repare, a barba e tudo o mais.
- Eu acho que pode ser espanhol. Ou argentino. A moça é brasileira.
- Ah, não, a moça é brasileira. Não muito, diga-se, mas é brasileira.
- “Não muito”?
- É, ela tem algo meio balcânico, meio cigano, sei lá.

Passaram-se uns dias, até que Marcele chegou, empolgada:

- É argentino! É argentino!
- Legal! Como você descobriu?
- Ele tem uma caneca do Boca na janela!
- Show! Ainda é o “nosso time”!

Claro que “nosso time” é só uma licença poética, afinal, todo o mundo sabe que “nosso time” aqui no Eclipse é apenas o Flamengo. Mas o fato é que quando voltamos de nossa inesquecível viagem a Buenos Aires em 2006, passamos meses em lua-de-mel com a Argentina e particularmente com o Boca Juniors. Para mim, a razão especial: o Boca faz com ele próprio o que o Flamengo já deveria fazer há uns 30 anos e não faz. Ou seja, investe na mística, na paixão, e monta um senhor museu com um senhor cinema 360 graus, com um filme comovente, maravilhoso, em que você começa ouvindo o tango triste e os latidos dos cães no bairro de La Boca e termina dentro de um campo de futebol jogando pelos bosteros. Maravilhoso.

O Ricardo é realmente torcedor do Boca. E, olhando de perto, não parece tanto com o Pavarotti não. E tem um gosto musical muito amplo, que não se restringiria jamais às óperas italianas. Ricardo, este torcedor do Boca, e a Sarah, a de traços balcânicos, eram nossos vizinhos. E engraçado: nos quatro anos que moramos aqui, foram os únicos vizinhos que visitamos.
Sabemos que vizinhos são como parentes por temporada: não interessa se você gosta ou não, o fato é que você não escolhe mas de uma maneira ou de outra ainda tem que dar satisfação. Mas com a Sarah e o Ricardo tínhamos uma convivência muito boa.
E quando falo que nós os visitamos, digo "visitamos" mesmo, a ponto de entrar na casa, beber, comer, ouvir som, etc. Não era só questão de idade equivalente (mais ou menos) não, acho que tinha a ver com um fator de identificação mesmo: ambos os casais são difíceis de esquecer.
Outro dia uma amiga nossa falava no viva-voz do carro com uma outra amiga que a gente só conhecia de vista. Encontros casuais em festas e tudo o mais. A amiga que dirigia comentou que estava indo à cantina La Fiorentina tomar um vinho com a gente. Aí veio a resposta:
Ah, sim, aquele baixinho e aquela altona?
É – respondeu a outra, às gargalhadas. - Eles mesmos. Inclusive ouviram no viva-voz, ahahahahah
Do mesmo jeito que eu e Marcele somos realmente inconfundíveis, Sarah e Ricardo o são. Sarah é impressionismo. Ricardo é expressionismo. Sarah é cores vivas para pintar a dor. Ricardo é emoção, felicidade expressa em O Grito. Ambos saudavelmente contraditórios.
A casa de Sarah e Ricardo vivia repleta de música, vinho e felicidade. A nossa parece um pouco, é verdade, mas devemos acrescentar as televisões e os dois computadores para que a descrição seja fiel. Já na descrição de Sarah e Ricardo, vale dizer que os dois volta e meia, de noite, decidiam que estava calor e iam mergulhar na praia, voltavam como duas crianças furtivas, como a esconder um pecado de alguma autoridade maior – o síndico, talvez... - que reprovasse o gesto.
A coisa toda começou assim: era noite de réveillon (de 2006 para 2007), eu e Marcele estávamos saindo para jantar na casa de minha mãe, a poucos passos. Aí, vimos os dois meio enrolados no apartamento. Porta aberta. A Sarah:
-Vocês sabem como sair daqui?
- Daqui? - respondi, estranhando um pouco a pergunta. Lentidão mental da minha parte.
- Sim, do bairro, se tem algum táxi para Copacabana.
- Ah, tem o ônibus que vai direto, está toda hora passando. Agora, vocês podem pedir para a cooperativa daqui. Demora mas vem. Vocês tem o telefone?
- Não! - responde a Sarah.
- Anote aí. Anotou? Bom, faz o seguinte: usem o nosso cadastro. Anote nosso telefone e passe para eles, fica mais rápido o atendimento. Eu sou o Gustavo e ela é a Marcele. É só vocês dizerem que é a gente, ok?
- Valeu! - disse a Sarah.

Depois disto, uns meses se passaram até que houvesse novo contato. Que foi o convite para uma pizza portenha, massa e tudo o mais feito pelo Ricardo. Um baita azar: a gente tinha detonado nada menos que um empadão de frango na casa da minha mãe. E devo dizer o que eu já disse para a Paula Clarice: empadão de frango da minha mãe é evento raro e de mega intensidade, tal e qual cometa ou eclipse solar. Mas claro que não poderíamos recusar peremptoriamente e fomos lá provar a pizza. E era magistral. “Teremos problemas com esses dois por aqui”, eu disse à Marcele logo que saímos do apartamento deles. “É”, concordou ela. De fato, um sujeito que faz pizza como o Ricardo não pode morar perto de duas pessoas que fazem dietas mensalmente.
Eu devia ter dito a Deus que eu tava brincando, porque logo depois de uma noitada de vinho e vários aperitivos excepcionais na casa deles, veio o anúncio:
-O proprietário pediu o apartamento! Vamos ter que nos mudar – disse a Sarah.
-Que merda! Mas não tem como morar no apartamento vazio dos fundos?
-Ah, não. Se for para morar nos fundos, a gente mora nos fundos de qualquer outro lugar, e mais barato. O que nos conquistou aqui foi a vista para o mar, o ar chegando.

Faz todo sentido, o argumento da Sarah. Enfim, eles se mudaram mas volta e meia nos falamos, principalmente por emails e mais principalmente ainda pelos comentários da Sarah, cada um mais literário e espetacular do que o outro. Tanto que fiz a postagem abaixo em homenagem ao Ricardo, que faz aniversário neste 1º de julho. Parabéns aos dois!!!

E reparem no post abaixo se os dois não deveriam ter um blog. Seria fantástico.

por Gustavo de Almeida as 11:19:33

Sarah e Ricardo, por Sarah. E churrasco argentino, por Ricardo

Sobre pia bagunçada

Ah, as coisinhas asquerosas que aparecem na cuba da pia... Fica aquela maçaroca polimórfica policromática agarrada no ralo e, claro, chamo Ricardo para meter a mão naquilo. Eu também já cansei de dizer que pia não é lugar de jogar restos e que é só limpar o prato com o papel toalha antes... Mas já perdi a batalha. Mais, Ricardo enfia aquela mãozona ali sem nenhum pudor e ainda me diz: “Listo”. Dá ainda umas bombadas com o desentupidor só para garantir e fica me olhando com cara de espanto, rindo de soslaio do meu ataque de nojinho.
E eu tenho minhas manias, sabem? Lavo primeiro os copos com bombril limpinho e depois os pratos e vou arrumando tudo no escorredor em ordem de tamanho (coisa de alemão, yeke).
Por último deixo as panelas e finalizo limpando a cuba da pia e jogando água fervente. Tipo esterilização de mamadeira. Na primeira vez que me viu fazer isso ficou me olhando apalermado: ?!?!?!?!... Ele gosta mesmo é de lavandina (água sanitária), tudo acaba na lavandina, que tudo limpa e tudo cura (me dá um horror danando pensar que é capaz de banhar a mão ferida na lavandina).
Depois ele foi se acostumando e até gosta do ritual do 'depois das festas', em que estico uns panos de prato limpinhos, branquinhos na mesa da sala e vou botando as taças de vinho, os talheres, os pratos com o monograma RGL dourado do bisavô dele prá secar. Fica igual um exército de porcelana, lindo, limpinho, brilhando... Prato cheio para hospício, né?

Sobre sibutramina e a pizza do Ricardo
Eis que encontro o 'post' com a pizza do Ricardo e, puxa vida, quantos comentários sobre a Sibutramina! Mas, meu povo brasileiro, a sibutramina atua no sistema nervoso central e no fundo, é bastante semelhante à anfetamina! Deixem os medicamentos de ação no sistema nervoso central de lado, deixemos o haldol, o fenergan, o benzodiazepínico de lado junto com as anfetaminas e sibutraminas! Vamos para Pasárgada! Lá eu sou mulher mulher de pizzaiolo amador! PS - A pizza estava realmente linda, mais gostosa do que linda!

Sobre mortes de ídolos
Eu seguramente não vou me lembrar. Vou me lembrar do que eu estava fazendo, de maneira mais suave do que o 11 de setembro. Estava em casa, no quarto, “enqueueing” músicas no Winamp e “plim”: virei o rosto em direção ao corredor e falei pro Ricardo: “Michael Jackson morreu”. Assim, sem nenhuma emoção expressa na minha voz, mas pensando no dia em que Elvis morreu, que minha mãe ficou comovida como o diabo.
Tudo o que veio à minha memória foi: “Elvis”. Nem Lennon, nem ninguém, mas Elvis em Las Vegas e minha mãe escutando “Fever”. Estranhamente fiquei mais emocionada com a morte, no mesmo dia, de Farrah Fawcett, a eterna pantera sorridente. Ainda não descobri em mim o 'porquê' de Jill ser mais importante que Bad. Talvez pela lenta agonia da morte metastática, as batalhas que vão se perdendo, uma depois da outra, o esgotamento, a visão do fim, a posição fetal dos doentes terminais. Eu tenho quase um desprezo pela morte afogada em vômito, a vida desperdiçada na ponta da agulha na veia.
Tenho compaixão, mas me repele de maneira incontrolável, como um suicídio em prestações. Me comove a morte lúcida do lutador que perde, perde, perde e mantém o brilho nos olhos, aquela luzinha da vida, aquela fresta de esperança que se apaga no dripping endovenoso, ironicamente - penso agora - na mesma morfina, sempre; no alívio da morte, para um ou para outro.
Saudades dos meus que se foram. E uma lástima infinita do meu amigo Alexandre B. que lutou até o fim contra a 'indesejada das gentes' e foi perdendo devagarinho e perdeu todo o futuro de bom pai de duas meninas: fica o seu sorriso inteligente, o amigo que sequestrou meu livro Cem Anos de Solidão e devolveu a contragosto.

Sobre músicas longas e boas

Fiquei pasma ao saber que meu filho gosta de Hurricane. Eu sei a letra de cor! Me escreveu à mão, com sua caligrafia canhota um amigo, lá no campus da Praia Vermelha, estudante de comunicação, já falecido.
Lembro de alguns clássicos do rock progressivo que não acabam nunca: Genesis (The Battle of the Epping Forest - Selling England by the Pound)e Rick Wakeman (The Six Wives of Henry VIII). No repertório erudito há belíssimas composições como o Double Violin Concerto - Bach. A música é maravilhosa. Como é que alguém nasce com a melodia na alma? Dentro da cabeça?

Sobre seriados e Jack Bauer

"Pelamordedeus", determinada pessoa fica esperando e dá 'graçasadeus' porque dia de Jack-24 à noite é meu dia de plantão. Diz que vai se empazinar, ver Bauer e dormir. Hosana!

Sobre pedacinhos de bolo
Eu não posso comer doces, quer dizer, não posso abusar dos doces. Tenho aquela coisa estapafúrdia, injusta, épouvantable, que se chama 'curva glicêmica alterada', um eufemismo para 'escrito no seu código genético' ou ' escrito nas estrelas da marcha do Apocalipse' (Ricardo me ensinou que se a Santa Sé pega a gente, ele é quem vai para a fogueira, ele é o hegere, um bom cristão envolvido pelos braços da bruxa judia) ou 'pré-diabete'. Uma calamidade...
Ontem mesmo cheguei em casa alucinada por um tantinho assim ó, do tamanho da minha unha do dedo mindinho de brigadeiro-de-prato (aquele quentinho que de preguiça não se enrola) da véspera. Pois pasmem! Ricardo mentiu - MENTIU - que tinha visto uma barata passar em cima, mentiu que nem mulherzinha, disse que viu (e jurou pelos cravos da cruz) que tinha visto uma cascuda enooorrrmmmeee cruzar a cozinha e provar do brigadeiro quentinho ainda. E eu não comi. Ameaçou 'passar no lixo' - e passou. Ameaçou me deixar de castigo, sem cutucar ele um mês, ameaçou fazer coisas inimagináveis, chantagens horrendas às quais tive que ceder. E, como é que pode, ficar sem minha dose de chocolate com açúcar?

Sobre a ausência sentida
Quando Ricardo vai visitar a família sem mim, fico que nem bicho do mato, recolhida em casa. A primeira coisa que eu faço é fechar, lacrar todos os vidros das janelas e as copacabanas, porque “tenho medo da rua”. Comida é qualquer coisa que saia da lata, começo a roer pão duro! E nenhuma gota d'água nas plantinhas, pois  ficam para além do meu domínio, no peitoril, do lado de fora do vidro hermeticamente fechado. Os pés de orégano e de manjericão ficam sequinhos, retorcidos que nem rabinho de porco... E passar pelas lagartixas que morgam no teto e no umbral de entrada? Essas coisinhas temíveis, nojentas, feias, sem Ricardo para caçar uma ou outra destemida que invade a casa? E as cascudas? A premonição que há cascudas em casa e eu sem meu batedor? Ai, e se são voadoras? Ah não... E quando ele volta, a casa é casa outra vez, e não território inexplorado, deixa de ser filme de horror e de ficção científica no primeiro sorriso que ele dá quando me pergunta: “No aguastes mí alba haca? El orégano está medio muerto!”. E improvisa uma espécie de terapia intensiva com muita água e abre as janelas e me dá de comer e de beber.

Sobre o calor infernal
Ai, o verão... Em casa se dizia que há, apenas, duas estações no Rio de Janeiro: o verão e o inferno. Mas queria comentar mesmo é essa coisa de bicho-grilo, odiável. E olha que eu tenho um pezinho hippie, nascida em 1964, tenho, sim senhor, a calça boca-de-sino no sangue, paz-e-amor estampado no peito. Mas as frases bicho-grilo... Ah, a filosofia natureba-haxixiana... Em 1983, ano de mochila nas costas e pé na estrada com os amigos, por duas vezes tive um a acesso de fúria engolida (aquela fúria que é melhor deixar implodir antes de sair pelas narinas). E sempre com a mesma pessoa, extremamente egoísta (pois na verdade é isso que é).
Um calor infernal, dentro do quarto:
"***, dá prá abrir a janela?" (E fulana sentada do lado da janela).
"Ah, não sei se tô a fim...
E depois, um perrengue danado para chegar no Egito, dinheiro curtíssimo, caminhando até as pirâmides, descendo pelo labirinto fedorento (os faraós que me desculpem, mas as pirâmides cheiram a urina, cheiram como Copacabana no dia 1º de janeiro), quase quase
chegando na câmara principal, um calor infernal de agosto, a mesma *** para, empaca, quer dar meia volta e comunica:
"Não sei se tô a fim de descer"...
AAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRGH FDP!
"VAIS DESCER NA PORRADA"

Sobre a bebida

Lembro bem, amamentando meu filho, estava alucinada para tomar um pouco de Bailey's ou de Mozart... Assim que pude virei uma garrafa de Mozart, interirinha, tomando do gargalo, rindo, rindo que nem Ismália na torre..

Sobre o churrasco

Ah, o churrasco descrito é o brasileiro. Agora, Gustavito, imagina o que é o churrasco, o tal 'asadito' lá no Bosque de Pinos, La Plata, o 'legítimo argentino'...
Naquela rua que tem um bosque da família do meu criollo (que está mais para Pavarotti do que Gardel) rolam uns churrascos. Tem uma área perto da casa grande, sem grande frescura ('churrasco de macho'), a área del asado. É que também tem a área da roda de mate (uma cuia e um 'canudinho'- se ele me pega falando 'canudinho', tem um ataque de pelanca, uma treco quente amargo, cheio de baba dos outros, um nojo).
Na área do assado, não tem quase nada.  É mais um espaço livre entre as árvores onde fincam um animal crucificado e costelas e chorizos e morcillas (que eu confundia com murciélagos). Sempre carne vermelha, de vaca; às vezes um cordeiro, a via Apia de Espartacus. Tudo fincando no braseiro que fica no chão. è um ritual 'gaucho'. E como são muitos hombres, todos machos (Ricardo tem um monte de irmãos, um monte de cunhadas, um monte de sobrinhos, um monte de tias velhíssimas, um monte de primos e primas e agregados, um monte de ex-qualquer coisa e um só cunhado, coitado, marido da irmã, que por invenção e ciúmes inventaram que é manco e de pecho hundido! E o rapaz é ruivo ainda por cima!).
Ah, sim, aquele monte de gente 'macho' rodeando o asado, com ar de profundo conhecimento de causa... Um dos meus cunhados se veste todo de preto com rabinho de cavalo, parece até saído de Bodas de Sangre, de Saura... Não tem farofa, mas tem maionese e salada. E uma tonelada de sobremesas açucaradas. Começa cedo e não acaba nunca. E vinho, muito vinho. No fim estão todos meio borrachos, hablando cualquer pelotudez! Ah, e choram! C-H-O-R-A-M de felizes e de tristes, esses nostálgicos de tango, a melô da dor-de-cotovelo. Convidados, Marcele e Gustavo, para um verdadeiro e despretensioso asadito no Bosque de Pinos, La Plata, Argentina.

Sobre este último, Ricardo respondeu. O texto é primorosto, uma crônica digna de Soriano ou Fontanarossa (esportivo):

Mulher falando de asado é como homem falando de sutiã. Não apenas pelas incompatibilidades estéticas, mas pelas incumbências sociais. Poucas vezes uma mulher é convidada para levar o marido, mas quase sempre é o homem o "convidado" que leva a família, circunstancialmente estruturada com mulher e filhos.
E digo "convidado" e não convidado, pois você tem de ser meio boludo para ser convidado e não parte da asado-troika que organiza o negócio. Pois o asado é, primeiro do que tudo, uma vontade de ser-nos-outros, uma liturgia do relacionamento masculino.
Uma mulher, eventualmente, fica rondando nas redondezas da parrilla (churrasqueira), que inclui o fogo, a churrasqueira, a mesa de apoio logístico (onde você coloca a carne, a panela com chorizos e morcelas em hidratação - água, o sal, o chimichurri, etc), e a mesa de apoio social (que as vezes é a mesma da anterior, limpa). Essa última estrutura é fundamental, e de acesso restrito NÃO apenas às mulheres, mas também são mal vistos os "convidados" (boludos que ninguém sabe direito porque foram convidados) e aqueles circunstantes que não acompanharam o assador desde a primeira hora, brindando proveitosos conselhos sobre a temperatura ótima das brasas, a oportunidade de botar o chimichurri, e a conveniência de assar primeiro do lado do osso.
Verdadeiramente, se o visitante for corno ou com a masculinidade em dúvida (como acontece com os "convidados"), sugere-se enfaticamente abster-se de visitar a zona da parrilla, pois os assuntos tratados ali, com baita frequência são coisas desse tipo.

A zona da parrilla configura o Círculo Áulico, ao qual as mulheres não parecem dar demasiada importância, interferindo de quando em vez, para dispensar beijos encendidos demais ao coitado da roda vitivinícola. Com frequencia, a moça impertinente é despedida com roucas vozes, ou o marido pressionado para afastar as cenas impróprias dessa região do assado.
Não é preciso dizer que o que você come na mesa de apoio social não fará parte da travessa popular que é apresentada na mesa principal.
Exceção sistemática (isto é, é usual): na mesa de apóio social são preparados os choripanes (chorizo+pão) invenção tão argentina quanto o doce de leite, mas salgada. Aos efeitos de salvar espaço na mesa central, é frequente que esses choripanes sejam distribuídos por antecipado às crianças. Um sucedâneo muito bem sucedido é o morcipan, morcela em sandwich (sempre pão francês!), que faz as delícias de crianças e adultos, e vampiros esmoleiros.
Miscelânea: vinho tinto (os “convidados” às vezes bebem blanco), provisão inacabável de pão, às vezes salaminho (antes da cocção das carnes), queijo, e quitutes de mão.

por Gustavo de Almeida as 11:11:24
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