Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









15.06.09

A doce vida no campo (virtual)

Eu confirmo totalmente o post abaixo, da Marcele: aos 41, estou brincando de fazendinha. Numa boa, sem estresse. Coisa minha e da minha mulher. A quatro – ou melhor, oito paredes e com roteador. A gente troca favores e envia um ao outro presentes que o Facebook permite, como árvores de frutas, cachorros, galinhas, ovelhas e porcos. Volta e meia eu rego as flores dela e ela rega as minhas. Temos, evidentemente, nomes fictícios, senão aí já era demais. Mas curtimos nossas fazendinhas quase como uma catarse de casal. E, claro: os dois na mesma casa em computadores diferentes, gritam, inter-cômodos:
Gustavo, entra lá para colher meu trigo!
Marcele, veja se meu arroz está pronto para a colheita?
E assim a vida segue, tranquila. Mas como eu nunca fico satisfeito, principalmente depois de conhecer os excelentes jogos Oilgarchy e Burger Tycoon, já começo a me incomodar: onde estão os espinhos dessas rosas? Não é possível que alguém tivesse bolado um jogo de fazenda em que o único empecilho seja realmente esperar as plantas crescerem, semear, e vender a colheita. Não, não é possível.
Em primeiro lugar saí procurando qual seria o comando dos agrotóxicos e dos aditivos químicos para as plantas crescerem mais rapidamente. Depois, ainda cavuquei o jogo procurando o logotipo da Monsanto. Em vão.
Já comecei a implicar com o jogo. Olhei bem para a fazenda e não vi o espaço onde eu deveria colocar casebres imundos e miseráveis, com colonos que eu escravizaria oferecendo um prato de mandioca em troca de trabalho. E cadê as crianças com barriga grande de esquistossomose? E onde estão os Sem-Terra agrupados com ancinhos, que me proporcionarão o prazer de chamar jagunços armados até os dentes (milícias paramilitares agrárias) que vão assassinar friamente famílias inteiras?
E cadê os grileiros de terrenos, os deputados para eu corromper a fim de garantir privilégios nas desapropriações, os líderes sindicais pelegos para eu controlar? E não achei na fazendinha nenhum local de incineração de alimentos (para queimar safras inteiras quando o preço tiver despencado). Eu disse queimar? Pois é, e onde estão as áreas tropicais para eu queimar a fim de abrir mais espaço para pasto?
Bom, ainda bem que – acredite – tem muita gente na roça, no Brasil e no exterior, que é exatamente como nessas fazendinhas. A prevalecer a visão Gustaviana da realidade, o Bronx é aqui e sempre.

por Gustavo de Almeida as 22:00:44
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