Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









26.06.09

O show não pode parar

Comigo aconteceu assim: o jornal jogado em cima da mesa trazia, ainda pequena, uma chamada com a notícia da morte do ídolo. Lá dentro, a comoção nos EUA em meia página, com uma foto da porta do hospital, meio nebulosa. Ao lado, o ídolo na juventude. E o pior: de manhã, quando li o jornal, até a noite, quando haveria o Jornal Nacional, não tive uma notícia sequer, um informe sequer, nem mesmo pelo rádio - que se resumia a ler a mesma matéria do jornal e tocar os principais sucessos o dia todo. De noite, quando começou o Jornal Nacional, a ficha caiu. O anúncio na voz cavernosa, gutural, a música triste e lenta como fundo, a família em silêncio: John Winston Lennon estava morto. "Tanta gente ruim no mundo e matam um cara destes", disse alguém do meu lado na sala.

Essa lembrança me veio à mente quando vi o Twitter explodindo diante da morte inusitada de Michael Jackson. Quando percebi que até o Google travou sua busca de notícias, bloqueando as palavras "Michael Jackson". Quando notei que, menos de uma hora depois do anúncio oficial da morte de Michael Jackson, já havia equipes de TV se dirigindo a casas de fãs mais obcecados e até de imitadores conhecidos do King of Pop. Tudo muito rápido. Nem tempo para o luto sobrou - a não ser, claro, avatares do Orkut e do Twitter sendo substituídos por quadrados pretos.

Lennon teve um luto longo por todo o planeta. Mark David Chapman foi um nome que ficou marcado em nossa memória porque, afinal de contas, tivemos um dia inteiro para decorar. Tínhamos um dia inteiro para aprender a odiar Mark Chapman. Um dia inteiro para ouvir a coletânea Beatles 1967-70, até a hora do Jornal Nacional, quando imagens dos Beatles reunidos se harmonizavam com "Yesterday" - hoje acho curioso que, na homenagem a Lennon, o editor do jornal na época tenha escolhido uma música composta e cantada pelo Paul. E que, aliás, é uma marca do velho e bom Macca.

Por volta das 16h (de Brasília) da quinta-feira, uma multidão estava concentrada do lado de fora do Centro Médico da UCLA. O Twitter começava a sofrer as primeiras de suas muitas quedas. O site teve seu maior pique desde as eleições presidenciais norte-americanas. O mundo, em instantes, já recordava todos os momentos de Michael, já fazia piadinhas com a morte, já ouvia a obra dele. Globalização? Sei lá: só sei que ficou mesmo do tamanho de um aldeia.

A avalanche de informação e idolatria que soterrou Michael Jackson e o mundo que conhecemos é a mesma avalanche Pop que faz Pink se recusar a ir para o show em Confortably numb. Michael, um ser que vivia tentando se transformar em algo que resistisse a sua imortalidade, também usa de "a little pin prick" para tentar se reanimar.


"Hello, just a little pin prick
There'll be no move.... aaaaaaaah!
But you may feel a little sick"

A saga do roqueiro Pink, construída pelos gênios Roger Waters e David Gilmour ao longo da ópera-rock The Wall, parece uma profecia. Como Pink, Michael também tomava suas injeções, acima de tudo para remendar os estragos que o mundo moderno causa. Como Pink, todos nós? Ganhaste obesidade no dia-a-dia? Tome sibutramina e remenda. Alergia? Tome corticóide. Insônia? Tome barbitúricos. O que importa é que o show tem que continuar, a qualquer preço, e você tem que estar bem, tem que estar de pé para aguentar. Precisamos de você! Somos seus fãs! Você é nosso ídolo, nosso oráculo, nosso líder, nosso caminho! Na ópera de Waters e Gilmour, o artista vira máquina, precisa ir ao palco, ir ao estúdio, alimentar cada vez mais uma indústria canibal, alimentar uma mística. "Pink isn't well, he stayed back at the hotel". Em volta daquele Pink ainda sem internet do Pink Floyd, parecia haver a mesma avalanche de informação dos dias de hoje. E a mesma que cercou Michael até seus últimos momentos. Não havia mais Pink, Michael ou Lennon: havia um alvo, um produto feito para se extinguir sob a égide do chumbo ou das drogas. São as vidas extraordinárias que nos mantém satisfeitos com nossas vidinhas ordinárias. É o que nos resta de fantasia, a fantasia que nos salva. "Temos a arte para que a verdade não nos destrua", já disse Niesztche.

Tome-se esta relação ídolo-fã do parágrafo anterior e transfira para funcionário ou empregado x empregador e teremos uma parábola da vida moderna: "Conserte-se! Lavou, tá novo! Tome redbull para se manter acordado!". É a lógica da alta produção. Mais, mais, mais e mais. E menos tempo para as coisas simples da vida. Voltando a outro disco do Pink Floyd - "Dark side of the moon" - você precisa produzir muito, desenvolver, se integrar, ficar antenado e conectado, senão dez anos se passam e você perdeu o tiro da partida.Ninguém lhe contou quando era hora de sair correndo.


"And then one day you find

Ten years have got behind you
No one told you when to run,

you missed the starting gun"

Naquele 8 de dezembro de 1980, a gente ainda não sentia as coisas desse jeito. Havia tempo para as coisas simples da vida - até para o luto, veja só. Hoje, vendo este intenso luto de Michael Jackson, temo que vá durar um ou dois dias a sério, e não haja tempo sequer para um menino de 10 anos ouvir de seu tio na Praia de Botafogo "Não é todo dia que morre um beatle", para justificar a compra de mais uma revista.

25 de junho. Quantos lembrarão?

por Gustavo de Almeida as 18:29:06

15.06.09

A doce vida no campo (virtual)

Eu confirmo totalmente o post abaixo, da Marcele: aos 41, estou brincando de fazendinha. Numa boa, sem estresse. Coisa minha e da minha mulher. A quatro – ou melhor, oito paredes e com roteador. A gente troca favores e envia um ao outro presentes que o Facebook permite, como árvores de frutas, cachorros, galinhas, ovelhas e porcos. Volta e meia eu rego as flores dela e ela rega as minhas. Temos, evidentemente, nomes fictícios, senão aí já era demais. Mas curtimos nossas fazendinhas quase como uma catarse de casal. E, claro: os dois na mesma casa em computadores diferentes, gritam, inter-cômodos:
Gustavo, entra lá para colher meu trigo!
Marcele, veja se meu arroz está pronto para a colheita?
E assim a vida segue, tranquila. Mas como eu nunca fico satisfeito, principalmente depois de conhecer os excelentes jogos Oilgarchy e Burger Tycoon, já começo a me incomodar: onde estão os espinhos dessas rosas? Não é possível que alguém tivesse bolado um jogo de fazenda em que o único empecilho seja realmente esperar as plantas crescerem, semear, e vender a colheita. Não, não é possível.
Em primeiro lugar saí procurando qual seria o comando dos agrotóxicos e dos aditivos químicos para as plantas crescerem mais rapidamente. Depois, ainda cavuquei o jogo procurando o logotipo da Monsanto. Em vão.
Já comecei a implicar com o jogo. Olhei bem para a fazenda e não vi o espaço onde eu deveria colocar casebres imundos e miseráveis, com colonos que eu escravizaria oferecendo um prato de mandioca em troca de trabalho. E cadê as crianças com barriga grande de esquistossomose? E onde estão os Sem-Terra agrupados com ancinhos, que me proporcionarão o prazer de chamar jagunços armados até os dentes (milícias paramilitares agrárias) que vão assassinar friamente famílias inteiras?
E cadê os grileiros de terrenos, os deputados para eu corromper a fim de garantir privilégios nas desapropriações, os líderes sindicais pelegos para eu controlar? E não achei na fazendinha nenhum local de incineração de alimentos (para queimar safras inteiras quando o preço tiver despencado). Eu disse queimar? Pois é, e onde estão as áreas tropicais para eu queimar a fim de abrir mais espaço para pasto?
Bom, ainda bem que – acredite – tem muita gente na roça, no Brasil e no exterior, que é exatamente como nessas fazendinhas. A prevalecer a visão Gustaviana da realidade, o Bronx é aqui e sempre.

por Gustavo de Almeida as 22:00:44
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Categorias: Cotidiano


12.06.09

A nossa fazenda é melhor do que a deles

Gustavo e eu estamos viciados na Fazenda. Mas não se trata do Reality Show da Record (que, segundo já vi no YouTube, tem cenas impagáveis). A Fazenda que está tomando o tempo dos moradores do solar Fernandes-Almeida é outra, muito mais parecida com uma fazenda tradicional: a FarmTown, localizada no FaceBook.

Mousepad da FarmTown

Para quem não conhece o Facebook, ele é parecido com o Orkut, mas com milhares de aplicativos. Lá você pode fazer testes esdrúxulos (e, claro, muito divertidos e úteis) como "Qual país europeu você é?", "Qual é o seu QI?" e "Quão pervertida é sua mente?". Mas até agora eu não tinha achado nada tão viciante quanto a Farm Town, onde você pode passar horas e mais horas plantando, colhendo, visitando os vizinhos e cuidando dos animais, sem sair da frente do computador.

Exemplo de Fazenda da Farm Town

Como eu disse para uma amiga outro dia, o FarmTown é um vício típico de criança crescida na cidade que nunca teve a oportunidade de fazer essas coisas pessoalmente. Se algum leitor resolver aderir ao vício, por favor procure a Fazenda Agridoce, da senhora Sarah Gould, que eu estou precisando de vizinhos!

por Marcele Fernandes as 10:09:42

4.06.09

Movimento Seinfeld: the Busboy

Estou lá, meu povo. Estreia (sem acento) de luxo: http://movimentoseinfeld.com.br/episodios/the-busboy/

Reconheço que o texto deixou a desejar - trabalho feito em cima da hora é dose. Mas o site tá cada vez mais bonito.

por Gustavo de Almeida as 16:25:28







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