5.04.09
Meu tio, George Bailey


Nina Clara Blandine,
Quero que daqui a 10 anos, ou melhor 15, ou talvez 20, você leia esta cartinha depois de ver o principal filme da sua vida, que vai ser e já é “It's a wonderful life”, do Frank Capra. Olhe bem para o James Stewart, no papel mais bonito de sua vida, o de George Bailey, um cara que sonha o tempo todo mas prefere fazer que o sonho dos outros se realize. Porque no fundo o sonho maior de Bailey é um mundo melhor. Bailey, porém, é a personificação da bondade e do que há de mais humano: ele falha, ele erra, ele se emociona, briga com parentes, fica exaltado, se arrepende, luta, pensa em nunca ter existido, mas acima de tudo ele é incapaz de desejar o mal até mesmo para o pior inimigo, o banqueiro Potter, que tenta transformar a linda cidade de Bedford Falls na soturna Potterville.
Nina, você vai gostar muito deste filme. Mas quero que, sim, apenas daqui a 15 ou 20 anos, você olhe muito fundo nos olhos azuis da sua mãe e pergunte, de coração: “Mãe, este era o vovô?”. E a sua mãe vai começar a chorar, confirmando. Aquilo que sua mãe nunca me contou: que ela ama George Bailey porque é o personagem que mais se parece com o pai dela – a bondade, o amor tão intenso que chega a se descabelar em sorrisos.

Nina, estamos em 2009 e, há três dias, o nosso George Bailey se foi, partiu para se transformar em um anjo protetor que fará muitas sinetinhas tocarem pelo mundo afora, como você viu no filme. Um anjo que nunca nos deixará, apesar de toda a tristeza que sentimos nestes dias que para você hão de estar longínquos.
E fique feliz, Nina, porque duas semanas antes de partir ele pôde estar com todos, inclusive com você, pequena, com nove meses, na mesa de um barzinho aqui perto de casa. Um dia muito feliz, foi o dia 15 de março. Aniversário da sua tia Marcele. Aqui em casa, parentes dela, amigos, lá no barzinho o seu vovô, recebendo amigos e parentes, praticamente se despedindo sem saber. Ou talvez soubesse e tivesse nos poupado de tristezas – como ele sempre fez. Foi a última vez em que eu o vi. Nos demos um beijo, trocamos um abraço, e enquanto ele descia as escadas eu permaneci vigilante ao lado do interruptor de luz para que eu pudesse rapidamente acender caso o timer deixasse tudo às escuras de repente.
Vovô estava com uma doença congênita, Nina, que o deixou um pouco lento no andar, no agir, no falar. Seu humor era indestrutível, no entanto: o braço imobilizado pela degeneração cortico-basal ele batizou de “mão alienígena”.
E essas coisas me faziam ver através de tudo: era ele, era ele. Por isto eu me recusava a admitir alguma diferença.
Duas semanas depois desse nosso encontro, Nina, ele se foi, em uma madrugada lá em Barbacena. Eu dormia profundamente, não ouvi os telefones. De manhã, o recado dizia que seu vovô tinha “sofrido” um enfarte. Minha vida parou, Nina. Tudo parou. Porque eu sabia o que tinha acontecido de verdade. Não sabia como, nem por quê, mas sabia. Mas fiquei torcendo para estar errado. Quando veio a confirmação, Nina, eu me senti dentro da Marajó do seu vovô. Horas e horas, esperando para instalar uma aparelhagem de som numa oficina autorizada da Sears, onde ele havia comprado o baita som. Seu vovô foi exceção até nisso: tinha som bom no carro e ouvia Beatles. Nada de pancadão ou tecno.
Vi a Marajó, vi todas aquelas cidades de uma vez, passando diante de meus olhos, onde seu avô tinha deixado aquelas marcas: honestidade, carinho, atenção com as pessoas mais pobres. Um pouco de raiva e escárnio dos ricos. “É bom para beber diante da piscina, por causa da corzinha combinando com o azul”, disse ele uma vez sobre Campari. Ali no comentário, aquela ironia dirigida aos que têm um vida fútil e contemplativa destinada a deixar o mundo do jeito que está.
Cheguei a Barbacena, Nina, e seu vovô já tinha passado pelas cerimônias de praxe. Mas eu continuava sentindo sua presença. O sorriso dele, mesmo depois da doença, ainda tinha um quê de criança. Lembrei muito, Nina, do que o vovô mandou nos dizer em 1984, quando eu perdi meu pai: “É algo muito triste, que vai nos deixar muito saudosos. Mas não foi uma tragédia, como acontece com tanta gente que perde pessoas queridas pela violência, às vezes nem vê o corpo, ou desaparece. Ele se foi em paz, com a família dele, com amor em volta”. Ouvia as palavras dele e parecia que desta vez o vovô falava dele mesmo.
Toda a cidade de Barbacena parou, Nina, para se despedir dele. Políticos, personalidades, colegas, amigos. Havia certa reverência, sim. Não reverência ao poder como o conhecemos, aquele poder que oprime, mas uma reverência ao encanto que seu avô proporcionava. Andamos de carro pela cidade e passamos em alguns lugares onde sua mãe, seus avós e tias moraram. Alguns, idos para melhor, outros esquecidos, todos sujeitos ao tempo, este elemento que só é vencido pelo abismo que nos suga na hora da notícia ruim.
Fiquei pensando, Nina: instalamos o som na Marajó há quase 30 anos e eu lembrava como se fosse ontem. Seu avô sempre ostentando o sorriso que antecipava a felicidade futura: instalar o som significava ouvir música com a família, viajando, e ele tinha a mania de ser feliz por antecipação. O humor dele não funcionava assim, de preocupar-se ou lamentar-se antecipadamente. Ele tinha a mania, sim, de ver a coisa resolvida antes do tempo, o abraço acontecendo na imaginação, o reencontro sempre como arte, as festas começando antes da hora exata.
O fato, Nina, é que por onde a gente andar nessa vida, seu avô vai estar lá. Se esbarrar num disco do Creedence ou do Paulinho da Viola, lá estará ele. Um livro “O homem e seus símbolos”, do Jung? Seu avô. Um café feito com filtro de papel direto na garrafa térmica? É dele. O filme 'Across the universe”? Com este nome, vamos lembrar dele sempre.
Mas nem precisa este esforço todo, Nina. Basta ver o filme de novo, e olhar bem para George Bailey, quando a imagem de congela enquanto ele diz o tamanho da mala de viagens que ele faria em volta do mundo. Ali você vai ver seu avô, puro, em estado bruto: um homem antecipando a felicidade e sorrindo – um gesto que poderíamos definir apenas como a Arte de Sonhar. Mesmo que não aconteça, ou algo se desvaneça, ali se vê o quanto o sonho é vital.
Tal e qual Shelley escreveu, minha pequena Nina, seu vovô não morreu, apenas acordou do sonho da vida. Mas estará nos nossos, sempre, ou até mais do que sempre.
Afinal, se um sino toca, é porque mais um anjo ganhou asas.
Do seu primo-tio
Gustavo
P.S. - Julia e Joana, esta cartinha é para vocês também. É que me dirigi à Nina porque ela pôde estar aqui no dia 15 de março, esta data tão duplamente inesquecível para mim a partir de agora e para todo o sempre.
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Poxa, que amor.
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