4.04.09
Adeus ao nunca
João Bosco Silva Santos, tio do Gustavo, morreu ontem, dia 3 de abril de 2009.
Publico novamente a carta aberta que o Gustavo escreveu para o tio quando ele completou 70 anos, em 1o. de fevereiro de 2007, e que tinha sido publicada no JB Online.
***
Meu caro João,
É uma surpresa para nós dois eu te chamar assim, porque na verdade tu és "Bosco" para toda a família, e na infância era só "tio" para mim. Mas achei esse "João" sonoro, imponente como a tua figura, sempre com os olhos perdidos em algum horizonte em curva. Te escrevo aqui, pela internet mesmo, em carta pública, porque descobri que você hoje chegou aos 70 anos. João, todo mundo vai te dizer o óbvio: você não parece a idade que tem. Eu te digo, sem pestanejar: você parece ter muito mais. Como já dissemos há uns anos, você parece ter uns 2.800 anos. Sempre pareceu.
Eu aproveito para te fazer umas revelações, João: fui eu que, aos sete anos, arranhei sem querer a faixa Wind cries Mary do seu LP Are you experienced, do Jimi Hendrix Experience. Sim, João, fui eu e meu irmão que roubamos o mesmo LP, talvez naquele mesmo ano, na maior cara de pau. E foi por sua causa que ouvi Iron Butterfly pela primeira vez, aquele urro rock and roll chamado In-a-gadda-da-vi-da. Eram tempos tão antigos, aqueles, sua filha mais velha ainda bebê, eu recém saído deste mesmo estado, sua mulher vendo televisão no Edifício Marajó ali na Urca, na Avenida João Luiz Alves. Houve incongruência temporal? Talvez. Talvez eu tenha confundido Marajó, o prédio, com Marajó, o carro. Ou então com o queijo, aquele que formou teu caráter em um mês de fome em Belém do Pará.
Mas, João, você fez 70 anos. Tem quase esse tempo que não vê as três filhas juntas, né? E, claro, haverá muitos beijos, muitos abraços e quem sabe uma discussãozinha, do tipo "quem é melhor, Beatles ou Rolling Stones", que vai terminar em lavação de roupa suja, briga – like the old times – e, claro, mais beijos e mais abraços, talvez um belo jantar, mais vinho, declarações apaixonadas de amor eterno.
How the life goes on.
Como? Quem é melhor? Na sua frente, João, eu sempre direi Beatles, apesar de eu me identificar mais com os Stones. Foi ouvindo uma música dos Beatles que você me ensinou a ouvir música, no sentido espiritual. Foi ouvindo Across the universe que você, com os olhos mais distantes do que o normal, me disse que a vida é eterna sim, quando suspirou, "Eu acho essa música um Adeus ao nunca". Ali foi como se eu tivesse, subitamente, entendido a vida.
Na família, todo mundo achou que você era o tio que eu mais gostava, por ter te chamado para substituir meu pai - já no Adeus ao Nunca - no altar do meu casamento. Bobagem. Gostar não tem nada a ver com isso. Eu gosto de todos eles, cada um a seu jeito. São todos grandes profissionais, bem sucedidos, que têm uma história de sucesso cada um, e que não deixaram de ser grandes pessoas por causa do sucesso deles. Mas você é diferente. Com você eu tenho identificação, porque você já fez merda, João. Que nem eu. Já andou mudando de cidade em cidade, heróico nômade, carregando as tralhas, perdendo algo pelo caminho, ganhando muita vida. Já virou noites tomando whisky e falando do Brasil com o Jamil. Já subiu o Pico da Bandeira com um Fusca e com um Marajó, me ensinou a comer salsicha em lata crua mesmo, e me mostrou que no frio, nem mulher é melhor que conhaque de mel. Quer dizer, mulher a gente sabe que é melhor, mas não espalha que é para elas não se valorizarem muito...
Sempre falo, João, do Natal de 1983. Foi mesmo esse? Meu pai começou a beber uns vinhos nacionais, até de boa qualidade, e deixou dois chilenos e dois italianos para "outra ocasião", naquela de preservar. Matamos todas as garrafas, em certa altura com a sua ajuda, João, e de repente, foi o que se viu: os sofisticados vinhos do meu pai viraram outra coisa. "Vamos abrir esta merda desta surrapa!", disse o velho. Dali a um mês, você comentaria, sorrindo, em meio às lágrimas da partida dele: "Pô, o Zé parece que estava adivinhando...". Este comentário é inesquecível, e faz você ser você, João. Acho que, no fundo, te escolhi para estar no altar no meu casamento por causa daquele Natal de 1983. Lembra de quando chegaram umas visitas no meio da noite? Com um LP da Alberta Hunter? E nós fomos, bêbados, fazer as honras da casa na cozinha. Pegamos o liquidificador e fomos colocando: Limão. Cachaça. Gin. Vinho. Tônica. Coca-cola. Fanta. Cerejas. Banana. Ovo. Nescau. Cerveja. Tudo misturado, batido no liquidificador. A beberagem era grossa, intensa. Não tive coragem de sentir o cheiro. Levamos para as duas mulheres que nos deram o LP da Alberta Hunter que você tem até hoje. Caí no chão de tanto rir antes que elas pudessem colocar o copo na boca. Dali em diante não me lembro do que aconteceu.
Os tempos passam, e chegam novos tempos, João, e você sempre dando Adeus ao Nunca, como ninguém. Me esqueci de dizer, para os leitores aqui do JB Online, que você é médico. Clínico geral. Às vezes, um homeopata, às vezes terapeuta. Me lembro das noites no hospício de Barbacena. A mulher louca, correndo por todos os lados, berrando, enquanto você prescrevia um sonífero para um doido sentadinho, comportado, esperando por seu dotô. A mulher berrava mais e mais, e de repente começou a rasgar a própria roupa. E você, calmo, sereno, falando com ela: "Olha, se você rasgar mais, você que vai ter que costurar". Ela parou na hora. Coisa de louco, João. Me lembro de um filme do Jacques Tati que vi na sua casa, Meu tio, e pensei que eu poderia fazer um filme desses também, fácil, fácil, com esse nome.
Ah, obrigado também por me dizer que o personagem de Um certo dia para 21, do Paulinho da Viola, é um presidiário que ganha um dia de indulto para encontrar a amada. Quase me esqueço de mencionar isso. Mas é só uma das milhares de coisas que me ensinastes, nenhuma delas serviu para nada de prático – até hoje não sei consertar coisas em casa e nem fiz muito sucesso na vida.
Mas as coisas todas que você me ensinou, João, deveriam ser um evangelho. Me ensinou a não ter vergonha da palavra amor, a relaxar e ficar bêbado de vez em quando, a não engolir sapo - mas se engolir descer com um aperitivo - a ficar calado de vez em quando, a respirar na crise de asma, a ouvir música, a ser muito, mas muito mesmo do que eu sou, particularmente do pedaço de mim que eu mais me orgulho.
É, João, toma um porre aí com as meninas. Elas estão felizes em além-mar, nós sabemos disso. De vez em quando, você vai uns vôos lá para as terras européias e americanas, curte uma cerveja preta ou um Bordeaux por mim. Ou então tira uma onda, lembra os tempos de Marinha e vai de navio, como eu faria, já que tenho um baita medo de avião. Mas, independente do futuro, toma um porre de vinho hoje aí na gelada Barbacena. Afinal, você sempre me mandou curtir os verões pensando nos invernos, e vice-versa.
E não se esqueça de ouvir pelo menos uma vez Across the universe. O universo te agradece - eu também, por tudo."
Com devoção,
do sobrinho
Gustavo
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eu me lembro do sorriso no rosto dele enquanto ele ouvia nossa leitura.
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Ele também fez parte da minha infância...Clara e as meninas... Me ensinaram mais ainda a Adorar os Beatles !!!
Saudades eternas e a certeza de que a vida é apenas transformada. Somos espíritos imortais !
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