1.04.09
Pedacinhos de bolo: uma implicância

Marcele tem se sentido mal do estômago, e em função disso foi-lhe receitado comer gelatina. Uma excelente receita, aliás, já que ela adora gelatina e come misturada com banana, um mix a meu ver tão lógico quanto o já clássico pão com melancia e pipoca. Enfim, fui voluntário lá em casa para ser o cara que faz as gelatinas que a Marcele vai consumir. E com o maior prazer, já que gosto de cuidar bem dela. Mas eis que eu colocava a gelatina já depois de esfriar na geladeira quando - SCHPLEFT - um prato se arrasta, esbarra em outro, em outro, em outro e cai alguma coisa no chão que é melhor limpar com um papel-toalha e jogar fora.
O papel-toalha tem a função social do esquadrão da morte: é para limpar aquilo que a gente não quer admitir que limpou.
Do mesmo jeito que a sociedade brasileira finge que não tem pena de morte informal por aí graças ao esquadrão, o papel-toalha é para limpar coisas e misturas que a gente nem sabe quais são - mas com as quais quer ter envolvimento mínimo.
Depois de limpar o que caiu, fiz uma breve perícia do acidente e descobri o motivo: o prato de bolo.

Fomos em um aniversário no sábado, de alguém que adoramos, e a família da pessoa nos deu um pratinho de bolo na hora de ir embora. Nunca havia comentado com Marcele antes, por isto ela estranhou quando eu fui tão enfático em tentar demovê-la de carregar o pratinho de bolo. Mas, enfim, qual é o lance com pratinhos de bolo? E por que tanta obsessão com isso? Por que não se reunir em torno de uma pizza ou de um empadão de frango para cantar parabéns? Mas, no caso do bolo, há uma certa mania, quase uma compulsão, de se "fazer um pratinho para viagem".
São dois os casos:
Caso 1 - "Tadinho do Junior, tá doente, leva esse pratinho de bolo para ele"
Analisemos o caso 1: o Junior tá doente mesmo ou ele estava em outra? E, se doente, será que a dieta dele não tem restrições? Caso não tenha, será que durante todo o tempo da festa o Junior ficou puto nas calças, dando socos na parede e berrando, "MERDA, ESTOU DOENTE, NÃO VOU PODER COMER BOLO!". Acho realmente difícil que qualquer destas hipóteses se concretize. No mais, o bolo, até onde sei, esgota sua função social logo depois do "É big! É big! É hora! É hora! Rá-tim-bum!" (duvido que alguém saiba o significado desse grito) e do "Com quem será, com quem será?". Levar o bolo para alguém constitui-se num triste simulacro. Não é a mesma coisa que deixar de ver um filme no cinema dizendo, "ahh, vou ver em DVD". Comer um bolo sozinho sentado em um catre imundo é coisa que o Junior não merecia. Melhor não levar nada, né?
Caso 2 - "Aqui, Daaaaani, leva esse pedaço de bolo para vocês comerem mais tarde"
Bom, o caso 2 foi o nosso. Pergunto eu: quem é tão viciado em bolo que precisa de continuar comendo ao chegar em casa? Será um vício que é reativado pelo simples fato do sujeito experimentar o bolo depois do aniversário? Ele terá tremores mais tarde e culpará o aniversariante com um telefonema ameaçador? "Seu FDP, eu tinha conseguido parar com o bolo e você me fez voltar. E ainda era com morango em cima!". Não, não pode ser. E no mais, que espécie de glutão come bolo DUAS VEZES no mesmo fim de semana?
Portanto, um pratinho de bolo só serve para aporrinhar a viagem de volta e depois ocupar espaço na geladeira já carente de locais onde se colocar coisas mais úteis como cervejas, vinhos e queijos diversos, uma dieta bem mais saudável que todo este açúcar. E digo isto de cadeira, já que em todo aniversário meu, tenho a mania de só comer o bolo no café da manhã, no dia seguinte.
Sim, eu sei, mas aí ninguém levava, né, Pedro Bó? O bolo já estava na minha casa mesmo. Sobrava porque eu não deixava ninguém levar num pratinho...
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E fiquei imaginando Junior sentado num catre imundo... ô dó!
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Joannah
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Adorei esse espaço...
Tem meu e-mail, se pude me ajudar!!!!
Obrigada
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Eu não posso comer doces, quer dizer, não posso abusar dos doces. Tenho aquela coisa estapafúrdia, injusta, épouvantable, que se chama 'curva glicêmica alterada', um eufemismo para 'escrito no seu código genético' ou ' escrito nas estrelas da marcha do Apocalipse' (Ricardo me ensinou que se a Santa Sé pega a gente , ele é quem vai para a fogueira, ele é o hegere, um bom cristão envolvido pelos braços da bruxa judia) ou 'pré diabete'. Uma calamidade... Ontem mesmo cheguei em casa alucinada por um tantinho assim ó, do tamanho da minha unha do dedo mindinho de brigadeiro-de-prato (aquele quentinho que de preguiça não se enrola) da véspera. Pois pasmem! Ricardo mentiu MENTIU que tinha visto uma barata passar em cima, mentiu que nem mulherzinha, disse que viu (e jurou pelos cravos da cruz) que tinha visto uma cascauda enooorrrmmmeee cruzar a cozinha e provar do brigadeiro quentinho ainda. E eu não comi. Ameaçou 'passar no lixo' - e passou. Ameaçou me deixar de castigo, sem cutucar ele um mês, ameaçou fazer coisas inimagináveis, chantagens horrendas às quais tive que ceder. E, como é que pode, ficar sem minha dose de chocolate com açucar?
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