22.03.09
Depois do churrasco
É um vasto e repetido tema, este da Reunião em torno da Carne na Brasa que nós brasileiros definimos como churrasco. Pela internet, o que não falta é postagem como essa aqui ditando as regras e vicissitudes de um bom churrasco.
O verbete já é tão importante que não importa o que esteja na brasa - se houver apenas queijo coalho mas todo mundo estiver bebendo em volta já é churrasco.
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O churrasco ao qual fui ontem pode ser enquadrado na categoria Perfeito, por uma série de quesitos, os quais espero descrever nesta postagem.
Quando se opta pelo churrasco para comemorar um aniversário - em vez de uma festa em boate ou um bolo com guaraná - deve-se entender que a estrutura do evento é toda alterada. Para começar, o churrasco é inter-geracional, ao passo que uma festa em boate é algo para o qual deve-se evitar chamar aquela sua tia que tem horário certo para colocar a dentadura no copo. A festa em boate é mais caótica e dispersiva. Já o Bolo com Guaraná é um evento bem mais fechado, exclusivamente in-door. Eu diria que o bolo com guaraná está pro churrasco como um show do João Gilberto para 50 pessoas está para uma apresentação do Metallica diante de 200 mil metaleiros ensandecidos.
Vamos aos elementos fundamentais:
1- O babaca da churrasqueira - Não é nada pessoal, e nem significa que o cara que vai mexer os espetos não possa ser um cara legal. É um estado temporário. O bom babaca de churrasqueira deve ser um pouco marrento, um pouco mal-humorado. Hoje em dia, estão findos os tempos românticos em que o Babaca da Churrasqueira emergia do grupo com naturalidade. Os churrascos de hoje têm profissionais contratados. Reconheço que perdeu-se um pouco do glamour, mas a solução é muito boa. Nos antigos Babacas havia um ponto da festa em que ninguém comia mais porra nenhuma, já que o cara ficava revoltadinho de estar todo mundo bêbado e ele lá mexendo em espeto. O Babaca da Churrasqueira, portanto, pode definir o sucesso de um churrasco.
Hoje em dia há estas empresas especializadas, como neste link.
2- Como será gelada a cerveja - Saia imediatamente do churrasco cuja cerveja fica em geladeira ou freezer. Isto significa sem tirar nem pôr que você vai beber cerveja quente. O ideal para o bom churrasco é a cerveja imersa em gelo (filtrado ou não) em uma tina. Cerveja em freezer significa apenas que o consumo de energia elétrica vai às alturas com um bando de cachaceiros abrindo e fechando a porta toda hora.
3- O cunhado que faz alguma coisa - Este é um elemento necessário. Todo cunhado, você sabe, é metido a saber algo que os outros não sabem. Seja filmar o público, seja armar o som ou gravar fitas cassete pro churrasco, seja fazer caipirinhas, enfim, entreter as crianças com folguedos infantis, desarmar bombas (causadas pelos folguedos), receber as pessoas, etc. O cunhado é mão-de-obra que elimina postos de trabalho. E o pior é que faz tudo de graça.
4- A amiga gostosona da mulher do amigo e que ninguém conhece - Em toda rede social é necessário buscar a harmonia e aliviar os conflitos. Portanto, é importante dizer "sim, tudo bem" quando algum amigo seu te perguntar se pode levar "uma amiga da namorada junto" ou "a prima de Roraima que está passando uns dias aqui". É importante porque ela, se for realmente gostosona, interromperá a discussão quase-vias-de-fato entre os homens sobre os culpados pela Tragédia do Sarriá em 1982 ou se o titular deve ser Josiel ou Obina.
5-Arroz, farofa e salada de batata - São elementos necessários. Há gente que come isso durante churrasco. Eu fico impressionado. Por que diabos não preferem um bom espaguete?

6- Disco "Just one night" do Eric Clapton - Acredite: é um dos melhores discos para churrasco. Outro bom é "Alchemy", ao vivo do Dire Straits. As coletâneas "Chronicle" do Creedence Clearwater Revival e o "Seeger Sessions" do Bruce Springsteen também são ótimos. Não tendo nada disso, vai de Kelly Key mesmo. Mas só depois que estiver todo mundo bêbado.
7- Bolo ou massa - Nunca vou entender porquê, mas depois de comer quilos de carne de churrasco, geralmente o ser humano tem uma fissura em comer pizza ou outra massa qualquer - pode ser de bolo. Deve ser porque a combinação proteína (da carne) com carboidrato (da massa) é a fórmula para engordar. De todo modo, no churrasco de ontem ainda teve um bolinho para dar aquela quebrada.
Acredito que, se for dada atenção a estes sete elementos, seu churrasco será um sucesso. E aí você será introduzido no segundo capítulo: "De como uma festa na boate ou um bolo com guaraná dão muito menos trabalho no final do que um churrasco para 100 pessoas".
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Mto boa a lista e, mesmo concordando com o absoluto descabimento da salada de batata+farofa+arroz, ofereço minha maionese especial pra qdo vcs vierem comer o prometido churrasco aqui no sul do mundo com a gente.
Url: http://deitadonagrelha.blogspot.com
Abração
Daniel Rodrigues
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Naquela rua que tem um bosque da família do meu criollo (que está mais para Pavarotti do que Gardel) rolam uns churrascos. Tem uma área perto da casa grande, sem grande frescura ('churrasco de macho'), a área del asado. É que também tem a área da roda de mate (uma cuia e um 'canudinho'- se ele me pega falando 'canudinho', tem um ataque de pelanca, uma treco quente amargo, cheio de baba dos outros, um nojo). Na área do assado, não tem quase nada. É mais um espaço livre entre as árvores onde fincam um animal crucificado e costelas e chorizos e morcillas (que eu confundia com murciélagos). Sempre carne vermelha, de vaca; às vezes um cordeiro, a via Apia de Espartacus. Tudo fincando no braseiro que fica no chão. è um ritual 'gaucho'. E como são muitos hombres, todos machos (Ricardo tem um monte de irmãos, um monte de cunhadas, um monte de sobrinhos, um monte de tias velhíssimas, um monte de primos e primas e agregados, um monte de ex-qualquer coisa e um só cunhado, coitado, marido da irmã, que por invenção e ciúmes inventaram que é manco e de pecho hundido! E o rapaz é ruivo ainda por cima!). Ah, sim, aquele monte de gente 'macho' rodeando o asado, com ar de profundo conhecimento de causa... Um dos meus cunhados se veste todo de preto com rabinho de cavalo, parece até saído de Bodas de Sangre, de Saura... Não tem farofa, mas tem maionese e salada. E uma tonelada de sobremesas açucaradas. Começa cedo e não acaba nunca. E vinho, muito vinho. No fim estão todos meio borrachos, hablando cualquier pelotudez! Ah, e choram! C-H-O-R-A-M de felizes e de tristes, esses nostálgicos de tango, a melô da dor de cotovelo. Convidados, Marcele e Gustavo para um verdadeiro e despretencioso asadito no Bosque de Pinos, La Plata, Argentina.
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Poucas vezes uma mulher é convidada para levar o marido, mas quase sempre é o homem o "convidado" que leva a família, circunstancialmente estruturada com mulher e filhos. E digo "convidado" e não convidado, pois você tem de ser meio boludo para ser convidado e não parte da asado-troika que organiza o negócio. Pois o asado é, primeiro do que tudo, uma vontade de ser-nos-outros, uma liturgia do relacionamento masculino.
Uma mulher, eventualmente, fica rondando nas redondezas da parrilla (churrasqueira), que inclui o fogo, a churrasqueira, a mesa de apoio logístico (onde você coloca a carne, a panela com chorizos e morcelas em hidratação -água, o sal, o chimichurri, etc), e a mesa de apoio social (que as vezes é a mesma da anterior, limpa). Essa última estrutura é fundamental, e de acesso restrito NÃO apenas às mulheres, mas também são mal vistos os "convidados" (boludos que ninguém sabe direito porque foram convidados) e aqueles circunstantes que não acompanharam o assador desde a primeira hora, brindando proveitosos conselhos sobre a temperatura ótima das brasas, a oportunidade de botar o chimichurri, e a conveniência de assar primeiro do lado do osso. Verdadeiramente, se o visitante for corno ou com a masculinidade em dúvida (como acontece com os "convidados"), sugere-se enfaticamente abster-se de visitar a zona da parrilla, pois os assuntos tratados ali, com baita frequência são coisas desse tipo.
A zona da parrilla configura o Círculo Áulico, ao qual as mulheres não parecem dar demasiada importância, interferindo de quando em vez, para dispensar beijos encendidos demais ao coitado da roda vitivinícola. Com frequência, a moça impertinente é despedida com roucas vozes, ou o marido pressionado para afastar as cenas impróprias dessa região do assado.
Não é preciso dizer que o que você come na mesa de apóio social não fará parte da travessa popular que é apresentada na mesa principal.
Exceção sistemática (isto é, é usual): na mesa de apóio social são preparados os choripanes (chorizo+pão) invenção tão argentina quanto o doce de leite, mas salgada. Aos efeitos de salvar espaço na mesa central, é frequente que esses choripanes sejam distribuídos por antecipado às crianças. Um sucedâneo muito bem sucedido é o morcipan, morcela em sandwich (sempre pão francês!), que faz as delícias de crianças e adultos, e vampiros esmoleiros.
Miscelânea: Vinho tinto (os convidados às vezes bebem blanco), provisão inacabável de pão, às vezes salaminho (antes da cocção das carnes), queijo, e quitutes de mão.
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