20.03.09
O sonho de quem é mal-atendido
(Dê foluín têics pleisse betuím tree pí em and fór pí em)
São 15h. Dillinger está em casa limpando suas duas pistolas Glock calibre 380, vendo a primeira temporada de Prison Break na Fox. O ar está meio quente no Rio de Janeiro. Dillinger se emociona com o roteiro de Prison Break até que, de repente, a TV a cabo falha; Dillinger dá de ombros e pega o telefone para reclamar. Entra uma música com o texto, clássico, imutável:
- No momento, todos nossos operadores estão ocupados. Aguarde, que em breve você será atendido. Não desligue. A sua ligação é muito importante para nós.
Dillinger espera. E espera. E espera. A musiquinha é de uma rádio, igualzinha daquelas que ficam tocando no cinema vazio antes da sessão começar. Dillinger já ouviu duas músicas do Burt Bacharach nos anos 70, uma do Johnny Mathis e quase todo o repertório de Neil Sedaka. Dillinger está quase enlouquecendo.
O setor de atendimento telefônico não tem idéia do que seja Dillinger enlouquecido. Eles vão saber.

Possesso, Dillinger guarda as duas Glocks nos coldres, coloca sua cartucheira na cintura, carrega um fuzil AK-47, uma escopeta calibre 12, e guarda em uma bolsa duas granadas, duas facas, uma ampola de ácido sulfúrico, outra de cianureto lacrada e uma corda. Dillinger está pronto para qualquer coisa.
"Mission: go to the central telephonic callcenter of cable TV"
"Target: search and destroy"
As duas frases aparecem em seu telecomunicador prompter betagama. Dillinger entra em um bólido que o leva em questão de minutos ao local-alvo. Com habilidade felina, ele galga dois muros, sobe por uma calha e logo alcança a janela de um compartimento de almoxarife. Silenciosamente ele mata o chefe do almoxarifado com uma facada na garganta, não sem antes preencher em três vias para ele um requerimento chatérrimo que pede até o número de identidade da mãe.
Em silêncio, ele se arrasta encostado à parede principal, até alcançar a recepção antes da sala de call-center. Apesar de armado até os dentes, ele é obrigado a se sentar e pegar uma revista Manchete dos anos 80 que mostra todo o luxo e glamour do Concurso de Fantasias do Hotel Glória. Dillinger usa técnicas ninjas de auto-controle para não vomitar diante de uma fantasia intitulada O Grande Pavão Branco e Coberto de Mel Despeja o Encanto e a Purpurina sobre o Reino Encantado de Monteiro Lobato. Dillinger é valente e não se entrega. Logo é atendido e pede para ingressar no Call-Center. É autorizado. Assim que passa pela porta, faz reféns o chefe da mesa de Reclamações, dois atendentes e o rapaz de patins que leva água e cafezinho para as baias. Água quente, claro. Tão pensando o quê?
- O que você pensa que vai estar fazendo? - pergunta o chefe da mesa de reclamações. O grito em gerúndio chama a atenção dos 20 atendentes para a mesa de Vendas e do office-boy do setor de programação musical de Espera.
- Chame aqui imediatamente o coordenador de "Vamos Estar Transferindo A Ligação" (VETAL). Ou vou estar explodindo tudo com uma granada.
A divisão de resgate tático é acionada a quilômetros dali, mas a chegada é rápida. Dillinger mal terminou de transmitir suas exigências ao diretor da VETAL.
- Eu quero ser atendido por apenas UMA pessoa, você está me entendendo (sacode o cara pelo pescoço). UMA PESSOA, PORRA! TÁ ME ENTENDENDO (brande o revólver)?!?!?
O medo toma conta do call-center. As equipes táticas tomam posição do lado de fora, com dois snipers. Dillinger interrompe uma moça que estava começando a sorrir. Arranca de sua cabeça o fone e o microfone acoplados:
- Ei! Eu tinha acabado de vender um grill George Foreman!
Dillinger pergunta se ela não trabalha na TV a Cabo. Que porra é essa de George Foreman.
O diretor de VETAL coça a cabeça enquanto lá fora os megafones berram para Dillinger se entregar. Ele está confuso. Como assim, Grill George Foreman?
- É, você realmente não sabe. Não sabe - diz o diretor da VETAL.
Dillinger aponta a Glock e engatilha:
- Não sei o quê? Você vai falar agora.
- Estão todos aqui. Todos. Você achava que existiam vários callcenters, mas é ilusão. Existe apenas um. O Grande Call-Center.
O diretor da VETAL se dirige até uma porta grande que parece um armário, e a abre com um gesto só, quase hipnótico. A cena que se vê é incrível. Dá passagem para mais um salão, só que muito maior, do tamanho de um campo de futebol. Há dezenas de baias. Só se ouve vozes falando em gerúndio. E sons de ligações sendo transferidas.
Lá fora, os homens de preto preparam o lançador de granadas de efeito moral.
- Era isto que você queria saber?
- NÃO! - responde Dillinger, levando as mãos à cabeça. - NÃO! NÃO! FECHE ESTA PORTA!
O diretor fecha suavemente e passa um trinco. E volta para o lado dos outros reféns.
- SE ALGUÉM FALAR EM GERÚNDIO AQUI, AGORA, EU VOU EXPLODIR ESTAS GRANADAS COM TODOS AQUI DENTRO, OKAY? VOCÊS ME ENTENDERAM?
Dillinger está tenso. O telefone toca. É o capitão da equipe tática querendo negociar. Um dos funcionários é que atende.
- Pois não senhor. Vamos estar transferindo sua ligação para o setor responsável. Tenha em mãos seus documentos para um melhor atendimento.
Dillinger ouve isto e dá uma coronhada no funcionário. Tarde demais. A ligação foi transferida. O diretor de VETAL não contém um sorrisinho. Do lado de fora, o capitão fica tenso ao ouvir mais uma versão de "Pour Elise".
Dillinger continua suas exigências:
- Escute, quando eu digitar a porra do meu CPF no telefone, não quero que me peçam o mesmo CPF de novo, ok? Não faz sentido! Ou eu falo a merda do CPF, ou eu digito. Digitar e falar é sacanagem.
- Anotado, senhor. Vamos estar...
- NÃO! VAMOS ESTAR É O CACETE! Deixa eu falar, só. Veja, quando alguém ligar para a minha casa, não deve perguntar "com quem eu falo", não tenho que dizer meu nome para qualquer um que ligue, ok?
- Sim, senhor.
O telefone toca ao lado. É o capitão. O funcionário que atende aproveita para oferecer um Programa de Fidelidade em Hotéis que ao fim de um ano dá a chance de escolher duas diárias em uma cidade a sua escolha, e você ainda pode viajar pelo programa de milhas. E aceitando agora ganha uma bolsa de viagem.
- Dillinger, é você?
- Sim, sou eu. Estão todos reféns. Quero que aceitem minhas exigências, senão vou começar a matar todos, todos!
- Tenha calma. O local está cercado. Você não tem chance de fuga.
- Quero um meio de fugir, senão todos morrem.
A ligação cai e entra uma voz dizendo "Obrigado por ligar para a Equipe Tática, a sua ligação é muito importante para nós. Pressione 1 para seqüestro com morte, 2 para seqüestro sem morte, 3 para situação com reféns em via pública, 4 para situação com reféns em local privado, 6 para resgate de felinos em árvores e 9 para falar com um de nossos atendentes".

Dillinger pede ajuda ao diretor da VETAL:
- O comando tático também tem um call-center?
- Tem sim, e é da maior qualidade, todo informatizado, e você ainda tem...
- Não interessa! Como eu consigo falar de novo com o capitão? A ligação caiu.
- Senhor, infelizmente nosso sistema se encontra fora do ar. Tente mais tarde.
Dillinger está suado. Ele só queria que a televisão voltasse a funcionar. Não queria estar ali, ao lado daquele rapaz de óculos que foi interrompido enquanto cancelava o cartão de crédito de alguém; não queria estar perto daquela moça que explicava para uma velhinha as vantagens do Amex. Não, nada disso lhe interessava. Só queria terminar de ver Prison Break. Cansado, procurou a saída. Estava cercado. Só havia uma saída. Precisava paralisar o tempo. Tornar tudo relativo. Destruir o conceito de tempo-espaço. Transformar a realidade em algo tangível e inconstante. Destruir a estabilidade e o conhecimento. Visualizar um outro mundo.
Dito e feito. Pegou o celular, teclou alguns números. Levou o aparelho ao ouvido e, diante de todos os presentes, disse para a atendente do outro lado da linha.
- Bom dia, quero marcar a vistoria do Detran.
Os homens de preto se tornaram liquefeitos. O mundo passou a ser outro. Ou vai estar passando a ser.
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