21.01.09
Show do Elton John: perdi o inglês por uma música
Tudo é por dentro. Sério. Tudo é casca e ao mesmo tempo, o que acontece mesmo é por dentro, e acho que vem daí a mania de toda criança querer abrir o brinquedo para ver como funciona – muitas vezes o brinquedo é o avô ou mesmo um gato azarado o suficiente para não correr. Mas a criança descobre, o adulto vê e não entende. Eu mesmo não sei o que acontecia “aqui” dentro, na noite de segunda-feira na Praça da Apoteose. Elton John, responsável por alguns dos primeiros acordes a entrar nos meus ouvidos, dava show pela primeira vez na minha frente.
O show foi visto com milhares de olhos diferentes: teve o olho da TV, focalizando essa coisa patética e meio desengonçada que é o fã. Devoção é um negócio de doido. O cara que chega de madrugada para o show das 22h. Sei lá, cada um na sua – eu já cheguei mais cedo para Rolling Stones, Rod Stewart, Neil Young. Enfim, no fundo o fã é o que a TV mais gosta. É imagem. Um cara muito doido lá no gargarejo, berrando umas letras, e pronto Valdir, pode guardar a câmera, fizemos nossa sonora e nossa passagem, etc.
Há o olhar de quem vai apenas ver mais um show internacional. Elton John? Será que ele está velho? Em forma? Não está em forma? Vai tocar sucessos ou coisas novas?
Tem olhar a rodo, pode crer.
O meu olhar também era abstração pura: o que eu via/ouvia era aquilo, a coisa dos primeiros sons que eu ouvi na vida. Tive sinestesia quando tocou “Goodbye yellow brick road”. Senti cheiro de saudade, de casa no térreo, de geladeira velha de um andar só, de chegar da escola. Goodbye yellow brick road. Depois veio Rocket man dizendo que, bom, vai se passar um longo, longo, longo tempo.
Uma montagem simpática com cenas de Almost Famous
A cena em si, inesquecível, com Tiny Dancer
Houve também Tiny Dancer, aquela famosa cena de Almost Famous a nos assombrar o coração. Aquela cena, vocês sabem, assombra o coração. Pela liberdade monstruosa, medonha: um ônibus com sua banda preferida, uma música maravilhosa de Elton John, a estrada passando embaixo das rodas, um amor platônico ao lado que lhe diz a frase: “You ARE at home”. Em Tiny Dancer, a saudade é daquilo que nunca vivemos – nada pode ser mais perfeito para termos não-vivido do que um bom filme. Vamos não-viver os bons filmes. Para isto ainda temos tempo. Não sei se o mundo de hoje tem espaço para os sonhos contidos nesta cena genial do filme de Cameron Crowe.
E teve Daniel, Skyline Pigeons (de novo a me lembrar a infância), Your Song (a música do meu casamento com a Marcele), teve Sacrifice, The bitch is back, a deliciosa Benny and the Jets. Uma banda prodigiosa, guitarrista, baixista e baterista espetaculares, houve momentos em que pensei estar ouvindo os Doobie Brothers, banda sulista americana de virtuoses.
Mas era Elton John, aquele cara que eu conheci criança. Ele era uns 35 anos mais novo, tinha, hoje eu sei, 26 anos, quando eu ouvi sua voz pela primeira vez. Depois veio Pinball Wizard, ele interpretou quando Ken Russel resolveu filmar a ópera-rock Tommy, do The Who. Mas ali eu já me entendia por gente.
O que me perturba é que, quando criança, muito criança, eu não sabia quase nada de inglês ainda, mas entendia perfeitamente que quando cantava Goodbye Yellow Brick Road, ele estava se despedindo de alguma coisa. Sabia, apenas. Sem saber inglês. Este saber era ainda mais completo, e no entanto era ainda mais abismo.
Naquela noite de segunda-feira, eu esqueci que sabia inglês, de novo, como naquele tempo estranho e longínquo.
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Beijo procês ^^
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Mas o que eu fiquei pasmo aqui agora, é que eu encontrei alguem com o mesmo nome que o meu e que gosta de Elton John.
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