Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
Siga-nos no Twitter Gustavo de Almeida
Marcele Fernandes









13.01.09

O superhomem nunca vai ao supermercado

Ando com supermercados no pensamento. Sério. Além daquele texto do Osvaldo Soriano, magistral, sobre o gol de Sanfilippo dentro do Carrefour, tenho pensado nestes lugares peculiares da nossa vida moderna – enganam-se os que encontram paralelo no mundo antigo com os mercados ou vendilhões do templo, mafuás repletos de animais vivos e escravos. Nananina. Acho que no mundo antigo há pouca coisa que pode ser comparada a um supermercado moderno, a saber, pela ordem de menos para mais semelhança: uma construção de pirâmide com escravos arrastando pedras gigantescas, uma arena de gladiadores onde só sobrevive o mais forte e uma cidadela em chamas.

Principalmente os supermercados ditos “populares”. Linguagem simples? Supermercado de pobre. No Rio, Guanabara, Prezunic, Leão Camarada (já extinto), Mundial. Em São Paulo, não me lembro. Acho que é “ABC”. Me corrijam os paulistanos.


Exemplo de supermercado de primeiro mundo, na Alemanha

Do Leão Camarada eu me lembro com muito carinho, porque fazia uma promoção simpática, com um apresentador hiperativo que parecia ter saído de outro planeta. Veja bem, não que ele tivesse orelhas pontudas ou coisa assim, mas é que, de fato, não havia como imaginá-lo fazendo outra coisa a não ser falando rápido das ofertas do Leão Camarada e, claro, da promoção em si, que era a seguinte: se você recebesse a visita do cara, era obrigatório ter pelo menos um dos produtos da cesta do Leão Camarada. Tendo um, bingo! Um cestão de prêmios.

O curioso é que os produtos exigidos pelo Leão Camarada eram de um “top of mind” tão grande quando o dos patrocinadores do Alborghetti. Em outras palavras, ninguém comprava. Do Leão, havia o suco de Maracujá Pindorama e o Sabão Neutral Pastoso, que eu me lembre. E já que eu falei no Alborghetti, quem não lembra, no início da década de 1990, dos alimentos ZAELI, da KUERTEN MADEIRAS, do FRIGORÍFICO ALVORADA, e, principalmente, mas principalmente mesmo, do BAMERINDUS (veja bem, estou colocando em caixa alta porque os “reclames” eram gritados pelo Dalborga). O banco tinha um “reclame” maravilhoso:

- BAMERINDUS! O BANCO DA FAMÍLIA BRASILEIRA DO ESTADO DO PARANÁ! QUÉ IR, VAI, NÃO QUER, PROCURA OUTRO BANCO E NÃO VENHA AQUI ENCHER MEU SACO, ÔÔÔ MEEEEEEEEEERDA!

Não, eu não acho que tenha sido o marketing do Dalborga que acabou com o Bamerindus. Acho até que deu-lhe uma sobrevida. Mas, finda a digressão, hoje eu me peguei digressionando mais ainda dentro do Mundial. Estava cheio mas não lotado. Nem peguei fila nos caixas.

Andava pelas gôndolas. Pessoas com cara de sofrimento, com barriguinhas encruadas típicas da alimentação à base de pão com carne, rostos que não ganham creme, braços flácidos, idosos, solitários, pessoas de roupas gastas, gente com pouquíssimo dinheiro. Sim, estamos em um supermercado popular. Quase sinto vergonha de ter freqüentado o Zona Sul, supermercado de riquinho fresco, onde se pedem queijos com nomes aboiolados. E, principalmente, se fala pro cara dos laticínios que é pra “cortar bem fininho”.

Maluco, você não tem idéia de quanto eu tenho asco quando vejo a relação entre a madame e o cara que corta os frios. A mão perfumada e enrugada pedindo “uma provinha” daquele camembert.
Já no Mundial, é aquela alegria: um negão supersimpático (qualé, o cara é um negão mesmo, e negão não é racismo porra nenhuma senão o Pelé era o quê) corta só os queijos minas. Outras duas pessoas cortam os outros frios, de aspecto duvidoso. É engraçado eles colocarem um negão para cortar o quejo mais branco. Sei lá se eles quiseram dizer alguma coisa. Sei que o Minas é mais difícil de cortar, deve ser. Precisa de um cara só para isso.

Supermercado diz tudo sobre a nossa classe média – já que a dita Alta já não vai fazer compras. Quando vai, é no Zona Sul do Leblon, este bairro-Suíça encravado na Bombaim que é o Rio. E não compra detergente, bombril, Omo e cebola. Compra queijinhos, pãezinhos frescos, vinhos sortidos, cervejas de qualquer país menos do Brasil, chocolates belgas. As coisas essenciais para o funcionamento da casa quem compra é a empregada do rico. E no Zona Sul, claro.

A classe média oscila entre vários estamentos quando está em um mercado. Não me canso de lembrar do postulado genial do Engenheiro Cobra, que foi o primeiro a notar quando se desce o degrau social numa ida ao supermercado:

- É quando a gente pára de comprar o doce de leite embaladinho em plástico nas gôndolas, aquele de marca, e passa a comprar na seção de laticínio, aquela colherada dentro do pote.

Perfeito. Há os outros sintomas, como a própria troca de supermercado. Nós aqui em casa trocamos de vez o Zona Sul pelo Mundial, mas a princípio não tinha sido por motivos econômicos, e sim porque tive um desentendimento sério com um funcionário de lá – um sujeito que me desrespeitou pessoalmente, algo que não posso admitir “enquanto” consumidor. Nada foi feito, claro, já que o Brasil é o país do deixa-pra-lá. Mas para não tomar providências mais drásticas, eu e Marcele resolvemos parar de ir, simplesmente.

E a diferença no orçamento foi gigantesca. Com 100 reais no Mundial você volta carregado de sacolas. Com 100 reais no Zona Sul você compra um vinho, um pão e um queijo. E torce para o pão vir cortado.

Mas toda essa lenga-lenga é para dizer que, catzo, a vida pode reservar uma cena em um supermercado, sim. Uma daquelas cenas de fim de filme, ou de início de esperança ou documentário – o que vier primeiro. Prateleiras de carnes secas, toda aquela gente triste, vivendo, sobrevivendo, gôndolas de frios e iogurtes, e eis que o sistema de som do Mundial de Botafogo dispara:

“Where trouble melts like lemon drops/High above the chimney tops thats where you'll find me”*

Sim, era o Israel Kamakawiwo Ole com um ukelele tocando (Somewhere) Over the rainbow. Ninguém ouvia. Ou, para ser mais preciso, ali naquele ponto de encontro de pessoas cansadas de vida e suadas, só eu não ouvia. Israel emenda com What a wonderful world, vocês sabem. Aí corri para os caixas, onde o barulho das maquininhas e dos leitores óticos não me deixaria ouvir Israel e nem ver de novo as peles flácidas daquelas mãos cheias de calos e adeus.
Sei lá o que eu ia sentir.


***Lá onde os problemas derretem como gotas de limão, no alto, bem acima da fumaça das chaminés, onde você vai me encontrar

por Gustavo de Almeida as 23:36:58

Posts similares:
Cortar despesas: a Síndrome de Leão Camarada da classe média que aperta o cinto
9 truques para reduzir em 30% a conta do supermercado*
Quando passamos mais tempo no supermercado do que na Internet - Outro abandono do Eclipse


Comentários:


Sem Comentários para esse post ainda...

Seus comentários

Seus comentários::


Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)